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Salvador Dalí

Entrar em uma exposição com obras de Salvador Dalí (1904-1989) pode ser uma experiência inesquecível. Sua maneira irreverente de viver marcou a maioria de suas obras que não deixam ninguém impassível: ame-o ou deteste-o.


Quem observa as pinturas do artista catalão é atraído pela sensação de que as coisas nem sempre são o que parecem ser. O surrealista criou muitas obras com imagens extraídas de seus sonhos e de sua vida real.


Leia atividade didática de Artes inspirada neste texto
Competências: compreender a arte como saber cultural gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade
Habilidades: reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho e da producão dos artistas em seus meios culturais

1) O surrealismo é um movimento com propostas e resultados bastante diferentes entre os artistas e também muito atraentes para o público juvenil. Apresente aos alunos outros artistas além de Dalí, como Joan Miró, Max Ernst e Jean Arp, de modo a ampliar o conhecimento sobre esse movimento e as diversas possibilidades e técnicas utilizadas em seus trabalhos. As experiências com o acaso tanto podem ser vivenciadas com palavras como com desenho, colagem e pintura.

2) Uma das propostas dos surrealistas é a escrita automática. Para essa prática, os artistas recortavam palavras impressas em revistas e jornais e colocavam em um saquinho. Elas eram sorteadas e coladas sobre um papel, criando um texto ao acaso. Faça esse exercício com os seus alunos.

3) Outra prática que pode ser proposta é a construção de desenhos a partir de manchas formadas ao acaso. Coloque a tinta guache no centro de uma folha de papel e dobre-a, apertando um pouco com as mãos. Ao abrir a folha uma mancha estará impressa. Os alunos poderão observar essa mancha e tentar encontrar algo reconhecível: um animal, uma fruta ou qualquer outra imagem e completá-la conforme sua imaginação.

4) Outro exercício é recolher texturas do ambiente, como árvores, vidros texturizados e outros materiais, em diferentes folhas e, a partir dessas manchas, construir uma imagem. Chamada de frotagem, essa técnica foi muito utilizada por Max Ernst.

Nelas, ele apresenta objetos do dia a dia e os transforma em outros objetos, como os famosos relógios derretidos que parecem ovos fritos (A Persistência da Memória), o cavalo que é um corpo de mulher (Mulher Adormecida Invisível, Cavalo, Leão) ou a nuvem que é um rosto (visto, entre outras, em Pintura em Mural para Helena Rubinstein). Muitas vezes, esses objetos enganam nossos olhos e nos confundem ao construir uma espécie de jogo de observação de imagens duplas.

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Salvador Felipe Jacinto Dalí nasceu em Figueiras, na Espanha, em 1904. Após frequentar algumas escolas de desenho de sua cidade, ele foi para a capital, Madri, onde estudou desenho, pintura e escultura na Escola de Belas Artes de San Fernando.

Em Madri, Dalí alojou-se na Casa dos Estudantes, onde conheceu o cineasta Luiz Buñuel, com quem realizou as obras-primas do cinema Um Cão Andaluz (1929) e A Idade de Ouro (1930), que também serão exibidas durante o período da exposição no Brasil.

Em 1921, Dalí foi expulso da Escola de Belas Artes por ter iniciado uma rebelião dos alunos contra a diretoria. Ele era contra o ensino tradicional de pintura e acabou criando muita confusão. Dois anos mais tarde, voltou para a escola, mas foi detido por causa de suas tendências anarquistas e passou 35 dias preso.

No fim da década de 1920, Dalí deixou a Espanha e foi para Paris, onde passou a integrar o Movimento Surrealista. O Surrealismo foi um movimento literário, depois estendido às artes plásticas, iniciado em 1924 por um manifesto publicado em Paris pelo poeta francês André Breton.

A proposta desse grupo de artistas era substituir a visão racional (consciente) por temas fornecidos pelos sonhos e alucinações, loucuras capazes de criar imagens e formas diferentes da realidade. As manifestações do inconsciente e do subconsciente, o ilógico, o misterioso, vão subsidiar o movimento, pautado na doutrina de Sigmund Freud, na pesquisa da mente e na tentativa de desvendar o inconsciente como fonte para a criação artística. As representações realizadas na pintura adquiriram aspectos oníricos (sonhos) e simbólicos.

O surrealismo abriu caminho para maior liberdade de expressão, buscando o simbólico e o poético e abolindo o convencional que prendia o artista à razão e à realidade. André Breton dizia: “O irreal é tão verdadeiro quanto o real”.

Faziam parte desse grupo outros artistas como Max Ernst, René Magritte, Jean Arp, entre outros. Alguns, como Dalí e Magritte, compunham o grupo mais figurativo e outros, como Joan Miró, Max Ernst e Jean Arp, formavam o grupo dos surrealistas abstratos. Todos trabalhavam com imagens, visões, sonhos e associações de ideias, mas na execução dos trabalhos cabia à consciência os recursos técnicos e expressivos.

Esses artistas também tinham uma atitude rebelde em relação à arte, o que se encaixava perfeitamente com a personalidade e a obra de Dalí. Assim, ele entrou para o grupo em 1929 e se tornou seu artista mais conhecido.

El sentimiento de velocidad,1931. Fundació Gala‐Salvador Dalí, Figueres. ©Salvador Dalí, Fundació Gala‐Salvador Dalí, Figueres, 2014.

Ele não era conhecido apenas por suas obras, mas também pelas atitudes exibicionistas. Entre suas extravagâncias, fez uma palestra sobre arte em Londres vestido com um escafandro e uma máscara de mergulho, segurando três cães russos. Por essas e outras, os críticos o chamavam de “louco”,  ao que ele rebatia: “A diferença entre mim e um louco é que eu não sou louco”.

Sua grande e única paixão foi Gala, figura feminina muito presente em suas obras. Gala acompanhou Dalí desde que se conheceram, em 1929, até a sua morte. Era esposa do grande escritor Paul Éluard, mas a paixão por Dalí fez com que ela se separasse do marido para ser, a partir daí, a companheira e modelo do pintor.

Gala também era uma figura excêntrica, amante do conforto, do luxo e do dinheiro, tal qual seu companheiro. Para manter os prazeres dos bons vivants, era preciso pintar e vender muito, o que levou o pintor a assinar muitas folhas em branco. A gana do artista por dinheiro era tão conhecida que André Breton, usando as letras do nome do pintor, a apelidá-lo de Ávida Dollars (“ávido por dólares”, em tradução livre).

Juntos, Gala e Dalí, empenhavam-se para ser notícia nos jornais, o que, segundo alguns críticos, fazia com que sua obra fosse perdendo qualidade. Assim, ele causou sérios problemas aos colecionadores e aos museus que, ainda hoje, têm dificuldades para saber se algumas obras com sua assinatura foram realmente feitas por ele. Com tantos papéis assinados em branco, surgiram muitas obras falsas, com assinaturas verdadeiras.

Dalí morreu em 1989, aos 85 anos, em seu castelo em Figueras. Seu corpo está enterrado no Museu Salvador Dalí, na Catalunha, numa tumba acima de um banheiro público feminino. Dalí, que temia morrer pobre e abandonado, é ainda hoje o artista surrealista mais conhecido.

Além dos museus especialmente dedicados à sua obra, como o Teatro-Museu Dalí de Figueras; Casa-Museu Salvador Dalí, em Port Lligat, e a Casa-Museu Castillo Gala-Dalí, em Púbol, Girona, Espanha, suas obras podem ser vistas em outros, como o MoMA, em Nova York; Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, e também no Brasil, no Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro.