COMPARTILHE

Para conhecedores da biografia de Eça de Queirós (1845-1900), não será novidade ressaltar que o autor d’Os Maias, para além de uma carreira de sucesso como escritor e jornalista, foi cônsul endividado que, morto aos 55 anos na Paris de 1900, deixou uma família formada por mulher e quatro filhos em desconfortável situação financeira.


Eça sempre gastou mais do que recebia e, nem mesmo a sua imensa contribuição feita aos jornais da época – em Portugal, na França ou no Brasil –, conseguiu aplacar sua eterna condição de devedor. Digo isso, porque considero uma ironia histórica Eça ser hoje considerado uma celebridade “comerciável”, se pensarmos na quantidade de posts que circulam nas redes sociais com frases de sua suposta autoria, nas camisetas que atendem às exigências da moda, nas rotas turísticas vendidas a partir de seu nome, na imensa quantidade de biografias, ou de fotobiografias, enfim, na enorme máquina econômica em torno do seu nome. Se o endividado cônsul soubesse do lucro que um dia poderia ter, talvez, não tivesse maldito tanto a sua frágil condição financeira!

Mas nem sempre um autor “citado” é autor lido, que o digam Clarice Lispector, Guimarães Rosa ou Machado de Assis, para só citar os brasileiros. No caso de Eça de Queirós a história é um pouco diferente, pois se em sua época ele foi de fato um escritor com leitores fiéis e numerosos, na atualidade, a obra do autor de Os Maias vem sendo frequentemente relida pela ficção dos séculos XX e XXI; bem como a linguagem cinematográfica e a televisiva, da Europa e da América, dirigem uma atenção especial sobre muitos dos contos e dos romances queirosianos, adaptando-os como filmes e minisséries. Estamos, de saída, diante de um autor a que se pode chamar de popular! Cabe perguntar, afinal, a que se deve tamanho feito?

Talvez a resposta esteja guardada na aposta que fazem muitos dos atuais estudiosos do século XIX que defendem a durabilidade da época vitoriana, chegando mesmo a afirmar que a sociedade burguesa surgida durante os 800 muito pouco se diferencia daquela que a seguiu nos dois séculos vindouros. Para muitos historiadores, a fisionomia aburguesada erguida pela sociedade que floresce após a Revolução Francesa e a Primeira Revolução Industrial (século XVIII) mantém-se próxima da realidade vivida pelas sociedades capitalistas que se firmaram ao longo do século XX, e pelas neoliberais já estabelecidas na primeira década do século XXI.

Cedo, Eça de Queirós assumiu-se como um escritor burguês, que escrevia “para” a burguesia e “sobre” a burguesia. Isso significa dizer que o ponto de vista crítico que o autor lançava sobre a sociedade de seu tempo era marcado por uma perspectiva interna, digo, “de dentro”, que lhe permitiu usar de uma lucidez rara diante de seu próprio tempo histórico.

No auge de uma fase histórica em que muitos apostavam no futuro, acreditavam no desenvolvimento e adoravam o progresso, o autor d’Os Maias foi capaz de perceber que alguma coisa escapava da euforia técnico-científica; que alguma coisa faltava ao homem; que se, enfim, o progresso parecia ser realidade, a humanidade pouco havia conseguido melhorar. O mundo, mesmo diferente, ainda era lugar de desilusão, desesperança, injustiça e, portanto, de imensa dor.

Assim, ao falar de seu tempo, Eça de Queirós acaba por problematizar a nossa contemporaneidade, tão burguesa como foi aquela que fez nascer suas inesquecíveis personagens. De O Crime do Padre Amaro (1875) A Cidade e as Serras (1901), uma imensa galeria de criaturas de papel foi criada e a sociedade portuguesa foi posta em discussão através de suas linhas ficcionais, o que transforma a sua obra num grande “documento” da fisionomia burguesa da qual somos herdeiros diretos. O fanatismo religioso, a instabilidade do casamento burguês, a necessidade viril de sucesso, o tédio e a desesperança do nosso modelo civilizacional são apenas alguns dos aspectos abordados por uma obra ficcional que, como poucas, desvelou a fragilidade da condição humana, ao construir personagens que pouco, ou nada, se aproximam da condição de herois.

Entre todas as suas narrativas, Os Maias é apontado como a obra-prima de Eça. Publicado em 1888, o livro levou quase dez anos para ser concluído, sendo objeto de revisão constante do autor a ponto de ser considerado um projeto de “proporções monumentais”, ou ainda, uma imensa “pintura a fresco”, que ele temeu não conseguir concretizar. Longe de ser o título de sua preferência, ganhou notoriedade a partir da morte de Eça e, hoje, é considerada o marco da maturidade de sua escrita. Pondo em dúvida o pretenso caráter “obediente” dos seus primeiros livros, Os Maias são antes um marco na literatura de língua portuguesa. A boa escola realista deve hoje ser compreendida pelo muito que revolucionou na forma e no conteúdo do romance da tradição oriundo, em grande parte, de um Romantismo que chegava à segunda metade do século XIX engessado por velhas fórmulas.

Se a temática do incesto já povoava o imaginário de Eça de Queirós desde a época de O Crime do Padre Amaro, é preciso entender por que um tema tão controverso acabou por ser abordado através de um imenso volume que ultrapassa 600 páginas. Por detrás da circunstância incestuosa, o que sempre há é a família, organização social consagrada pelos valores burgueses. Assim, Os Maias, antes de ser um livro sobre o incesto, é uma obra sobre a lenta e desolada decadência de um núcleo familiar que, nascido para ser um modelo de sucesso e de prosperidade, sucumbe em 
ruína e inação. Com isso, Eça denuncia que a passagem do tempo e as promessas de modernização nem sempre são garantias de melhoramento ou de transformação efetiva.

A história da família Maia percorre a trajetória de quatro gerações. Chama atenção que sejam personagens masculinos os eleitos pela narrativa. Da sucessão de um bisavô até a maturidade de seu bisneto, o leitor acompanha a ação a partir de uma perspectiva masculina, aliás, escolha que pode ser justificada por conta do caráter viril que marcou a estrutura social ao longo de todo sé-
culo XIX. Só mesmo nos romances, as mulheres poderiam figurar como heroínas.

Obedecendo então a uma exigência histórica e não ficcional, Eça constrói uma história de homens assinalados de perto pela marca do não trabalho. Os Maias, uma das famílias mais antigas da velha Portugal, são aqueles que estão desobrigados de ofício e das preocupações econômicas de sobrevivência. Como antigos proprietários rurais, eles vivem da exploração do trabalho alheio; nem a chegada dos novos tempos e a vitória dos valores burgueses são capazes de transformar Caetano, Afonso, Pedro ou Carlos Eduardo da Maia em homens conscientes da necessidade de trabalho.

Se as personagens masculinas estão em maioria, há duas das grandes personagens femininas: Maria Monforte e sua filha, Maria Eduarda, encarnam – cada uma a seu modo – duas facetas que, opostas, exemplificam a inteligência, a habilidade, a força e a determinação impossíveis de serem encarnadas por algum dos personagens masculinos. Se Monforte representa a mulher mal falada, aquela sobre a qual recai toda a interdição da sexualidade e do desejo, Eduarda é construída com a memória da delicadeza e da beleza românticas que, mesmo a transformando numa heroína trágica, ainda assim é dona da inteligência, perspicácia e lucidez que foram vetadas aos demais personagens masculinos.

Como um desenho em dobradura, a narrativa abre-se num vasto painel a fresco que recria a sociedade burguesa do 
período da Regeneração portuguesa. Estão presentes, portanto, os principais responsáveis pelos descaminhos experimentados pelo Portugal da segunda metade do século XIX. Os banqueiros aproveitadores, os políticos demagogos e corruptos, os burgueses agiotas, os novos-ricos deslumbrados e aduladores, os jornalistas sem escrúpulos, os artistas sem talentos, os estrangeiros esnobes, o clero parasitário, as beatas e viúvas fofoqueiras, as burguesas desocupadas e adúlteras, as prostitutas quase sempre espanholas, os comerciantes inescrupulosos, os estudantes de profissão, os educadores ultrapassados.

Enfim, um conjunto social desinteressado em qualquer ação coletiva para melhoraria da pátria. Num desabafo de atualidade indubitável, Afonso da Maia defende o neto Carlos Eduardo quando este é criticado por escolher a Medicina ao Direito: “Num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é, incontestavelmente, saber curar”.

Por último, Os Maias discute os próprios caminhos da literatura. Com um sugestivo subtítulo de Episódios da vida romântica, o livro encena o debate entre o ideal romântico e a escola realista. Se os românticos estão representados na figura do poeta Tomás de Alencar, os realistas encontram em João da Ega – amigo de Carlos Eduardo desde o tempo de Coimbra – seu maior defensor. Inúmeros são os debates onde se enfrentam os dois nada ilustres representantes “culturais”, chegando mesmo às vias de fato, quando num jantar a discussão entre a “sensibilidade romântica” e a “verdade realista” acaba em pancadaria.

Disso tudo sobrevive um autor capaz de transformar um livro num belíssimo quadro, ou, como queria, numa monumental pintura a fresco. Seria um livro triste não fosse o narrador conhecedor do discurso cortante da ironia e da salvadora ação do humor na transformação de tragédias em experiências  suportáveis. Aos futuros leitores de Eça de Queirós recomendo Os Maias, não só pela certeza de uma prazerosa leitura, mas pela assustadora experiência do reconhecimento. Afinal, como já disse Richard Sennett, “o século XIX ainda não terminou”.

*Publicado originalmente em Carta na Escola