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Racismo nos EUA

Em 2008, Barack Obama foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O evento foi considerado por muitos como o anúncio de uma nova era, sem as tensões raciais que haviam marcado a história do país.


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Uma nova 
história 
do negro 
brasileiro

Contudo, os discursos que celebravam uma era pós-racial nos Estados Unidos logo perderam a força diante da repetição de incontestáveis atos de racismo. Seis anos depois, em agosto de 2014, o garoto negro Michael Brown, de 18 anos, foi alvejado e morto por um policial branco na periferia da cidade de Ferguson, no estado do Missouri. Michael estava desarmado. O caso deu origem a uma série de protestos pelo país contra a violência policial, que remetem a sociedade norte-americana a uma longa história de violência e segregação racial.


Leia atividade didática de História inspirada neste texto
Competências: Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
Habilidades: Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder. Avaliar criticamente conflitos sociais, políticos, econômicos ao longo da história.

1) Exiba o filme O Mordomo da Casa Branca, dirigido por Lee Daniels, e faça um debate sobre o histórico de violência racial nos Estados Unidos. Uma questão que pode encaminhar a discussão é a das posições políticas dos personagens (pai e filho) na narrativa. Procure discutir também o significado da eleição de Barack Obama no filme.

2) A partir de notícias relacionadas aos recentes casos de racismo nos Estados Unidos, discuta a abordagem policial nesses eventos, fazendo uma análise paralela com a realidade brasileira.

A democracia nos Estados Unidos foi comprometida por uma hierarquia racial estruturada desde o período da escravidão e que ganhou novos contornos no período pós-abolição. Apesar das tentativas de inclusão da população negra no período da Reconstrução (1865-1877) – logo após a Guerra Civil e a abolição – forças políticas orientadas pela ideia de supremacia branca procuraram marginalizá-la, definindo uma cidadania de segunda classe para os negros.

Em 1896, uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos consolidaria o processo de segregação na sociedade norte-americana. O resultado do caso Plessy vs. Ferguson deu força à interpretação de que a separação de negros e brancos no espaço público não violava a igualdade de direitos garantida pela 14ª Emenda da Constituição. O argumento era o de que a segregação seria justa desde que cada grupo racial desfrutasse de serviços públicos da mesma qualidade, oficializando a doutrina “separados, mas iguais”, que vigorou até a ascensão do Movimentos pelos Direitos Civis na década de 1950.

Desde as primeiras décadas do século XIX, é possível identificar a articulação política dos negros em torno da igualdade de direitos. Nas comunidades de negros livres circulavam periódicos que problematizavam a discriminação, a escravidão e os projetos de colonização que pretendiam enviar os negros para algumas regiões do continente africano.

Na primeira década do século XX, as organizações políticas emergiram a partir da intensa migração de negros para cidades do norte como Nova York, Chicago, Boston e Detroit. Os trabalhadores que fugiam da violência racial e da recessão nos estados do sul contribuíam para o crescimento das comunidades negras no norte do país, que se transformariam em base de operação do ativismo negro.

Portanto, antes que Rosa Parks, Martin Luther King Jr. e Malcom X ascendessem como lideranças do movimento negro nos Estados Unidos, figuras como Ida B. Wells, William DuBois e Marcus Garvey cumpririam o papel de institucionalização do ativismo negro por meio de organizações como a National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), e a Universal Negro Improvement Association (Unia). Nesse período, contudo, não havia ainda um arranjo institucional na política norte-americana capaz de contemplar demandas pela integração racial e o combate à violência. Os partidos políticos, até mesmo o Republicano, não demonstravam interesse na causa dos negros dos Estados Unidos.

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História negra, escola branca

As mudanças viriam durante a administração do presidente Franklin Roosevelt (1933-1945). O democrata, que assumiu o poder com a incumbência de tirar o país da depressão econômica após a crise de 1929, manteve-se distante das lideranças negras, mas o conjunto de políticas de seu governo ajudou a criar um ambiente favorável à ascensão do Movimento pelos Diretos Civis. Durante a era de Roosevelt, a população negra abandonaria o Partido Republicano, até então associado à figura de Abraham Lincoln, para dar uma nova face ao Partido Democrata, que tinha sua imagem associada aos políticos racistas dos estados do sul.

A administração de Roosevelt, por meio do New Deal, procurou regular a economia e mobilizar recursos para programas sociais destinados à enorme quantidade de desempregados que sofria com a crise econômica. O índice de desemprego entre os negros chegou a 40% e muitos dos auxílios governamentais foram distribuídos desproporcionalmente em favor dos cidadãos brancos. Ainda assim, a população negra interpretou a atuação governamental, sobretudo após a estruturação do sistema previdenciário em 1935, como um avanço. Os auxílios e as oportunidades de emprego em obras públicas, apesar dos inúmeros casos de discriminação, tiveram impacto positivo sobre as condições dos negros em algumas regiões do país.

Com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a indústria norte-americana ganhou um novo fôlego, incluindo cada vez mais trabalhadores negros e intensificando a migração para o norte, onde não havia restrições formais ao voto. Na década de 1950, o eleitorado negro ganhava cada vez mais força, obrigando os políticos a responderem às demandas do ativismo. Por outro lado, a Suprema Corte norte-americana, durante o período de administração democrata, mudou a sua composição, ganhando um perfil cada vez mais progressista. Em 1954, o caso Brown vs. Board of Education, decidiu favoravelmente à integração de uma escola na cidade de Topeka, no estado do Kansas, abriu um precedente para que as leis segregacionistas fossem derrubadas.

Assim, em um período pós-guerra no qual os Estados Unidos procuraram se colocar como uma referência de democracia, os ativistas negros, após anos de pressão, aproveitaram as brechas políticas e exigiram a igualdade de direitos, questionando as contradições de uma sociedade na qual simultaneamente ecoava os discursos de terra da liberdade e segregavam-se as minorias raciais.

Em 1955, em Montgomery, no Alabama, Rosa Parks negou-se a ceder o seu banco a um cidadão branco, desafiando a cultura segregacionista do sul. A ativista foi encarcerada, provocando indignação da população negra, que, posteriormente, tomou a decisão de boicotar o sistema de transporte da cidade. Esse ato foi um dos eventos que precipitaram a ascensão do Movimento pelos Direitos Civis, que mobilizou setores populares e incorporou ao amplo repertório de protesto negro as estratégias de não violência.

Martin Luther King emergiu como figura proeminente do movimento, após liderar o boicote de Montgomery. Por meio da Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC), King demonstrou sua capacidade como articulador e orador, lançando mão de recursos do discurso religioso e explorando símbolos da identidade nacional norte-americana, como a Constituição e as figuras dos pais fundadores da nação. A sua posição integracionista, que se reportava a valores democráticos atribuídos aos Estados Unidos, inspirou não somente os negros, mas uma parcela de progressistas da população branca.

À medida que Martin Luther King se deslocava entre as cidades segregadas racialmente, outros grupos de ativistas se mobilizavam orientados pelas estratégias de não violência. Os membros do Congresso pela Igualdade Racial (Core) ganharam destaque com os Freedom Riders, um grupo de jovens negros e brancos que viajava entre os terminais de ônibus para forçar a integração racial, ocupando espaços reservados aos brancos. A jornada desses ativistas pelo sul do país foi uma entre as várias táticas que desafiavam o racismo norte-americano.

A ação dos ativistas, contudo, dependia da manifestação do governo federal, que em muitas circunstâncias preferiu não desafiar a força política dos segregacionistas. Foi na administração do presidente Lyndon Johnson (1963-1969) que o movimento chegou ao seu auge, ganhando cada vez mais adeptos, chocados com as cenas de violência perpetradas contra senhoras e crianças negras e captadas em imagens televisivas que circulavam nacionalmente. Em 1964, um enorme passo foi dado com a aprovação do Civil Rights Act, legislação que declarava a ilegalidade da discriminação baseada na raça, cor, sexo, religião ou origem, dando um grande impulso à integração racial em espaços e instituições públicas.

A legislação, contudo, não foi suficiente para suprir as expectativas dos cidadãos negros, ávidos por mudanças drásticas nas relações sociais. Em algumas cidades do norte e do oeste do território norte-americano, onde o racismo não se manifestava por meio de leis segregacionistas, a situação da população negra pouco mudou, criando terreno fértil para um ativismo com posições políticas mais radicais orientadas pela ideologia do Black Power. O assassinato de Martin Luther King, em 1968, reforçou as posições de organizações como os Panteras Negras, que defendiam a autonomia dos negros em relação aos brancos, revivendo uma tradição de separatismo negro que teve Marcus Garvey e Malcom X como figuras importantes.

A radicalização do movimento negro quebrou aliança com os setores mais progressistas entre a população branca, freando avanços na integração racial. Na década de 1970, conservadores republicanos, que se opunham aos programas sociais criados ao longo da era de hegemonia dos democratas, exploraram as tensões raciais com intuito de conquistar o eleitorado branco descontente com economia e com os rumos da militância negra.

Em 1980, o republicano Ronald Reagan assumiu a Presidência com a promessa de corte de gastos, atingindo os programas sociais associados aos democratas. Paralelamente à ofensiva às políticas do bem-estar social, que teve impacto negativo sobre as populações negra e pobre, foram criadas as condições para uma guerra ao tráfico de drogas. O presidente Reagan, durante a sua administração, fez um grande investimento para reprimir o consumo de drogas ilícitas, contribuindo para crescimento vertiginoso do encarceramento.

Nesse contexto, no qual as leis de segregação racial haviam sido eliminadas, o aparato repressivo estruturado para coibir o tráfico de drogas acabou reforçando a marginalização dos negros, assegurando a existência da hierarquia racial norte-americana. Ainda que os brancos fossem maioria dos traficantes e usuários, os negros das zonas urbanas se transformaram no grande alvo. Na década de 1980, inicia-se o encarceramento em massa de homens negros e latinos, com a polícia desempenhando uma função primordial.

A guerra às drogas nos Estados Unidos sustenta-se a partir da aplicação de leis rigorosas e depende da liberdade de ação de promotores e policiais, que reproduzem o racismo a partir da racialização do crime. Nessa lógica de operação da polícia, os cidadãos negros são identificados como elementos suspeitos com frequência maior que os brancos.

Este fenômeno é importante para a compreensão dos atuais conflitos raciais nos Estados Unidos, nos quais os policiais de maneira bruta assassinaram jovens negros. Os casos nas cidades de Ferguson e, mais recentemente, Baltimore, revelam aspectos de uma hierarquia racial que se reestruturou no período pós-direitos civis. O que se observa não é necessariamente a evolução de um processo de integração racial, mas um racismo que funciona de maneira distinta. A eleição de Obama não inaugurou uma era pós-racial, apenas revelou uma realidade já comum para os latino-americanos, na qual as práticas racistas são reproduzidas sem a necessidade de uma legislação segregacionista.

*Doutor em História Social pela USP e pesquisador do Laboratório de Estudos de História das Américas (LEHA)