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Boko Haram
É cada vez mais difícil imaginar uma resolução de curto prazo para o Boko Haram

Em janeiro de 2015, o grupo terrorista Boko Haram (BH) lançou um ataque violento à cidade de Baga, localizada no norte da Nigéria, e matando um número inexato de pessoas (estima-se que cerca de 2 mil tenham perdido a vida) naquele considerado pela Anistia Internacional como o mais mortal ataque do grupo até o momento. Em 2014, o Boko Haram já havia virado assunto na mídia internacional, após sequestrar 200 meninas em uma escola na Nigéria. O episódio gerou uma campanha global em prol da libertação das reféns, intitulada Bring Back Our Girls ou Traga Nossas Meninas de Volta.


Leia a atividade didática inspirada neste artigo e baseada na matriz do Enem
Competências Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais
Habilidades Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço. Avaliar criticamente conflitos sociais, políticos ou econômicos ao longo da história

É possível entender o porquê da enorme dificuldade do governo em conter o Boko Haram. Muitos acreditam que a principal fonte de financiamento do grupo vem da rede terrorista Al-Qaeda, tornando complicado para o governo nigeriano combatê-lo sozinho. O país pediu, recentemente, ajuda militar aos vizinhos Chade, Camarões e Níger, e financeira a países desenvolvidos e organismos internacionais como a ONU. O governo encontra-se mal equipado e mal treinado para lidar com o Boko Haram, que dispõe de armamentos modernos.

Nos anos 2000, quando o grupo era bem menor, o governo conseguiu prender alguns líderes. Contudo, prisões e execuções não cessaram as atividades do grupo. Ao contrário, apenas intensificaram o ódio e tornaram as ações do Boko Haram ainda mais violentas. Uma questão crucial neste debate é como impedir que novos membros sejam recrutados. Obviamente medidas de curto prazo para evitar mais atentados são extremamente necessárias, bem como as ajudas internacionais solicitadas pelo governo nigeriano. Contudo, elas não devem ser as únicas, uma vez que o grupo tem grande facilidade de recrutar novos membros.

O fanatismo religioso pode ter sido fator crucial na criação do BH. No entanto, sua expansão só foi possível porque líderes usam a religião para manipular pessoas ressentidas com abandono do governo. Estas, por sua vez, veem no grupo a única saída para uma vida melhor. O discurso é de que muçulmanos só irão prosperar na Nigéria quando um Estado tradicional (e radical) islâmico estiver em vigor. O Boko Haram afirma que a única forma de atingir este objetivo é derrubando o governo atual por meio da luta armada. No fim de março, a Nigéria realizará eleições presidenciais que podem levar um novo governo ao poder ou reeleger o atual presidente Goodluck Jonathan. O atual mandatário ou seu adversário terão pela frente o desafio de reinventar políticas sociais e de segurança pública para deter o BH.

1) Com essas informações em mente, alguns questionamentos vêm à tona. Em primeiro lugar, por que houve tanta comoção da mídia e da comunidade internacional por conta dos 17 vítimas no atentado ao Charlie Hebdo, mas pouco se falou dos 2 mil mortos no bombardeio à cidade nigeriana de Baga?

2) Quais as consequências desse descaso internacional à crise na Nigéria e a outros conflitos em países africanos, asiáticos e até mesmo latino-americanos?

3) Além de medidas de segurança, quais ações de longo prazo de cunho social a Nigéria deve adotar para reduzir a marginalização dos nigerianos muçulmanos do norte e, consequentemente, evitar que o Boko Haram recrute novos membros?

4) O caso da Nigéria, onde exclusão econômica e social foram manipuladas em prol de uma causa radical, pode ser comparado a outro mais próximo da realidade brasileira?

Apesar do recente destaque da mídia, a história do surgimento do grupo ainda é bastante desconhecida. Em geral, atos violentos na África são considerados conflitos étnicos. Contudo, o caso da Nigéria mostra que problema vai muito além das etnias envolvidas.

Ex-colônia inglesa, a Nigéria alcançou sua independência de forma pacífica em 1960. Em 1966, contudo, houve um golpe de Estado que instaurou um governo militar autoritário. No ano seguinte, a insatisfação com o regime levou estados do sudeste a iniciar um movimento separatista que formou a República de Biafra. Após três anos de conflito, em 1970, a região voltou a fazer parte da Nigéria, mas a forte repressão do governo central levou à morte milhares de pessoas.

Nas décadas seguintes o país sofreu sucessivos golpes de Estado – nenhum governo eleito democraticamente conseguiu se firmar no poder até 1999. Pode-se argumentar que tamanha instabilidade no pós-independência é fruto das divisões internas do país. A Nigéria possui três principais etnias: hausa-fulani, ioruba e igbo, que, juntas, representam mais de 50% da população. No total, entretanto, existem mais de 347 tribos diferentes. Ademais, tais divisões são também religiosas: 50% da população nigeriana é mulçumana, 40% cristã e 10% professa outras religiões, em geral de origens tribais.

Etnias e religiões na Nigéria possuem peso muito forte na sociedade. A formação da identidade de cada um, ou seja, a qual grupo ua pessoa sente pertencer, é algo bastante complexo. No norte (região onde surgiu o Boko Haram), a maioria se identifica mais como muçulmana do que como membro de uma etnia. Logo, a religião possui peso muito forte nos ideais e hábitos cotidianos de cada cidadão. Então, pode-se concluir que a religião é a principal causa do surgimento do BH? Não, porque o norte amarga um dos piores índices de desenvolvimento econômico e social da Nigéria.

Os muçulmanos na região foram marginalizados política e socialmente durante décadas, além de excluídos da participação nos lucros do petróleo (do qual a economia nigeriana depende quase exclusivamente). Portanto, a primeira conclusão possível é a de que a religião só explica o surgimento do Boko Haram quando combinada a outros fatores como falta de controle de recursos naturais, pouca participação política, falta de oportunidades econômicas e subdesenvolvimento. Líderes do BH aproveitam-se de tal sentimento de abandono entre os muçulmanos do norte para implementar seus próprios ideais radicais de islamização da Nigéria.

Boko pode significar “livro, ocidental ou estrangeiro” e Haram pode ser traduzido como “pecado”, proibido ou contrário a Deus”. Dessa forma, Boko Haram significa repúdio ao pensamento ocidental e a tudo que não envolva aplicação rígida do Islã. De acordo com o autor J. O. Abimbola, especialista nigeriano em terrorismo na África, o intuito do BH é substituir o atual Estado moderno nigeriano por um Estado “tradicional islâmico”. Contudo, o grupo faz parte de uma facção extremista e não possui apoio da maior parte dos muçulmanos na Nigéria.

Não há uma data exata para o surgimento do Boko Haram, porém sabe-se que grupos similares existiam na região desde 1995. Em 2001, um homem chamado Mohammed Yusuf assumiu a liderança do grupo, tornando-o mais radical. Yusuf ocupava posição de respeito e influência em uma mesquita no estado de Borno e era contra a forma como o Islã vinha sendo praticado no país. Yusuf teve papel crucial na expansão do BH – mestre na mesquita Indimi, era muito popular entre seus pupilos. De acordo com investigação feita pelo governo nigeriano, a maior parte dos seguidores de Yusuf era de jovens pobres, analfabetos, insatisfeitos com o governo e descrentes de que o sistema educacional poderia beneficiá-los financeiramente no futuro.

No Norte da Nigéria, 70% da população vive com menos 1 dólar por dia. A região também é a campeã em analfabetismo, com Yobe liderando as estatísticas: o estado possui apenas 61,9% da população alfabetizada. Estes índices são bem baixos em comparação ao resto do país. Logo, é possível inferir que o Boko Haram possui maior facilidade em recrutar militantes e se expandir nesta região.

Os dados de baixo desenvolvimento também nos mostram que a população do Norte está entre as mais insatisfeitas com o governo central nigeriano. O discurso de que o Estado moderno viola a religião muçulmana foi mais bem aceito justamente pelas pessoas mais marginalizadas da sociedade. Foi nesse contexto que, sob a liderança de Yusuf, o grupo começou a ganhar cada vez mais seguidores.

Em 2004, o BH iniciou parceria com alguns movimentos radicais islâmicos na África, como o Al-Qaeda no Magreb Islâmico (Aqim), da Argélia. Desse relacionamento surgiram alguns frutos: militantes do Boko Haram receberam treinamento em técnicas de combate e em como construir bombas caseiras de alto poder destrutivo. Nessa época os ataques do grupo ainda eram pequenos, contudo, suas movimentações já despertavam atenção das autoridades nigerianas. Preocupado com os avanços do Boko Haram, o governo central decidiu realizar a Operação Serragem, que capturou o então líder Yusuf. A organização, porém, não parou de agir e continuou promovendo ataques.

Após as controversas e corruptas eleições de 2007, que levaram à presidência Umaru Yar’Adua, Yusuf foi solto. Com Yusuf de volta à ativa, o BH investiu pesado em sua expansão. Em 2009, o grupo iniciou uma série de ataques iniciados com bombardeios a várias delegacias de polícia no estado de Bauchi e chegou até a capital do estado vizinho (Borno).

A resposta do governo nigeriano foi rápida e violenta. O governo prendeu centenas de pessoas, incluindo Yusuf, executado horas após sua captura. Apesar da forte repressão, o Boko Haram fortaleceu-se, em especial após Abubakar Shekau tornar-se o novo líder do grupo. Sob a nova liderança, os ataques se tornaram cada vez mais frequentes e violentos. Em novembro de 2014, meses após o sequestro das 200 alunas, Abubakar declarou que as meninas haviam sido convertidas ao Islã e vendidas em casamento para militantes da Jihad.

O mais recente e devastador ataque do grupo, descrito no começo do texto, ocorreu apenas alguns dias após o atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris. Ao contrário do ocorrido na França, porém, o episódio em Baga foi quase ignorado pela mídia. Nos dias que se seguiram ao massacre, o Boko Haram ainda atacou outras cidades e chegou a sequestrar mulheres e amarrá-las a explosivos. Com ataques cada vez mais perversos e massivos, a missão do governo torna-se cada vez mais complicado visualizar a resolução do conflito pelo governo nigeriano no curto prazo.

Vivian Alt é mestre em políticas sociais para países em desenvolvimento pela London School of Economics

Livros:
Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie, Companhia das Letras 2008.

A Caça ao Boko Haram (do inglês The Hunt For Boko Haram), de Alex Perry, Newsweek Insights 2014

Boko Haram e a Insurgência Nigeriana (do inglês Boko Haram and the Nigerian Isurgency), de Brendan McNamara, The Intelligency Community 2014.
Filmes:
Documentário Os Deslocados, 2014

Filme Meio Sol Amarelo, de Biyi Bandele, 2013