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Armênia

Em 2015, lembramos os cem anos do genocídio armênio, um dos primeiros do século XX. É impossível estimar com exatidão a quantidade de armênios mortos pelo exército otomano em 1915, mas estimativas apontam para um total de 500 mil a um 1,8 milhão de mortos. O acontecimento é relembrado todos os anos no dia 24 de abril – feriado na Armênia em memória às vítimas do massacre.


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O século XX foi marcado por uma série de genocídios – definido como a tentativa de destruição total ou parcial de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Todo e qualquer genocídio é, em princípio, irrepresentável e incompreensível, tamanha a crueldade dos atos neles implicados. São situações que atingem o limite da razão histórica, sendo assim perigoso dizer que “compreendemos as razões” de um genocídio (seria uma forma de justificar atos injustificáveis). Devemos, portanto, ter cuidado ao rememorar tais histórias, pois haverá sempre algo de incompreensível por detrás de tamanha violência.

Leia atividade didática de História inspirada neste texto
Competências: Compreender as transformações dos espaços geográficos como produtos das relações socioeconômicas de poder
Habilidades:
Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações. Analisar a ação dos Estados nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico-social

1 – Pesquise a história da comunidade armênia em São Paulo. Quais seus traços culturais característicos? Em que bairro possuem centros de convívio?

2 – Procure na internet a origem etimológica da palavra “Ararat”, nome da montanha reverenciada pelos armênios. Qual é a relação que se pode estabelecer entre essa palavra e o aspecto simbólico da montanha para a identidade cultural armênia?

3 – Investigue a história da Rota da Seda e a sua importância para a história da Armênia e da Europa.

A República Armênia é atualmente um pequeno país, extremamente rico culturalmente e pobre economicamente. A existência de uma civilização armênia na região do Cáucaso remonta há pelo menos 2 mil anos antes de Cristo, senão ao limiar da Pré-História. Região montanhosa entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, o Cáucaso é limitado ao norte pela Rússia e ao sul pelo Irã. Trata-se, portanto, de uma verdadeira encruzilhada geográfica, capaz de promover o encontro entre povos de línguas e culturas diversas.

Por duas vezes, a Armênia configurou-se em grandes Estados soberanos. O primeiro foi o Reino da Armênia, que existiu do século IV a.C. ao século V d.C. Nesse período, a Armênia adotou o cristianismo como religião oficial. Trata-se do primeiro país a declarar essa religião como culto de Estado, cuja data de conversão remonta a 301 d.C. O país segue até hoje os preceitos da Igreja Apostólica Armênia, que possui uma concepção particular do cristianismo. Trata-se de um cristianismo essencialmente místico, que louva o Cristo da ressurreição mais do que o da cruz.

O segundo período soberano da Armênia deu-se durante a Idade Média, com o Reino Armênio da Cilícia, que durou do 11º ao 14º século. Na época, o Cáucaso era um importante ponto de passagem na rota comercial que ligava a Europa à China (a famosa Rota da Seda). Por ser cristã, a Armênia gozava de posição privilegiada junto aos ocidentais, que buscavam produtos luxuosos no Oriente. O papel de conector comercial e cultural entre Oriente e Ocidente levou a Armênia a produzir uma síntese entre esses dois mundos. Até hoje a poesia, a iluminura e a arquitetura armênias impressionam por seu estilo tão singular, de influências persas, bizantinas e góticas.

Mas com a exceção desses dois períodos de soberania, a Armênia manteve-se dividida entre dois impérios. Se após a queda do Reino da Armênia o país se dividiria entre os impérios bizantino e persa, após a queda da Cilícia o país se dividiria entre os impérios otomano e persa. Essa divisão deu origem a duas armênias até hoje conhecidas como Armênia Ocidental e Armênia Oriental. Veremos como a Armênia Ocidental, destruída pelo Império Otomano no início do século XX, dispersou-se em exílio através de diversos países do globo.

Apesar de dividida e dominada por grandes potências, a Armênia resistiu graças à sua forte identidade cultural (que tem como principais alicerces a religião cristã, o alfabeto armênio e o vínculo à terra natal). Essa identidade armênia tem como centro simbólico o Monte Ararat. O Ararat é uma montanha de 5.137 metros de altura. Segundo a Bíblia, a Arca de Noé teria aterrissado nela após o evento do Dilúvio. Essa montanha, portanto, para os armênios, a primeira terra ou o centro do mundo, um símbolo religioso de tamanho descomunal. No entanto, se a montanha pode ser vista da capital do país, Yerevan, o seu acesso é vedado aos armênios, pois o Ararat fica atualmente na Turquia e a fronteira entre os dois países é fechada.

A Turquia é herdeira direta do Império Otomano, Estado turco fundado em 1299 que se tornou uma das maiores potências mundiais já no século XVI. A Armênia Ocidental, conhecida por ser detentora da cultura religiosa mais avançada do país, fazia parte do Império Otomano e pagava impostos altos por ser cristã dentro de um território muçulmano. Já a Armênia Oriental passou da mão dos persas para os russos no século XIX.

No fim do século XIX, o Império Otomano viu-se enfraquecido diante do avanço do Império Russo. Buscando garantir seu território caucasiano diante da ameaça russa, os otomanos começaram a pressionar os armênios (encarados como possíveis aliados dos russos), cobrando impostos cada vez mais altos e jogando a população curda contra os vilarejos da Armênia Ocidental. O Império Otomano dava início, assim, a um período de deportações e massacres.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a situação se agravou. O Império Otomano aliou-se à Alemanha, tornando-se inimigo declarado dos russos e passando a olhar ainda com mais desconfiança os armênios em seu território. Até que, em 1915, os otomanos assumiram o objetivo de extermínio total dos armênios que viviam em seu território. Muitos morreram em batalha ou foram executados. Outros morreram por conta do deslocamento forçado ou durante o exílio. O Império Otomano construiu campos de concentração, que, mais tarde, serviram de modelo para a Alemanha nazista. É conhecido o fato de Hitler ter acreditado que um dia esqueceríamos o extermínio dos judeus assim como teríamos esquecido o extermínio dos armênios. “Afinal, quem fala hoje do extermínio dos armênios?”, disse o ditador da Alemanha nazista, buscando justificar seus campos de concentração.

O genocídio acarretou uma diáspora: Rússia, França, Estados Unidos, Líbano e Irã foram os principais países a receber os refugiados. Tamanho deslocamento gerou um novo fenômeno de transformações culturais. Enquanto na Armênia vivem atualmente 3 milhões de habitantes, 8 milhões estão em diversos países. Na Etiópia, por exemplo, um estilo de música chamado tezeta (que significa “memória” ou “nostalgia”) recebeu fortes influências de músicos armênios que tocavam nas ruas de Jerusalém. No Líbano foram fundadas importantes escolas que ensinam até hoje a língua e a cultura da Armênia Ocidental.

No Brasil, São Paulo é um exemplo de cidade que possui uma comunidade armênia. O grupo não é tão numeroso (são 25 mil armênios, incluídos os descendentes nascidos no Brasil), mas possui muita força cultural.

Após o genocídio e a Primeira Guerra Mundial, a Armênia Oriental (que passou por um curto período de independência republicana) foi incorporada à União Soviética. O arranjo deu estabilidade a um país que se via à beira da desaparição total, mas, após o colapso da União Soviética, a Armênia voltou a entrar em guerra, dessa vez com o Azerbaijão (que também se considera herdeiro do Império Otomano), e até hoje luta pelo reconhecimento da região de Karabakh (atualmente no Azerbaijão) como território nacional.

Infelizmente, a Armênia não é mais aquela antiga encruzilhada entre culturas e rotas comerciais. Tanto a fronteira com o Azerbaijão quanto com a Turquia estão fechadas. A principal via de acesso ao país montanhoso está no único aeroporto do país, em Yerevan. Além disso, há duas pequenas estradas que conectam o país com a Geórgia e com o Irã.

Os armênios lutam pelo reconhecimento do genocídio (até hoje não admitido pelas autoridades turcas). Muitos têm esperança de que neste centenário ocorra uma mobilização internacional capaz de pressionar o governo da Turquia na direção do reconhecimento, possibilitando o surgimento de um diálogo entre os dois países e a abertura de suas fronteiras. Seria algo a se festejar, pois, finalmente, os armênios teriam acesso a seu símbolo milenar: o Monte Ararat.

Lucas Parente é videasta e escritor, formado em História pela Universidade Federal Fluminense e em Filosofia

Saiba Mais

Filme: Arat, de Atom Egoyan (2002)

*Publicado originalmente em Carta na Escola