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Gabo

Caro leitor, é chegado o momento. Você se encontra aí, diante das páginas ou da tela, à espera de Cem Anos de Solidão. Tanto melhor é deixar-se levar pela porta de entrada que García Márquez nos propõe com o título do romance.


Ao apontar algo bastante real, a cronologia, e ao mesmo tempo a proposta de uma extensão tão vasta que somente o ser humano poderá avaliar, um século de solidão. Assim, com a ausência de um verbo no título, o leitor se permitirá configurar à sua leitura a palavra de ação ou o verbo que melhor lhe convier.


Leia atividade didática de Literatura inspirada neste texto
Competências:
Analisar e interpretar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos e contextos
Habilidades: Estabelecer relações entre o texto literário e o momento da sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário

Dez pontos de contatos para uma proximidade garciamarquiana.

1) Auxilie os seus alunos a entenderem um pouco mais o que foi esse momento – décadas de 60 e 70, em particular na América Latina, quando escritores como García Márquez rompem no formato e na linguagem com as formas tradicionais da produção literária, chamado de boom latino-americano que constou basicamente em revelar ao mundo, uma literatura em língua espanhola, abordando temas culturais de países e regiões latino-americanas.

2) Apresente o Gabo jornalista: um grande repórter, um bom editor e um excelente colunista, além de ter sido o criador da Fundación para el Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI).

3) Busque sites que traga informações sobre o escritor em português e em espanhol.

4) Aproximação ao universo melódico macondiano: um pouco de som (Cumbia, ritmo popular colombiano, interpretado por um conjunto tornou-se muito popular no Uruguai e na Argentina, em particular nos anos 70 e 80, época em que a o romance começou a chegar aos leitores, Los Wanwanco).

5) Livros que contribuem para o detalhamento da trajetória de García Márquez: Viagem à Semente, de Dasso Saldívar; Viver para Contar, de GGM; Gabriel García Márquez: Uma vida, de Gerald Martin.

6) Saber que García Márquez foi um apaixonado por dicionários participou da edição de um deles e criou polêmicas em relação à gramática da língua espanhola.

7) Conhecer um pouco mais da figura de um Gabo intelectual, que participou de inúmeros acontecimentos e movimentos significativos para a história sociopolítica e cultural da América latina e do mundo.

8) Os bastidores de Cem Anos de Solidão: Como e quando o livro foi escrito? Explique a epopeia de 18 meses ininterruptos de trabalho em um espaço de sua casa no México!

9) Estimule os alunos a conhecer um pouco mais das histórias e do trabalho do tradutor, jornalista e escritor carioca Eric Nepomuceno, um dos tradutores de Cem Anos de Solidão para o português, e de outras obras de Gabo. 10) Explore o universo colombiano, tendo-se em vista que os caribes (habitantes da costa atlântica) são muito diferentes dos cachacos (habitantes de várias zonas da Colômbia, em particular da cidade de Bogotá).

Por se tratar de uma obra que já ultrapassou a tiragem de 50 milhões de exemplares e está entre as cinco mais lidas no mundo depois de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e a Bíblia; publicada em 36 idiomas, poderá causar, no mínimo, uma dose elevada de expectativa na leitura.

Um mundo louco, mágico, sensível, poético, histórico e ao mesmo tempo real vai se delinear a partir do primeiro conjunto de frases, das quais já se ouviu, à fartura, a reprodução: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Somada à expectativa da leitura, outra dose, agora de prazer, poderá se apresentar ao leitor. Afinal, é chegado o momento de compartilhar com o Prêmio Nobel de Literatura (1982) o universo ímpar construído sob a mescla de realidade e imaginação, de magia e fábula, o universo do realismo mágico. Sim, García Márquez ao publicar, em 1967, este que foi o seu terceiro livro de ficção, Ninguém Escreve ao Coronel (1958) e A Má Hora – O veneno da madrugada (1961), trouxe novidades literárias justamente para dar conta de uma realidade tão saturada de cores, imagens, emoções e paisagens, que as formas narrativas, os estilos literários dessa época, os anos de 1960, não eram suficientes.

Assim, criaram-se novas metáforas e maneiras de narrar com as quais García Márquez e outros escritores latino-americanos conseguiram expressar-se da forma que necessitavam. Nesta nova escritura de romances, os limites entre realidade e fantasia foram apagados. Os elementos fantásticos tomaram conta das histórias e dos personagens até se tornarem enraizados em seu cotidiano.

O sabor contagiante do discurso literário que exala de obras como Cem Anos de Solidão não elimina o compromisso de que seus autores e suas temáticas contundentes sempre se mantenham colados à realidade. E García Márquez não desvia de tal propósito quando denuncia acontecimentos históricos, principalmente as guerras civis e as ditaduras nas cerca de 450 páginas do romance que teve – a pedido de Gabo – outra tradução para o português a cargo de um dos amigos mais próximos do escritor, o também escritor e jornalista Eric Nepomuceno.

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Um dos episódios retratados no livro relata as agruras de uma companhia norte-americana junto aos trabalhadores do setor bananeiro e dizima 3 mil homens, referência a um acontecimento catastrófico que marcou a trajetória de Gabito na infância, quando da tal greve de 1928.

Para trazer tantas histórias à tona sob o signo daquilo que não é comum, do que é surreal, maravilhoso e fantástico García Márquez mune-se de recursos literários que remetem às técnicas do folhetim, portanto, da dinâmica da oralidade, o que se soma ao uso e abuso das hipérboles, ou seja, dos exageros. Essas marcas presentes em textos do realismo mágico se juntam, no caso de Cem Anos de Solidão, a outro elemento, a que o próprio autor chamou de carpintaria da escrita.

A forma de engrenar uma frase na outra, a partir da escolha de verbos, substantivos e adjetivos, imprimindo precisão nas ações e nas descrições, assim como na representação das emoções e dos sentimentos. No entanto, há de se acrescentar ao estilo “garciamarquiano” a forte presença poética. A escolha de um vocabulário muito mais aproximado aos escritores clássicos espanhóis do século XVIII, o século de ouro, por exemplo, uma de suas fontes de escrita, permite às frases e parágrafos ritmos ímpares.

O que resulta em um texto que transpira odores, temperaturas, colorações, sensações tácteis e sons. Não é à toa que borboletas amarelas em quantidades nada miseráveis tomam conta das páginas e da tela quando entra em cena o aprendiz de mecânico Mauricio Babilônia, totalmente apaixonado por Meme (Renata), filha de Aureliano Segundo.

Do mesmo teor, é permitido ao leitor sentir o cheiro da pele chamuscada da mão de Amaranta, a terceira filha de José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, que busca o fogo como autopenitência por não ter impedido o suicídio do noivo, e ter-se entregado a uma relação sexual amorosa com o sobrinho Aureliano José.

E para encerrar o ritual da iniciação ou do quebra-gelo, é preciso ficar com a certeza de que uma leitura única não dará conta da abundância de possibilidades de interpretação que o livro oferece. Assim como uma leitura primeira não alcançará as tantas referências pessoais ao escritor, ao seu país, à América Latina e às questões universais ali encravadas.

Daí entender-se como possível a interpretação de que as histórias vividas por Aurelianos e Arcadios em seus círculos e ciclos cíclicos que propositadamente se repetem em nomes e trajetórias de vida, possam remeter a um território sociopolítico-cultural chamado América Latina. Lugar esse, ao mesmo tempo mágico e real, destinado a enfrentar um século de solidão, consequência do abandono das questões centrais que movem as nações: políticas públicas, direitos humanos, qualidade de vida, educação.

Diante desse leque de interpretações plurais, inclui-se ainda a perspectiva de que o romance poderá resvalar em temas bíblicos e, a mais pessoal de todas as possibilidades, de autoria do próprio escritor, quando muito seguro de ser um colombiano “caribe”, ou seja da Costa Atlântica, afirmou “ser um simples notário e não ter inventado nada”. Quem mergulhar na cultura caribenha e nos outros registros de Gabo, crônicas e reportagens, que o diga.

São muitas as camadas que o texto do romance nos proporciona, por isso nos caberá, na condição de leitores críticos, escavações plurais e contínuas. Então, vamos a elas! Pois trata-se de uma sucessão de pequenas aventuras narrativas, providas da capacidade de trazer à luz o que o crítico uruguaio Ángel Rama chamou de pirotecnia incessante, distribuídas ao longo de 20 capítulos, que nos é apresentada sem títulos nem numeração.

Para o embarque nessa aventura leitora e literária pode-se ficar então com a máxima “em se tratando de Macondo tudo é possível”, uma vez que o leitor mesmo diante do exagero e do insólito, passará a selar um pacto de leitura com a verossimilhança com o texto.

Pois é em Macondo o cenário no qual se desenrola a ação dos 69 personagens. Esse lugar mítico e presente geograficamente na imaginação de García Márquez desde a sua juventude, quando se deparou com uma tabuleta nomeando uma fazenda de banana abandonada em uma das visitas à sua terra natal, a cidade de Aracataca. São homens e mulheres, jovens e centenários (a matriarca Úrsula Iguarán vive até os 120 anos), vivos e mortos que se juntam ao casal nuclear da história, os primos Úrsula Iguarán e José Arcadio Buendía, donos de ações e comportamentos singulares.

Ou melhor, ações e comportamentos completamente de acordo com o jeito macondiano de ser, e por isso enfrentarem-se a uma epidemia de insônia, uma chuva de quatro anos, onze meses e dois dias, a ascensão da lindíssima bisneta Remédios, filha de Aureliano Segundo, que em uma tarde ensolarada lança-se ao céu segurando um lençol, desaparecendo para sempre, e do padre Nicanor, que, depois de uma xícara de chocolate quente, sai do chão, levitando, com o intuito de chamar a atenção dos  fiéis durante uma celebração religiosa.

A história do romance começa quando Macondo se vê invadida por uma trupe de ciganos, cuja figura de destaque recai em Melquíades. Será ele o responsável pelo registro letrado da saga familiar – um pergaminho redigido em sânscrito – portanto, figura fundamental para decifrar a história dos Buendía, um século depois. O impacto maior dessas visitas estrangeiras que trazem o gelo e o tapete voador, entre outras maravilhas, para Macondo se dá junto ao patriarca, José Arcadio  Buendía, que abandonará afazeres familiares e domésticos para protagonizar uma série de experiências malsucedidas, como usar ímã para encontrar ouro na Terra.

Transformar outros metais em ouro e reproduzir peixinhos desse mesmo metal serão obstinações as quais o marido de Úrsula Iguarán passará a viver, ao lado do cigano Melquíades, em um processo de isolamento. Os sucessivos insucessos o apartam da família e, assim, do quartinho do quintal se transfere para uma árvore, onde se aninha em sua demência solitária.

Em contrapartida, a matriarca Úrsula passará a atuar como a figura agregadora e responsável por sete gerações. Em meio a dramas particulares de todos os que a rodeiam, filhos, netos, bisnetos legítimos e ilegítimos, permeados por incestos, mortes e, em particular, a luta árdua do filho, o coronel Aureliano Buendía, com o regime político vigente e toda a sorte de descompassos amorosos que convergirão em solidões.

Se o espaço geográfico mítico Macondo acolhe cenas como as intensivas e desnorteadas caminhadas da menina Rebeca, filha não natural dos Buendía, sob o tilintar de ossos de seus pais, acondicionados em um saco dependurado no ombro, o tempo cunhado por García Márquez ganha outra dimensão no romance. Assim há episódios que comungam o passado, o presente e o futuro, justamente como o anunciado na primeira cena do livro. Já na casa-sede dos Buendía, um século pode ser apresentado em episódios instantâneos.

Trata-se então de um tempo irreal. Elemento que permitirá ao leitor acompanhar o final da estirpe dos Buendía. Não necessariamente com o desaparecimento do patriarca José Arcadio, mas com a morte do mais jovem integrante do clã macondiano, o bebê ainda sem nome que, natimorto, levou igualmente sua mãe, Amaranta Úrsula, à morte durante o parto e o pai, Aureliano, quase à loucura. Fruto de um amor  entre uma tia e um sobrinho,  a criança nasceu com um rabo de porco, como temeu Úrsula Iguarán durante toda a sua vida, afinal, ela casou-se com o primo. E fica a leitura para pelo menos mais cem anos!

*Publicado originalmente em Carta na Escola