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Camisinha
Aumento de casos entre jovens de 15 a 24 anos preocupa

A forma como a sociedade vem lutando há anos contra a epidemia da Aids é um indicador de como o enfrentamento e a superação de preconceitos são determinantes para o estabelecimento de práticas de promoção de bem-estar coletivo.


Desde que surgiu, a Aids forçou um olhar atento e sensível para questões que eram tratadas com desdém: homossexualidade, sexo livre, prostituição. Obrigou a um debate aberto e franco sobre iniciação sexual, sexo fora do casamento, uso de camisinha, consumo de drogas. E ainda disseminou um conjunto de saberes que nos tornaram mais conscientes de como cada pessoa podia e ainda pode contribuir para a transformação de um quadro que inicialmente se mostrou terrível e assustador.

Leia proposta de Redação inspirada neste artigo e baseada na matriz do Enem
Competências Confrontar opiniões e pontos de vista
Habilidades Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos

1) Uma boa alternativa para inicialmente aproximar de forma sensível o estudante do tema da Aids é um filme ou documentário. Por meio deles, pode-se resgatar um registro de época, da percepção do impacto que a doença teve no início sobre as pessoas ou estabelecer um panorama de como a doença vem sendo enfrentada tanto por médicos, como por doentes e seus familiares. Após vê-los, um debate pode servir para colocar em evidência o ponto de vista dos estudantes e as questões que lhes preocupam em relação ao tema.

2) Num segundo momento, após dividir os estudantes em grupos, cada grupo pode se responsabilizar por um foco diferente de trabalho. Um deles pode pesquisar sobre datas, eventos e dados estatísticos bastante variados que possam contribuir para a produção de uma linha do tempo por meio da qual se avalie os avanços e se determine marcos significativos no tratamento da doença. O outro, pode ler criticamente as campanhas publicitárias que já foram propostas tematizando a necessidade de se proteger contra a Aids. Muitas delas sinalizam mudanças de foco importantes na forma como abordou-se o tema ao longo do tempo. Outros alunos podem identificar por meio da leitura de textos variados – jornalísticos, de divulgação científica, etc. – a real situação da doença hoje no país e quais as opções de tratamento. Vale a pena destacar aqui a necessidade de se produzir um glossário que explique o significado de termos científicos e siglas que nem sempre a maioria das pessoas sabe interpretar. Já os demais podem entrevistar profissionais de saúde e/ou portadores do vírus HIV tendo em vista um olhar mais próximo das pessoas que convivem com a doença no dia a dia. Na impossibilidade de realizar tais entrevistas, é possível encontrar farto material dessa natureza publicados na internet e que podem ser objetos de resumo, transcrição ou análise crítica.

3) Os trabalhos acima propostos já compõem um conjunto bastante significativo de atividades de leitura e de produção de texto. Caso o professor tenha condições, um produto final poderia ser produzido a partir de toda essa vivência: uma campanha publicitária que chamasse a atenção, especialmente dos jovens, para a situação de risco em que se encontram, assim como para a necessidade de agir conscientemente em benefício de sua saúde.

4) Tal atividade, além de justificar um trabalho mais atento dos alunos sobre como as estratégias argumentativas são trabalhadas nas peças publicitárias por meio de uma articulação bastante singular da linguagem verbal e visual, pode constituir um material de intervenção de caráter conscientizador na comunidade em que vive e circula. Alguns produtos possíveis poderiam ser cartazes a serem afixados nos espaços comuns de circulação dos jovens no dia a dia da escola, assim como posts a serem compartilhados nas redes sociais.


Apesar de o índice de mortalidade ainda exigir atenção, os tratamentos desenvolvidos inseriram a Aids no quadro das doenças crônicas com as quais se pode conviver desfrutando de certa qualidade de vida e de uma longevidade que antes parecia impossível. Basta lembrar que por um bom tempo na primeira fase da epidemia, o diagnóstico da Aids era signo de sentença morte.

Todas as conquistas realizadas no tratamento da doença só foram possíveis porque parte importante da sociedade aceitou a difícil tarefa de compartilhar conhecimentos e dialogar opções para conter a propagação do vírus e controlar seus efeitos.

Pelas características próprias de sua disseminação, muitas questões de natureza moral se impuseram, oferecendo resistências e exigindo um redimensionamento de valores. Nesse sentido, a experiência de enfrentamento da AIDS é uma marca de por que o ser humano ainda está aqui e de por que, sendo tão frágil em um ambiente hostil, tem ganho de tempos em tempos o direito de seguir adiante.

Todo esse movimento talvez tenha contribuído para a sensação que muitos vêm experimentando de que a prevenção já não exige tantos cuidados. No entanto, o aumento expressivo de casos de Aids, que se verificou recentemente entre os jovens de 15 a 24 anos, acendeu uma luz vermelha e nos obriga a colocar esse tema novamente no centro de nossas atenções.

Apesar de todos os avanços, a Aids continua sendo uma doença grave, não tem cura, e só no Brasil mata 11 mil pessoas por ano. Quem hoje a adquire vai precisar inevitavelmente tomar remédios pelo resto da vida e conviver com seus efeitos colaterais. Os jovens, que neste momento compõem um grupo de risco importante, precisam tomar consciência dessa circunstância e estabelecer formas eficazes de evitar a contaminação.

É fato que hoje nos encontramos numa situação muito melhor: sabemos como evitar a contaminação pelo vírus da Aids e, quando contaminados, isso já não é mais imposição de morte certa. Entender como isso se tornou possível nos faz lembrar que somos seres históricos e nos obriga a atuar como tal: não devemos nos expor ao risco de andar para trás.

A sequência de atividades a seguir tem a intenção de levar o estudante a compreender como o vírus da AIDS se tornou, em determinada época, objeto de medo para grande parte da população e como a ação articulada de pessoas e instituições pôde, com o passar do tempo, descontruir esse sentido. Numa outra dimensão, convidar o estudante a uma atitude de protagonismo, por meio de ações que promovam a conscientização de um problema que ainda está longe de ser superado.

José Carlos de Souza é professor de pós-graduação do curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz