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Ana C.
Um de seus temas favoritos era o segredo íntimo, a confissão

Poucos nomes da poesia contemporânea brasileira atraem tantos olhares jovens quanto o da poeta carioca Ana Cristina Cesar. Inspiração para as novas gerações, tema de um número crescente de trabalhos acadêmicos, Ana C. (como às vezes assinava) tornou-se um caso singular, e quase espetacular, no cenário da poesia da segunda metade do século XX. Bela, jovem, inteligente, Ana C. colocou um ponto final em sua vida ao saltar do apartamento dos pais, em Copacabana, em 1983, aos 31 anos.


Deixou uma obra enigmática, em tom confessional, íntimo e, ao mesmo tempo, irreverente. Passados mais de 30 anos, fica para os leitores o desafio de criar novos sentidos para essa poesia que ainda hoje nos soa tão atual e estimulante. Qual seria o segredo de Ana C.?


Leia atividade didática de Literatura baseada neste texto
Competências: Analisar, interpretar a aplicar recursos expressivos das linguagens relacionando texto e contexto
Habilidades: Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político

1- Leia em sala um trecho do poema-carta Correspondência Completa e um trecho do poema-diário Luvas de Pelica e discuta os poemas de Ana C. do ponto de vista de sua construção fragmentária e lacunar. Onde faltaria um pedaço? O que falta? Com quem ela parece estar falando?

2- Após a leitura, proponha aos alunos a escrita de uma carta endereçada a alguém muito próximo a eles. Em seguida, eles devem recortar essa carta em diversos fragmentos: frases, orações ou mesmo palavras isoladas.

3- A partir desses fragmentos, eles deverão compor uma nova carta: misturando-os entre si, retirando alguns, acoplando outros – de outros textos ou mesmo autores – e mesmo repetindo e permutando os fragmentos entre si.

4- Deixe claro que a carta poderá não mais ter um significado claro e não precisará seguir uma lógica linear e racional.

A poesia de Ana Cristina veio a público em meio à agitação cultural dos anos 1970, no clima de festa que se fazia necessário nos duros anos da ditadura no Brasil. Literatura marginal, underground, cinema novo, pós-Tropicália, música popular e desbunde: surgia aí a geração mimeógrafo ou a poesia marginal dos anos 70. Ana C. fez parte dessa turma que se juntava, principalmente no Rio de Janeiro, e distribuía seus livrinhos caseiros mimeografados em portas de cinema e teatro, defendendo uma poesia livre, leve e solta, como propunha Cacaso e, junto dele, Francisco Alvim, Chacal, Charles, Eudoro Augusto, Armando Freitas Filho, Angela Melim e tantos outros “cabeludos”, como nos lembra Chacal (poeta carioca ainda hoje em pleno exercício poético).

A madrinha da geração marginal foi Heloísa Buarque de Hollanda, que reuniu, em 1976, na antologia 26 Poetas Hoje muitos dos nomes que iriam sobreviver até nós. Foi aí a estreia de Ana C. na poesia, que só depois veio publicar seu primeiro livro-solo, Cenas de Abril (1979), seguido de Correspondência Completa (1979) e, um ano depois, Luvas de Pelica (1980), todos em edição caseira. O último passo foi então o conhecido A Teus Pés (1982), da Editora Brasiliense, que na década de 80 começou a editar os poetas marginais.

Em A Teus Pés, Ana C. trouxe à luz uma nova série de poemas e reeditou junto dela os livrinhos anteriores. E foi toda esta a sua produção poética publicada em vida. A maior parte do que hoje encontramos de sua obra surgiu após sua morte: reedição de artigos publicados em jornais, ensaios sobre literatura e tradução, poemas traduzidos por ela durante seu curso de Master na Inglaterra, rascunhos e poemas inéditos, correspondências pessoais, fac-símile de cadernos de desenhos e de rascunhos de poemas. Muitas dessas publicações, incluindo a reedição de A Teus Pés, fizeram parte do projeto de edição de sua obra levado a cabo pelo Instituto Moreira Sales, onde está o arquivo pessoal da poeta.

O que se nota é um grande rigor e consistência poética e reflexiva. Ana C. pensava muito sobre literatura e poesia, possuía um extenso repertório de leituras e não se contentava em fazer poesia intuitivamente. Seus rascunhos revelam ainda o quanto seus poemas eram construídos, reescritos e retrabalhados exaustivamente. Uma surpresa para muitos que, à primeira vista, acreditavam no efeito de espontaneidade criado por seus poemas. Muito desse efeito liga-se ao clima de época em que nasce sua poética: poesia de circunstância, busca do tom coloquial, do humor e da descontração adotada pela poesia marginal. No entanto, ao mesmo tempo que esses traços estão presentes na escrita de Ana C., logo se nota que ela se distancia do tom geracional mais comum e cria um estilo bastante singular.

Além de não adotar o discurso anti-intelectual de seus colegas, Ana C. opta por uma linguagem menos límpida, mais cifrada, quase enigmática. Desde o início, seu poema não adere ao projeto de ser comunicativo, direto e verdadeiramente confessional.

Ana C. recusa o neorromantismo que latejava na proposta mais geral da dita poesia de mimeógrafo e, logo cedo, desconfiava da literatura como expressão transparente do autor. Como ela mesma afirma, em depoimento em um curso de Beatriz Rezende na Faculdade da Cidade (RJ), seus poemas em forma de carta e diário são fictícios: eles forjam uma intimidade que não seria a verdadeira. Ela diz: “Se você vai ler esse diário fingido, você não encontra intimidade aí. Escapa”. E continua dizendo que “a intimidade… não é comunicável literariamente. A subjetividade, o íntimo, o que a gente chama de subjetivo não se coloca na literatura”.

Em diversos momentos desse conhecido depoimento, assim como em trechos de seus ensaios críticos (publicados em Crítica e Tradução, Ática/IMS, e agora reeditados no volume Poética, da Cia. das Letras), veremos sua insistência nesse ponto. De certo modo, Ana C. parecia querer evitar as leituras que simplificam a relação entre o autor e a obra.

Como se desse modo ela evitasse o erro frequente de se esquecer que a obra literária ou artística se faz “obra” de fato a partir do momento em que ganha uma espécie de vida própria que independe da vida privada de seu autor. O poema como um ser que precisa se bastar na relação com o leitor, que deve ser capaz de fazer sentido para o leitor, independentemente das explicações, justificativas e intenções de seu autor.

Esse tema é um ponto importante para se entender a proposta poética de Ana C., ainda que não se queira aderir plenamente à sua posição.

Muito do que Ana C. escreveu tem em vista discussões atuais acerca da poesia e da arte. Seu projeto poético não era inocente, porque dialogava com muitas propostas de outros artistas, escritores e poetas que buscaram novos caminhos para a arte no século XX. Diversos de seus poemas trazem reflexões sobre a própria poesia, são uma espécie de poema “se pensando” e pensando sobre a natureza da poesia. Poemas que questionam e provocam: será que a poesia diz a verdade? E ainda, será que a verdade existe, será que a palavra tem o poder de dizer o real? Por isso um de seus temas favoritos era o segredo íntimo, a confissão:

Sete Chaves

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história
passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate
incompassado entre gaufrettes. Conta mais essa história, me
aconselhas como um marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou
tocada pelo fogo. Mais um roman à clé? 
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna. 
Nem te conheço. 
Então: 
É daqui que eu tiro versos, desta festa – com arbítrio
silencioso e origem que não confesso – como quem apaga
seus pecados de seda, seus três monu-
mentos pátrios, e passa o
ponto e as luvas. 
(de A Teus Pés)

Essa brincadeira com a conversa íntima e, muitas vezes, a correspondência violada, é um tema frequente. E o próprio poema parece simular esta cena de indiscrição ou confidência. Ao ser muitas vezes escrito em forma de carta ou de diário, ele próprio se coloca em cena e simula para o leitor que ele é uma carta, um bilhete ou uma página de diário arrancada. E na verdade tudo é um blefe, porque nada está sendo de fato confidenciado em seus poemas.

Ana c.
Diversos de seus poemas trazem reflexões sobre a própria poesia

O mais difícil para ler Ana C. talvez seja entrar nesse jogo de fingimento, em que o próprio leitor é chamado a fingir que entende e compartilha, a fingir que ouve uma história que lhe é dada pela metade, história interrompida e repleta de personagens estranhos e de acontecimentos mal contados – vejamos dois poemas de A Teus Pés:

Sumário

Polly Kellog e o motorista Osmar.
Dramas rápidos mas intensos.
Fotogramas do meu coração conceitual. 
De tomara-que-caia azul-marinho.
Engulo desaforos mas com sinceridade.
Sonsa com bom-senso.
Antena da praça. 
Artista da poupança. 
Absolutely blind.
Tesão do talvez.
Salta-pocinhas.
Água na boca.
Anjo que registra.

Aventura na Casa
Atarracada 

Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado:
– te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: – eu também
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem 
um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.

Ana C. se valia de muitas estratégias de escrita para fazer com que seu poema se tornasse esse simulador de intimidade. Em primeiro lugar, podemos notar como sua poesia é fragmentada, é construída a partir de frases muitas vezes interrompidas, que parecem ter sido cortadas ao meio ou ter perdido algum pedaço. E, ao mesmo tempo, frases muitas vezes desconectadas entre si, como se não se emendassem e tivessem vindo de lugares diferentes.

Daí termos no fim textos aparentemente desconexos, cheios de saltos, de versos que parecem não se encaixar. Em segundo lugar, notemos que o tom dos poemas abusa de frases e expressões cotidianas, que são ditas entre pessoas íntimas, referindo-se, por exemplo, a nomes de pessoas ou lugares que seriam partilhados entre aquele que escreve e quem lê. As “meias palavras” utilizadas são assim aquelas que duas pessoas íntimas usam ao conversar sem precisar dar grandes explicações.

Contestando aqueles que tenderiam a ver em seus poemas um hermetismo, como se essas lacunas fossem segredos que somente o “bom leitor” saberia decifrar, Ana C. rebate dizendo que esses vazios, cortes, espaços em branco seriam o que ela define como o “não dito” do texto literário, lacunas que o poema traz para que o leitor possa ter a liberdade de entrar no poema com suas próprias experiências, associações e fabulações. De modo que não se trata de encontrar um segredo do autor por detrás das lacunas, mas sim de aproveitá-las para puxar fios inusitados e novos. “Ler é meio puxar fios e não decifrar”, dizia Ana C. Que cada leitor puxe então, por sua conta, seus próprios fios.

*Poeta, autora de Quando Não Estou por Perto (7Letras/Petrobras, 2012), entre outros livros de poemas, e do ensaio Poéticas da Imanência: Ana Cristina Cesar e Marcos Siscar (7Letras/Fapesp, 2011), entre outros.

*Publicado originalmente em Carta na Escola