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Mario de Andrade por Lasar Segall
Retrato de Mario de Andrade, autor de Macunaíma, pintado por Lasar Segall em 1927

Na sala de aula, as frases e os feitos de Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter, rapsódia de Mário de Andrade (1893-1945), publicada, pela primeira vez, em 1928.


Adotá-lo como leitura e estudo no Ensino Médio representa a possibilidade de debater, no plano da arte, um Brasil mais profundo, múltiplo.

Macunaima
Capa do livro Macunaíma, de Mário de Andrade

Um Brasil multifário (adjetivo tão do gosto do autor), na mira do projeto estético que se concretiza – “trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros” –, conforme um primeiro prefácio escrito em 1926 e conservado inédito.

Macunaíma, no conjunto da obra mariodeandradiana, destaca-se como uma candente transfiguração dos nossos traços nacionais. A crítica literária Leyla Perrone-Moisés o considera “talvez o livro mais ‘nacional’ da literatura brasileira”.

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Macunaíma, ficção experimental que é prosa e canto, inscreve-se na poética de estreita ligação com a música, proposta por Mário de Andrade em Paulicéia Desvairada, poesia que inaugura, em 1922, uma postura estética antropofágica programática, precedendo a rapsódia e o manifesto oswaldiano, ambos de 1928.

Em Paulicéia Desvairada, a apropriação ou o crivo crítico mostram-se na sutura arlequinal das matrizes reconhecidas pelo poeta ou recônditas nas leituras dele, e na proclamação do eu lírico – “Sou um tupi tangendo um alaúde!”, na profissão de fé intitulada “O trovador”.

Como rapsódia, Macunaíma transpõe a linguagem oral para a escrita; seleciona e costura fragmentos, dá a eles novos destinos,
ou seja, recria a partir de um crivo crítico. Trata-se do exercício do “direito permanente à pesquisa”, conquista da renovação estética empreendida no decênio de 1920, segundo o lúcido balanço “O movimento modernista”, que Mário fará em 1942.

Esse direito é vivido com plenitude pelo ficcionista quando ele firma, na língua portuguesa falada no Brasil, o canto do narrador rapsodo, prosa culta resultante da busca, em seu celeiro da criação, de tudo que lhe pareceu pertinente, tanto na cultura popular como na erudita.

Prosa que plasma citações de toda ordem, saturada de rimas, assonâncias, aliterações, enumerações sem pausas, cantos e rezas incorporados à trama; narrativa que joga com um presente histórico – 1926 e 1927 –, justaposto ao tempo imemorial, e que tem, como espaço, um Brasil desregionalizado, sem fronteiras, participante da América Latina.

Mário de Andrade, leitor ávido de tudo que lhe aumentasse o conhecimento do Brasil, em 1926 decalca o protagonista nas peripécias do deus contraditório Makunaíma, e de outras personagens dos mitos, lendas e contos dos índios taulipang, arecuná e macuchi, do extremo norte do Brasil e da Venezuela, recolhidos pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg no segundo volume da obra magna Vom Roroima zum Orinoco (De Roraima até o Orenoco; edição de 1924, Stuttgart: Strecker und Schröder).

Mas Macunaíma, o herói da nossa gente, será um herói marcado pela indefinição, nesse sentido, “o herói sem nenhum caráter” do aposto no título da rapsódia. A preguiça, a sensualidade e a mentira, traços-chave do seu comportamento, ao mesmo tempo que o afastam da responsabilidade sobre os próprios caminhos, sinalizam um mundo diverso daquele em que impera a máquina, um mundo em que predomina o ócio criador.

Em 1926 – talvez no mesmo 30 de maio do cabeçalho da “Carta pras icamiabas”, capítulo 9 de Macunaíma –, o romancista
começa a trabalhar. Nas margens do seu exemplar do livro de Koch-Grünberg, Mário deixa a grafite os fragmentos de uma primeira versão, a qual já indica a pesquisa em outros autores, a coleta inerente à rapsódia.

Notas de trabalho reunindo elementos, esboços, por certo ocuparam os meses que antecederam a preparação da vasta bagagem – rapsódica! –, com a qual Mário de Andrade se instala, em dezembro daquele ano, em Araraquara, no interior de São Paulo.
Em férias na chácara do primo e amigo Pio Lourenço Corrêa, escreve, então, três versões de Macunaíma, conservando apenas as páginas iniciais de duas. E um prefácio que nunca divulgou.

Planos, notas de trabalho, esboços e rascunhos alimentaram a dedicação integral à escritura entre o final de 1926 e a primeira quinzena de 1927, conforme as datas nos documentos, suplantados pela lenda que nasce nas cartas aos amigos e em um segundo prefácio, em 1928, quando a rapsódia já passou por várias redações: Macunaíma foi escrito em “seis dias ininterruptos de rede, cigarras e cigarros”.

O livro, hoje considerado a obra-prima de Mário de Andrade, envolveu muito trabalho; cristaliza um processo de criação complexo, nada veloz, o qual guarda estreitos vínculos com a viagem do escritor à Amazônia, no meio do ano de 1927, como se verifica em seu diário de Turista Aprendiz.

Esse processo não termina com a chegada de Macunaíma às livrarias paulistanas em junho de 1928. Prossegue em 1936/1937, pois, na oportunidade de uma nova edição, Mário refunde a obra ao sobrepor, a caneta, modificações ao texto impresso, em um exemplar que elege como seu “exemplar de trabalho”, o qual se torna, a partir de então, um manuscrito.

Na segunda tiragem que vem à luz em 1937, pela editora José Olympio, do Rio de Janeiro, a rapsódia perde a seqüência que justificava o título do capítulo 9, “As três normalistas”, e trechos referentes ao “brincar” do Imperador do Mato Virgem com Ci, a Mãe do Mato. Não tinha cabimento a presença das normalistas, moças de família, em um romance condenado pelo moralismo da burguesia paulistana.

O artista cedeu à pressão de seu meio e o texto de 1937 continuou na edição que veio em 1944, nas Obras Completas de Mário de Andrade, pela Livraria Martins Editora.

Multiplicado, portanto, em três edições durante a vida do ficcionista e em muitas outras tiragens, traduzido para várias línguas, além da imensa fortuna crítica e do farto conjunto de manifestações do autor concernentes à obra,em cartas, crônicas e entrevistas, Macunaíma conta documentos que se reportam diretamente aos caminhos da criação e lhe resgatam a história.

As novas edições da obra de Mário de Andrade 

Em 2008, as editoras cariocas Agir e Ediouro, associando-se à Equipe Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, em cujo patrimônio está o acervo do escritor e onde, de longa data, são desenvolvidos estudos sobre ele, lançaram uma proposta norteada pelo rigor e pela partilha.

Considerando a produção de Mário polígrafo, pretendem tiragens de texto apurado, isto é, edições fiéis ao projeto de origem, até onde a análise de quem delas se encarrega pode atingir esse objetivo.

O texto apurado no confronto dos manuscritos com as publicações à época, em livros ou periódicos, deseja não apenas sanar erros e infidelidades flagrados nas edições dos últimos anos, mas restabelecer coordenadas que balizaram o trabalho do poeta, do prosador, do crítico, bem como do estudioso de tantas áreas.

A proposta amplia-se na direção da história, da crítica genética e, é claro, da crítica literária, ao oferecer tanto as informações principais sobre cada texto como documentos que se reportam ao processo de criação e análises contemporâneas.

Assim acontece porque esta abordagem editorial pretende que os leitores vejam no livro impresso um ponto de chegada do trabalho do artista e que circulem com liberdade pelos espaços da ficção, da crônica, da poesia, dos estudos e das pesquisas de Mário de Andrade.

Por essa razão, as análises colocam-se no final do volume: para que os leitores conversem com as cogitações da crítica atual, depois de fazer as próprias descobertas.

Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter, o romance Amar, Verbo Intransitivo e Os Filhos da Candinha, o único conjunto de crônicas selecionado por Mário de Andrade, são os primeiros títulos apresentados.

Macunaíma em 2008, nesta edição que fornece subsídios sobre o projeto literário do autor, poderá, quem sabe, ampliar a
compreensão das peripécias de nosso herói/anti-herói, as quais, ao ligar a realidade brasileira à esfera do fantástico, calçam uma forte dimensão ideológica e política na sátira que capta, sem retoques, os descaminhos do nosso país, e que alcança um mundo submetido aos valores da máquina.

Essa compreensão foi sobejamente demonstrada pelos diretores Joaquim Pedro de Andrade e Antunes Filho, que fizeram releituras do livro no cinema e no teatro, por eles empreendida em 1969 e 1978.

É curioso pensar que Macunaíma, na vox populi, tornou-se um substantivo comum, simbolizando apenas a malandragem
do herói, não as dificuldades de povo que ainda não dá conta do próprio rumo.