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Mário de Andrade
Mário publicou seu primeiro livro de versos modernistas, Pauliceia Desvairada, em 1922

Mário de Andrade certa vez afirmou ser um dos costumes brasileiros perguntar às crianças o que vão ser quando adultos. Logo depois, lembrou: “Foi o que fizeram também comigo uma vez, eu não teria 10 anos. Fiquei atrapalhado, com muita vergonha de mim, e de repente, escapei: vou ser médico (…)”. Mas não foi essa a profissão seguida pelo escritor, que, como tinha muitas vocações, acabou atuando em diversas áreas.


Foram tantas as formas de trabalho encontradas por Mário, que ficava em dúvida, como nos conta em Namoros com a Medicina: “Sinto sempre uma hesitação danada quando, nos hotéis, enchendo a ficha de hospedagem, tropeço no ‘Profissão’. Pianista? Professor? Jornalista? Crítico de arte? Folclorista? Ou mais recentemente: Funcionário público? Só me arrependo de não ter ficado médico por causa dos fichários dos hotéis” (Itatiaia, 1980)

Mário de Andrade foi intelectual incansável. Escreveu textos sobre música, estética e literatura, artes plásticas, arquitetura, cinema e folclore brasileiro. Teve importante papel na formação de diversos escritores, com os quais se correspondia.

Leia atividade didática de Literatura baseada neste texto
Competências: Analisar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos
Habilidades: Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção; Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário

Trabalhe, por meio da leitura em voz alta, a música dos versos de Mário de Andrade com os alunos do Ensino Médio

1)É interessante propor aos alunos a leitura de poemas em voz alta, para que percebam o ritmo dos versos, um dos elementos fundamentais do texto poético. No caso de alguns poemas de Mário de Andrade, como a forma poética está próxima da música, é interessante ler acentuando os traços musicais.

2) Para isso, depois de apresentar o poeta, proponha aos alunos leitura do poema “A menina e a cantiga”, dividindo a sala em grupos. Um deles poderá reproduzir a fala fina e musical da menina, outro, a tonalidade grossa da voz da avó e um terceiro, o trecho em prosa do narrador.

3) Peça que transformem o poema em música. Para isso, enquanto a leitura é feita, um quarto grupo bate com canetas nas carteiras, como se fosse a varinha da menina, marcando o compasso. No início, podem ficar próximos do ritmo proposto pelo poema, mas depois deixe-os livres para criarem diferentes versões musicais. Ao final, lembre-os de que Heitor Villa-Lobos também musicou o poema.

Além disso, foi professor no Conservatório, tendo dado aulas também na Universidade do Distrito Federal. Foi criador do importante Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e diretor do Departamento de Cultura de São Paulo, local em que implantou projetos culturais, como os parques infantis, que davam às crianças de origem humilde chance de entrar em contato com jogos, arte e tradições populares.

O escritor também foi nome de referência no Modernismo brasileiro, tendo produzido, no campo literário, crônicas, obras narrativas, como Macunaíma (1928), além de vários livros de poemas. Dentre eles, é interessante nos determos naqueles publicados na década de 1920, na tentativa de compreendê-los, por meio da leitura atenta de alguns poemas. Os versos de Mário que leremos, a seguir, foram transcritos da nova edição das Poesias Completas, preparada por Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez.

Mário publicou sua primeira obra modernista, o livro de versos Pauliceia desvairada, em 1922, o mesmo ano em que aconteceu, em São Paulo, a Semana de Arte Moderna. Tanto o livro quanto o evento revelam os ideais dos modernistas, críticos em relação à arte passada e defensores da liberdade de criação e de novas formas do fazer literário, mostrando-se antenados, portanto, com as inovações de vanguarda da Europa.

No livro de 1922, os poemas de Mário apreendem os ruídos e as cenas da cidade, conseguindo, por meio da combinação de sons, transformar, em matéria de poesia, o movimento rápido e entrecortado do tempo moderno. Assim, aparecem nos versos o balanço dos bondes, o movimento dos automóveis e os passos dos moradores, pela rua, orquestrados por sons simultâneos que revelam as contradições da capital.

Ao voltar o olhar para a própria cidade, o poeta busca compreender parte da paisagem de seu País e, ao mesmo tempo, definir a si mesmo. Dessa forma, os versos revelam o interesse modernista de valorizar e resgatar traços da identidade brasileira. Esse interesse, que aparecerá de maneira ampliada nos livros seguintes, anda ao lado da absorção crítica dos preceitos vanguardistas.

No poema de abertura do livro, o eu lírico anuncia-se como trovador, numa alusão aos poetas da Idade Média que perambulavam pelos castelos, entoando versos acompanhados por um alaúde, instrumento de cordas usado em canções eruditas.

O trovador

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo…
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…

Sou um tupi tangendo um alaúde!

(Poesias Completas, Mário de Andrade, edição de Tatiana Longo Figueiredo e de Telê Ancona Lopez, Nova Fronteira, 2013)

O poema parece difícil de ser lido. No entanto, conseguimos captá-lo melhor, se pensarmos em cada verso como se fosse um trecho de melodia musical. Assim, a leitura de um depois do outro causa a sobreposição sonora, criando a impressão de música.

Essa elaboração formal do poema, que embaralha frases distintas, vem junto de outro aspecto: a harmonização de elementos opostos, já que o poeta sente em si, assim como percebe na paisagem, traços que são contraditórios: o calor primitivo das “primeiras eras”, preservado na civilização brasileira, por exemplo, no pensamento indígena, e o frio, que pode ser entendido como referência ao clima europeu, também formador da identidade de nosso país.

Retomando esses dois elementos, o verso “Cantabona! Cantabona!” remete ao som da batida dos tambores indígenas e “Dlorom…”, ao harpejo das cordas do alaúde europeu, fazendo soar os opostos formadores de nossa civilização, sintetizados no verso final – “Sou um tupi tangendo um alaúde!”

No segundo livro de Mário de Andrade, Losango Cáqui (1926), o lirismo intimista do eu poético aparece em tom mais ameno. No entanto, o olhar do eu continua a se dirigir à cidade de São Paulo, como em Pauliceia Desvairada, destacando, ao lado dos exercícios militares e do amor pela mulher de cabelos fogaréu, a cena prosaica, como no poema “A menina e a cantiga”.

A menina e a cantiga

… trarilarára… traríla…

A meninota esganiçada magriça com a saia voejando por cima dos joelhos em nó vinha meia dançando cantando no crepúsculo escuro. Batia compasso com a varinha na poeira da calçada.

… trarilarára… traríla…

De repente voltou-se pra negra velha que vinha trôpega atrás, enorme trouxa de roupas na cabeça:
– Qué mi dá, vó?
– Naão.

… trarilarára… traríla…

(Poesias Completas, Mário de Andrade, edição de Tatiana Longo Figueiredo e de Telê Ancona Lopez, Nova Fronteira, 2013)

A leveza e a alegria do refrão da menina – “trarilarára…”– contrasta com a parte em prosa na qual, por meio de palavras que apresentam a letra “r” intercalada – negra, trôpega, atrás, trouxa –, a sonoridade reconstrói tropeços da avó, a caminhar pela rua. Logo depois, a pergunta da menina – “Qué mi dá, vó?” –, formada por monossílabos, soa como notas musicais (Ré, Mi, Lá, Sol). Quando a avó responde, com o “– Naão”, longo e anasalado, é como se soasse uma nota grave a compor a música encontrada nas ruas.

Em seu terceiro livro, Clã do Jabuti, publicado em 1927, Mário incorpora, aos poemas, os sons, os ritmos, a música e as lendas da tradição popular, procurando, por meio do resgate da diversidade cultural do Brasil, compreender e afirmar nossa identidade, já que, como lembra Telê Ancona Lopez, “não pode haver cultura que não reflita as notas mais profundas da terra onde ocorre” (Mário de Andrade: Ramais e Caminho, Telê Ancona Lopez, Duas Cidades, 1972).

Pessoas de diversas nações, ao imigrar, trouxeram ao Brasil tons diferentes que, sobrepostos, criaram nossa tradição complexa e múltipla. Ao procurar apreender essa mistura, Mário busca dar valor ao acorde cultural brasileiro, já que, como ele afirma, em carta a Drummond, “o dia em que nós formos inteiramente brasileiros e só brasileiros a humanidade estará rica de mais uma raça, rica duma nova combinação de qualidades humanas. As raças são acordes musicais. Um é elegante, discreto, cético. Outro é lírico, sentimental, místico e desordenado. […] Quando realizarmos o nosso acorde, então seremos usados na harmonia da civilização” (Carlos & Mário, Mário de Andrade, prefácio e notas de Silviano Santiago, organização de Lélia Coelho Frota, Bem-te-vi, 2002). Vale lembrar que, no tempo de Mário, “raça” queria dizer “povo”.

“Tostão de chuva”, um dos poemas do livro Clã do Jabuti, mostra o tom do contador de casos popular retomado pelo poeta erudito, em busca da definição da face múltipla e complexa do Brasil.

Tostão de chuva

Quem é Antônio Jerônimo? É o sitiante
Que mora no Fundão
Numa biboca pobre. É pobre. Dantes
Inda a coisa ia indo e ele possuía
Um cavalo cardão.
Mas a seca batera no roçado…
Vai, Antônio Jerônimo um belo dia
Só por debique de desabusado
Falou assim: “Pois que nosso padim
Pade Ciço que é milagreiro, contam,
Me mande um tostão de chuva pra mim!”
Pois então nosso “padim” padre Cicero
Coçou a barba, matutando e disse:
“Pros outros mando muita chuva não,
Só dois vinténs. Mas pra Antônio Jerônimo
Vou mandar um tostão”.
No outro dia veio uma chuva boa
Que foi uma festa pros nossos homens
E o milho agradeceu bem. Porém
No Fundão veio uma trovoada enorme
Que num átimo virou tudo em lagoa
E matou o cavalo de Antônio Jerônimo.
Matou o cavalo.

(Poesias Completas, Mário de Andrade, edição de Tatiana Longo Figueiredo e de Telê Ancona Lopez, Nova Fronteira, 2013)

Como se repetisse a pergunta de algum interlocutor – “Quem é Antônio Jerônimo?”, o eu lírico inicia a narração do “causo” do sitiante na maneira de falar típica das conversas prosaicas, percebida também em trechos como Dantes/ Inda a coisa ia indo, padim pade Ciço e Pros outros mando muita chuva não.

A história apresenta o sitiante Antônio Jerônimo que, “por debique de desabusado”, ou seja, por ser atrevido, faz um pedido desafiador ao santo popular, mostrando-se incrédulo na sua realização. O sitiante revela ainda seu egoísmo, ao pedir água apenas para ele, ignorando o sofrimento do povo com a seca. Além disso, ele tenta negociar com o santo, utilizando, como medida da água pedida, o valor monetário – um tostão.

Dessa forma, como agiu sem humildade, com falta de fé e egoísmo, ofendeu ao santo padrinho, recebendo, como punição, exatamente o que tinha pedido, ou seja, os “tostões” de água que, no entanto, alagaram o “fundão”. Percebe-se, assim, que Mário de Andrade compõe seus versos de maneira semelhante a poemas populares tradicionais que narram casos de pessoas que recebem punição por terem afrontado o padre Cícero. O poeta faz isso, retomando o tom popular e recuperando a religiosidade marcante do povo brasileiro, traços que fazem parte da identidade complexa do Brasil.

Por meio da leitura de poemas dos primeiros livros modernistas de Mário de Andrade, pudemos perceber como o poeta apreende a multiplicidade brasileira, encontrada por meio de pesquisas e de viagens de estudo, incorporando-a a seus versos. Ao fazer isso, busca compreender a própria complexidade, mostrando a consciência do ser fragmentado no poema de abertura do livro de 1930, Remate de males, em que afirma ser “trezentos, […] trezentos-e-cinquenta”.

*Cristiane Rodrigues de Souza é doutora pela USP, com orientação de Alcides Villaça, faz Pós-doutorado no IEB-USP, sob supervisão de Telê Ancona Lopez, com apoio da Fapesp.