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Ilustração satírica
Grande parte da obra de Gregório de Matos sobreviveu em cancioneiros

Sabe-se, com certeza, que houve um poeta luso-brasileiro chamado Gregório de Matos e Guerra, que teria vivido entre os anos de 1633 ou 1636 (nascido em Salvador, então chamada Cidade da Bahia) e 1696, ano em que teria morrido no Recife. É conhecido, sobretudo, pelo amplo conjunto de versos satíricos, que lhe valeram o apelido de Boca do Inferno, e que são normalmente interpretados como expressão de um talento original, libertário, desreprimido e obsceno.


Leia atividade didática de Língua Portuguesa inspirada neste artigo
Competências: Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, de acordo com as condições de produção e recepção
Habilidades: Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político; Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário

1. Auxilie seus alunos a entenderem melhor a história do Brasil, nos séculos XVII e XVIII, tempo em que a poesia atribuída a Gregório de Matos e Guerra circulou na oralidade e na manuscritura na cidade da Bahia.

2. Proponha um estudo dirigido do sistema colonial, em que estava inserido o Estado do Brasil, parte do Império Português, de modo a que os alunos entendam como funcionava esse sistema e qual o papel da Colônia em seu interior.

3. Busque informação atualizada sobre a poesia atribuída a Gregório de Matos e Guerra, sobretudo a bibliografia crítica produzida nos últimos anos por pesquisadores das letras luso-brasileiras.

4. Discuta a pertinência histórica de se falar de um Gregório “obsceno”, “libertário”, “desrepressivo”, à luz dos últimos resultados da pesquisa em história literária.

5. Discuta a pertinência de se falar de “cultismo” e de “conceptismo”, conceitos esses historicamente imprecisos para analisar poemas compostos no século XVII.

O nosso propósito, aqui, é apresentar aos leitores informação sobre a produção da poesia na Cidade da Bahia nos séculos XVII e XVIII, sobre sua recepção por parte do público e sobre práticas de leitura próprias desse tempo. Como não havia, na Cidade da Bahia, casas impressoras, é preciso falar também da manuscritura, ou seja, das práticas de produção do escrito por meio do uso da mão. Por fim, discutiremos se é pertinente, de um ponto de vista histórico, continuar a pensar a sátira atribuída ao poeta baiano como sendo “obscena”, “imoral”, “desrepressiva” etc., propondo, ao mesmo tempo, novos caminhos para sua interpretação.

Como se sabe, não havia, no Estado do Brasil – então parte do Império Português, – nos séculos XVII e XVIII, casas impressoras, o que obrigava os moradores da Colônia a comprar impressos que viessem de Portugal ou de outras partes da Europa. Podia-se, também, em caso de não haver o dinheiro necessário para comprar o impresso ou para mandar trazê-lo da Europa, copiar o que pertencesse a outra pessoa, pedir a alguém para o copiar, ou, ainda, pagar alguém para o copiar, sendo o resultado de quaisquer umas dessas atividades o “manuscrito”, reprodução mais ou menos fiel do impresso.

No caso dos textos de várias naturezas que eram produzidos localmente, no Estado do Brasil, todos circulavam por necessidade em forma manuscrita. Esses textos podiam ser de natureza técnica, como apostilas de sangria, que ensinavam os barbeiros a sangrar doentes; tratados de edificação e fortificação, que ensinavam a construção de distintos tipos de edifício e fortaleza; tratados de alveitaria, que ensinavam o tratamento e cura de animais doentes, havendo, também, textos propriamente ficcionais, tanto em prosa quanto em verso.

Detenhamo-nos na consideração da produção poética da Cidade da Bahia em fins do século XVII, tempo em que o poeta Gregório de Matos compôs seus poemas. A poesia, nesse tempo, podia ser composta à medida que era escrita, como se dá nos dias de hoje, em que o poeta compõe os versos de um soneto, por exemplo, por meio de um embate com a folha em branco, que é preenchida aos poucos. A poesia ao fim do século XVII podia, também, ser composta “de improviso” ou “de repente”, quando se apresentava a um poeta ou a um grupo de poetas um mote, que teriam de glosar.

O mote pode ter um único verso ou pode ser composto de um conjunto de versos. O importante a observar, quando se glosa um mote, é que a glosa tem de obedecer ao esquema métrico, rímico e rítmico do mote. Se, por exemplo, os versos a glosar tiverem sete sílabas métricas, com acento (icto) na quarta e na sétima sílabas, e com rimas em “ar” e “ão”, a glosa terá de obedecer a esse padrão, não nos esquecendo de dizer que cada estrofe da glosa tinha de ser arrematada por um verso do mote. Assim, se o mote tivesse quatro versos, ou seja, fosse uma quadra, a glosa deveria ter quatro estrofes, cada uma delas terminando com um dos versos do mote.

Era comum, ao fim do século XVII, tanto em Portugal quanto no Estado do Brasil, apresentar motes a poetas, que deveriam glosá-lo “de repente”, ou seja, “de improviso”, diante de um auditório, prática essa que tornava patente a perícia técnica do poeta. A composição do poema “de repente” estava fundada na voz e só depois de sua participação ao público, por meio da récita em voz alta ou do canto, tornava-se objeto da escrita e era registrado em papel. Cabe dizer que boa parte da poesia atribuída a Gregório de Matos foi composta para ser cantada, mas, infelizmente, não sobraram notações musicais das melodias que acompanhavam os versos.

Tanto no caso de gêneros poéticos, como o soneto, que já eram compostos em um regime escriturário, ou seja, compostos na e pela escritura, quanto no caso daqueles outros gêneros fundados na voz, no improviso e na performance do poeta diante de um público ou auditório, quando cantava ou recitava em voz alta seus poemas, a circulação em manuscritos obedecia a um esquema de certa forma padrão, constituído de determinadas etapas. Em primeiro lugar, os poemas eram inscritos ou copiados em folha ou pedaços de papel, chamados de “folha volante”.

A palavra “volante”, com que se particularizava o substantivo “folha”, indicava que esse papel era posto em circulação e que corria de mão em mão, podendo ser copiado por todos aqueles que o tivessem em mãos. Havia homens e mulheres que, amantes da poesia, podiam copiar muitos poemas que circulavam em folhas volantes, para, depois, inscrevê-los em um pequeno caderninho em branco, dando origem aos chamados “cadernos de mão” ou “codicilos”.

Por fim, quando se recolhia um grande número de poemas que circulavam em folhas volantes, cadernos de mão ou ainda na oralidade, podia-se optar por inscrevê-los ou mandar inscrevê-los em grossos livros em branco, que são os atuais cancioneiros em que sobreviveu boa parte da poesia atribuída a Gregório de Matos.

É preciso dizer que havia na Cidade da Bahia de fins do século XVII e em todo o século XVIIII “homens que viviam de escrever”, ou seja, copistas profissionais que eram pagos para produzir escritos de várias naturezas. Podia-se especificar, no contrato entre as partes, a qualidade do papel, do tracejado etc., do livro manuscrito acabado, havendo a possibilidade de aquele que encomendasse o manuscrito não o aceitar caso a cópia não atendesse às cláusulas contratuais. Havia, nesse sentido, um mercado de manuscritos, de que se incumbiam profissionais da escritura.

No caso dos poemas satíricos, que também circulavam em folhas volantes, era comum a prática de os lançar à noite sob portas ou por entre a frincha de uma janela, para dá-lo a conhecer, sobretudo, à pessoa que se desejava vituperar ou maldizer.

Havia uma dupla prática: podia-se lançar o papel de maldizer ou as trovas de maldizer, como eram chamadas as sátiras, tanto abertas quanto cerradas; neste último caso, a folha em que se escrevera o poema era devidamente dobrada e tinha sua extremidade colada, sem que se saiba exatamente a razão para a existência dessas duas modalidades. Além de se lançar o papel de maldizer à noite, podia-se, também, afixá-lo em portas de igrejas e capelas, ou ainda em paredes de edifícios públicos, onde, comumente, ao amanhecer, se reunia grande número de pessoas.

O poema, nesses casos, era copiado em apenas um dos lados da folha, já que o seu verso era empapado com mingau, feito, na Cidade da Bahia, de farinha de mandioca, para que se pudesse pregar a folha onde deveria ser afixada.

Quando, ao amanhecer, as pessoas saíam às ruas e se juntavam diante das igrejas e dos edifícios públicos, alguém que soubesse ler punha-se a fazê-lo, mas em voz alta, para que a multidão de circunstantes, composta de grande número de analfabetos, tivesse o prazer de tomar conhecimento da sátira. A leitura em voz alta de poemas que eram assim afixados em logradouros públicos tornava-se um dos meios mais eficazes para a difusão da poesia satírica na Cidade da Bahia.

Como a composição de trovas de maldizer era proibida pela legislação portuguesa, essas tinham de ser postas em circulação de forma anônima, sem a indicação de autoria. Eram o público, os agentes da recepção, os leitores e ouvintes que atribuíam os poemas ouvidos e lidos ao poeta Gregório de Matos, pelo menos no caso específico dos poemas satíricos, pois era considerado, ao fim do século XVII, na Cidade da Bahia, a maior autoridade na composição do gênero satírico.

Desse modo, a sátira que foi recolhida em folhas volantes, em cadernos de mão e em cancioneiros poéticos, e que se atribui a Gregório de Matos, é, por razão do que se acaba de dizer, poesia “atribuída”, não se podendo ter certeza de haver o poeta escrito efetivamente os poemas. Não há, dele, manuscritos ditos “autógrafos”, ou seja, escritos pelo próprio poeta.

Os poemas circulavam, em geral, desprovidos de titulação, ou seja, em um primeiro momento não tinham títulos; esses lhes foram apostos em etapa posterior da circulação e há para um mesmo poema mais de um título; ou seja, a depender do cancioneiro em que um dado poema foi copiado, ele pode vir acompanhado de um título, que difere completamente em outra recolha de versos.

Isso se explica do modo que segue: como os poemas circulavam sem titulação, cada leitor, quando copiava o poema inscrito em uma folha volante, depois de lê-lo, interpretava-o, impondo-lhe um sentido que julgava apropriado; esse sentido era registrado no título descritivo que passava a acompanhar o poema, chamando-se tecnicamente de “didascália”.

Pode haver muitas didascálias para cada poema, e – isso é ainda mais importante –, porque não se conhecia no século XVII o direito autoral, pode haver muitas versões de um mesmo poema, já que leitores e ouvintes podiam remanejar o texto poético, produzindo dele incontáveis variantes, havendo hoje em dia, nos cancioneiros em que se coligiu a poesia atribuída a Gregório de Matos, muitas versões de um mesmo poema.

Desse modo, quando lemos em uma edição atual os versos atribuídos a Gregório de Matos, lemos, na verdade, apenas uma variante desses versos, versos esses, como no caso dos romances e tonilhos, desprovidos da música que os acompanhava.

Quanto à poesia satírica, que tornou o autor conhecido ainda nos dias de hoje, ela era, no século XVII, como o demonstrou o pesquisador João Adolfo Hansen, um subgênero do “cômico” aristotélico. A sátira era composta para atacar vícios fortes. Mas o que era um vício forte? Na Ética a Nicômaco, de Aristóteles, este, ao falar da virtude, que é sempre unitária, fala da falta de unidade do vício.

Pensemos, por exemplo, na virtude da “amizade”: há dois vícios que se lhe opõem, sendo o primeiro um vício fraco, que causa riso e é ridículo, ou seja, a “adulação” – pois rimos do “amigo” que vive para nos adular –, e outro, que é um vício forte, que causa horror, ou seja, a “traição”, pois não há coisa mais terrível do que ser traído por aquele que pensamos que nos ama.

A sátira, desse modo, tem como objetivo promover a correção dos costumes, atacando comportamentos viciosos, e, nesse sentido, não é libertária, como muitos propuseram, mas é sim reacionária, já que tem como finalidade manter a ordem das coisas e é reativa à toda mudança. Seu fim é ser medicação para a alma e assim era chamada por aqueles que falaram de poesia nos séculos XVI, XVII e XVIII. O seu vocabulário chulo, baixo, é apropriado para demonstrar a vileza do vício, havendo uma proporcionalidade entre o vício que se ataca e o léxico com que se o ataca.

Falar do Boca do Inferno, desse modo, implica compreender que a sátira, como subgênero do cômico, que ataca vícios fortes, é por necessidade maledicente, sendo, portanto, “boca do inferno” qualquer poeta que, nos séculos XVI, XVII e XVIII, se propusesse a compor poemas desse gênero.

Um dos recursos artísticos mais empregados na poesia que se atribui a Gregório de Matos para provocar prazer é a metáfora. Essa, fundada na analogia entre dois termos, produz maravilha pela aproximação de conceitos distantes. Por exemplo, caso tornemos análogos “lírio” e “neve”, podemos dizer que “o lírio é a neve da primavera” e que “a neve é o lírio do inverno”.

Quanto mais distantes os conceitos assim aproximados, mais maravilha causava o poema, sendo aquele, em que compareciam metáforas de difícil entendimento, denominado “agudo”.

As agudezas metafóricas e o uso de tropos acumulados caracterizam parte da poesia composta no Estado do Brasil de fins do século XVII. Sendo aguda, só de forma anacrônica, ou seja, anistórica, pode ser chamada “cultista” ou “conceptista”.

O “cultismo” nada mais é do que o emprego acumulado de palavras peregrinas (estrangeirismos) de origem grega e latina, como “procela” no lugar de “tempestade”, com o objetivo de polir a língua portuguesa, burilá-la, aproximando-a dessas línguas artisticamente mais cultivadas, como então se cria, prática essa recomendada pelos nossos primeiros gramáticos do século XVI, como Fernão de Oliveira e João de Barros; quanto ao “conceptismo”, é nome de caráter depreciativo com que parte da crítica literária do século XX denominou o gosto pelas metáforas agudas dos séculos XVI, XVII e XVIII, em que conceitos distantes são aproximados por analogia.

Cultismo e conceptismo são conceitos a serem abandonados, já que, contrariamente ao que se pensava no século XX, não tornam evidente uma poesia em que predomina o “exagero”, o “mau gosto” ou a “afetação”, pois a poesia aguda e maravilhosa do século XVII é uma forma específica de fazer poesia e arte, como o são, aliás, todas as formas historicamente situadas de fazer poesia e arte.

* Marcello Moreira é professor titular de Literatura Brasileira e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)


Gregório de Matos – Poemas atribuídos código Asensio-Cunha, de João Adolfo Hansen e Marcello Moreira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013 (cinco volumes)