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Bandeiras de Cuba e EUA na janela

A necessidade de possuir Cuba é a mais antiga questão da política externa norte-americana – Noam Chomsky


Localizado somente a 145 quilômetros do estado da Flórida, Cuba sempre teve uma relação próxima com os Estados Unidos, pontuada por conflitos políticos travados ao longo dos séculos XIX e XX. A reaproximação diplomática dos dois países, ocorrida nos últimos meses, é fruto de uma longa história de conflito e codependência, envolvendo interesses econômicos, geopolíticos e ideológicos.

Leia atividade didática de História inspirada neste texto
Competências: compreender as transformações dos espaços como produto das relações socioeconômicas e culturais de poder
Habilidades: interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos; Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações

1) Mostrar Cuba em um mapa do Caribe ou das Américas. Perguntar para os alunos o que eles notam sobre sua localização. Depois, mostrar um mapa de Cuba com os detalhes geográficos do país. Os alunos podem notar que é uma ilha, o maior país no Caribe, perto dos Estados Unidos, tem muitos rios, os nomes estão em espanhol e a capital é Havana, por exemplo.

2) Perguntar para os alunos que imagens, nomes ou eventos vêm à mente quando eles pensam sobre Cuba. Pedir para os alunos leitura do texto sobre a história de relações entre os dois países e, depois, discutir quaisquer dúvidas ou comentários. O professor pode acrescentar mais detalhes históricos sobre a Guerra Fria, o regime cubano etc. ou adicionar outras leituras.

3) Explicar que a classe vai criar uma linha do tempo sobre relações entre Cuba e Estados Unidos. Alunos trabalharão em pares para aprender sobre um evento importante, pessoa ou política associados a essa relação. Pesquisando na internet e em textos, cada par deve escrever em um cartão um resumo do evento, pessoa ou política, incluindo fatos importantes e sua importância pela relação entre os dois países. Possíveis tópicos incluem: 1870s-1890s: José Martí e o movimento para independência 1886: Abolição da escravidão em Cuba 1898: A explosão do navio da Marinha norte-americana USS Maine 1898: A Guerra Hispano-Americana 1901: Emenda Platt 1903: A construção da base naval na Baía de Guantánamo 1912: A Rebelião dos Negros 1933: Fulgencio Batista e ditaduras militares 1959: Fidel Castro e Revolução Cubana 1959: Che Guevara e a Revolução Cubana 1961: Baia de Porcos 1962: Embargo econômico 1962: Crise dos Misseis 1960s-2014: Natureza do regime cubano 1991: Dissolução da União Soviética 2014: Reaproximação diplomática entre os dois países

4) Pedir para os alunos apresentarem oralmente seus resumos para a classe em ordem cronológica e colocar seus cartões no lugar apropriado da linha do tempo que pode ser colocado na parede.

5) Organizar uma discussão sobre a linha do tempo, destacando a relação entre os vários eventos, pessoas e políticos e como cada um se relaciona com tópicos anteriores e sucessivos. Levantar o papel da Guerra Fria e da União Soviética. Finalmente, discutir os motivos dos dois lados para a reaproximação de relações entre os dois países.

No século XVIII, Cuba já era uma das mais lucrativas colônias espanholas, com extensas plantações de açúcar trabalhadas por meio de mão de obra escrava. Mais importante, porém, era sua posição estratégica no Caribe. A ilha estava localizada na rota de navios para América do Sul, cuja importância comercial e política cresceu subitamente no período.

Atraído pelos benefícios comerciais e geopolíticos, o presidente norte-americano Thomas Jefferson propôs a aquisição da ilha já em 1807. John Quincy Adams, o poderoso secretário do Estado, escreveu em 1823 que a anexação de Cuba era “indispensável para a continuação e integridade da própria União”.

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Enquanto a Espanha controlava a lucrativa ilha, porém, os Estados Unidos não tinham poder suficiente neste período para adquirir Cuba. A Doutrina Monroe, de 1823, estipulava que os Estados Unidos não mais aceitariam intervenções europeias no hemisfério americano. Essa doutrina servia como uma declaração de intenções futuras, mas, na época, o país não tinha poder suficiente para comprar ou conquistar Cuba.

Destino Manifesto e a Expansão de Escravidão

Mas a cobiça por Cuba nunca foi esquecida. A enorme expansão territorial dos Estados Unidos, concretizada por meio da conquista dos povos indígenas e de uma grande parte do México, foi justificada ideologicamente pelo chamado Destino Manifesto, no qual os EUA tinham a missão providencial de espalhar sua “civilização” democrática.

Nesse clima, muitos políticos do Sul do país retomaram, na década de 1850, o sonho de adquirir Cuba, um país escravista cuja aquisição aumentaria o poder dos interesses escravistas. No contexto de conflitos entre escravistas associados com o Partido Democrata no Sul e os Republicanos no Norte, sobre o futuro de escravidão nos Estados Unidos, surgiram várias propostas de comprar a ilha.Os argumentos usados em favor e contra a compra de Cuba demonstravam o prevalente racismo contra latino-americanos e escravos negros na época. Os sulistas queriam expandir o território escravista do país enquanto políticos do norte, por sua vez, temiam a “mistura de raças”.

A questão de Cuba, portanto, inseria-se nos ferozes debates internos nos Estados Unidos sobre o futuro de escravidão e, enquanto essa questão não foi resolvida, a compra de Cuba foi impossibilitada.

A Guerra Hispano-Americana

Eventos na própria ilha no século XIX também moldaram as relações entre os dois países. Surgiram vários movimentos por independência da Espanha, brutalmente reprimidos pelas autoridades coloniais. Tentativas de dar mais autonomia ao país sempre foram rejeitadas pela Espanha, gerando uma guerra civil entre 1868 e 1878, que contribuiu pela abolição de escravidão em 1886. Mas a intransigência de Espanha provocou a retomada da luta dos cubanos pela independência em 1895.

Rebeldes cubanos já tinham cortejado o apoio de norte-americanos no seu esforço de liberar Cuba de colonialismo. O intelectual nacionalista, José Martí, morava nos EUA na década de 1880, construindo apoio ao movimento. Ele temia que o poderoso vizinho anexasse Cuba antes de a população cubana conseguir independência de Espanha.

Nessas décadas, os interesses econômicos americanos também aumentaram, especialmente em agricultura e mineração. Economicamente, a ilha tornou-se gradualmente dependente nos Estados Unidos, ainda que politicamente permanecesse uma colônia de Espanha.

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De 1895 a 1898, a guerra por independência criou bastante instabilidade econômica e política em relação aos EUA. Com uma recessão, fortes políticas expansionistas e o surgimento de uma poderosa imprensa popular que clamava por intervenção, os norte-americanos invadiram Cuba em 1898. O pretexto foi a explosão (provavelmente acidental, mas atribuída aos espanhóis) de um navio da Marinha americana que matou 268 marinheiros. Mas pressões econômicas e políticas para intervenção imperialista já haviam consolidado a forte vontade de o governo norte-americano intervir.

Depois de uma “esplêndida guerrinha”, nas palavras do secretário de Estado, forças militares derrotaram os espanhóis em Cuba, bem como nas outras colônias de Porto Rico, Guam e as Filipinas.

Como temia José Martí, os Estados Unidos ignoraram os desejos do movimento para independência e estabeleceu Cuba como uma semicolônia.  Uma legislação norte-americana de 1901, a Emenda Platt, incluída na Constituição cubana de 1903, estipulava que a ilha permitiria intervenção dos EUA, caso necessário. Cuba também cedeu a Baía de Guantánamo para a construção de uma base naval americana. Nominalmente democrático, mas com bastante corrupção e repressão de liberdades políticas, Cuba sofreria a dominância estadunidense pelas próximas seis décadas.

Ditaduras e revolução

A Emenda Platt durou até 1934, mas o padrão de intervenção militar norte-americana, a dominância da econômica cubana e apoio político para oligarquias cubanas e brutais ditaduras militares continuariam até 1959. A oposição ampla da população cubana à Emenda Platt e à dominância norte-americana também persistiriam.

Já em 1906, um movimento de oposição foi esmagado por tropas americanas que ocuparam a ilha por três anos. Em 1912, soldados dos EUA e cubanos derrotaram protestos de afro-cubanos contra racismo, culminando na morte de 6 mil rebeldes.

Nos anos 1930, tentativas de revogar a Emenda Platt e introduzir reformas democráticas foram minadas por um apoio do governo americano aos militares cubanos. O presidente Franklin D. Roosevelt (1933-1945) enviou forças armadas para Cuba em 1933, a fim de garantir o poder dos militares liderados por Fulgencio Batista. Em 1940, Batista ganhou as eleições com uma plataforma populista, progressista e com apoio aos esforços de guerra dos Estados Unidos.

Nesse período, dominação americana da economia cubana chegou ao seu ápice: a maioria das indústrias de açúcar, tabaco, mineração e utilidades públicas acabou sob o controle de empresas norte-americanas. Com a proteção dos militares, a máfia norte-americana investiu fortemente em cassinos, prostituição e drogas na ilha nos anos 1940 e 1950.

Em 1952, Batista organizou um golpe e construiu um estado fortemente alinhado com os Estados Unidos. Crescentes movimentos populares foram brutalmente reprimidos pela polícia secreta com milhares de execuções. O governo dos Estados Unidos providenciou bastante suporte financeiro, militar e logístico ao Batista até que o nível de instabilidade econômica e política no fim da década de 1950 forçou seu aliado abandonar sua ditadura.

Pós-Revolução

Uma pequena força guerrilheira liderada por Fidel Castro com bastante apoio popular derrubou as forças de Batista e assumiu poder em 1959. É importante ressaltar que o novo governo revolucionário não pretendia construir comunismo em Cuba: foi uma revolução nacionalista com um programa misto de reformas democráticas. O próprio Castro foi um admirador de muitas tradições democráticas estadunidenses, querendo plena soberania política e econômica. Mesmo assim, a revolução foi uma inspiração grande na América Latina contra o imperialismo americano.

Dedicados à Guerra Fria contra a União Soviética, os Estados Unidos, porém, não podiam aceitar uma potencial ameaça ideológica nas Américas, logo mostrando intransigência econômica e política contra Cuba, como já haviam feito e continuariam fazendo ao longo dos anos 1960-1980 contra projetos reformistas nas Américas do Sul e Central.

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Enquanto o governo cubano estatizou certas indústrias e fez reformas agrárias e sociais, os Estados Unidos gradualmente apertaram as restrições. É importante enfatizar que empresas americanas foram expropriadas pelo regime cubano somente depois que estas recusaram produzir pela economia cubana. Em reação, o presidente John F. Kennedy estabeleceu um embargo econômico e político completo contra Cuba em 1962 que continuou até dezembro de 2014.

Revolução Cubana
A Revolução Cubana foi uma revolução nacionalista com um programa misto de reformas democráticas

Castro seguiu o caminho lógico para qualquer líder no contexto da Guerra Fria. Ameaçado por um superpoder, ele abraçou o outro – a União Soviética. Somente em 1961, aliás, Castro declarou sua revolução socialista. A União Soviética aceitou a aliança com Cuba, vendo a possibilidade de uma base nas Américas. Mas seu compromisso com a ilha dizia respeito apenas aos seus próprios interesses geopolíticos. Como aconteceu na União Soviética, Cuba se tornou um estado não democrática e controlado por uma burocracia comunista. Mesmo assim, conseguiu construir um estado avançado de bem-estar, com um dos melhores sistemas de saúde e educação pública do mundo.

Já nos anos 1960, os EUA começaram uma campanha de desestabilização econômica, ideológica e política contra Cuba, envolvendo o embargo, a invasão fracassada da Baía de Porcos em 1961, sabotagem de instalações militares, tentativas de assassinar líderes cubanos e uma campanha de demonização do regime cubano juntamente com a mídia norte-americana. As tensões logo culminaram na Crise dos Mísseis, em 1962, quando Castro e Kennedy levaram o mundo à beira de uma guerra nuclear, depois de os Estados Unidos descobrirem mísseis russos na ilha.

Ao longo dos anos 1960-1990, as relações entre os dois países foram caracterizadas por hostilidades militares e pela guerra ideológica. A comunidade de exilados cubanos anticomunistas nos Estados Unidos se tornou uma potente força eleitoral nesse país e ajudou manter uma forte pressão contra o regime cubano.

Com o fim da Guerra Fria nos anos 1990, Cuba foi forçada a continuar sem o apoio da União Soviética. Por sua parte, a truculência ideológica contra Cuba nos Estados Unidos e entre norte-americanos de descendência cubana começou a diminuir. O governo e o empresariado estadunidense viram grandes oportunidades comerciais em Cuba, enquanto o regime cubano preparou a reaproximação através de reformas econômicas e políticas nos últimos anos.

Mas dá para perguntar se tanto sofrimento e conflito entre as duas nações podiam ser evitado se os EUA tivessem aceitado o seguinte convite para dialogo numa carta de Fidel Castro ao presidente Lyndon Johnson em 1964: “Eu seriamente espero que Cuba e os Estados Unidos possam eventualmente respeitar e negociar nossas diferenças. Acredito que não existem áreas de disputas entre nós que não podem ser discutidas e resolvidas dentro de um clima de entendimento mútuo”.

Sean Purdy é professor de História das Américas com ênfase nos Estados Unidos na USP