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A revolução de 1959 foi o processo que formou a nação cubana. No caso dos países latino-americanos, marcados por heranças da colonização europeia e da escravidão, “formar a nação” significa dois movimentos: por um lado, conquistar a independência em relação ao poder econômico estrangeiro e, por outro, atingir um nível de igualdade social capaz de embasar uma nova identidade nacional, com densidade popular. Desde 1959, Cuba manda em si mesma e construiu um sistema social igualitário.


O caminho para os revolucionários de 1959 chegarem ao poder foi a guerrilha, mas sua legitimidade vai muito além da força das armas, pois advém de um extraordinário apoio popular. Tal apoio foi selado por esses dois valores com os quais a revolução se comprometeu desde o início: a igualdade e a soberania. É a renovação deste compromisso, inclusive nas crises mais duras, que faz a revolução se sustentar até hoje.

Em abril de 1961, os Estados Unidos invadiram militarmente a ilha para derrubar o novo governo, apoiados por cubanos ricos que fugiram para Miami. Enquanto os soldados cubanos derrotavam os invasores, Fidel Castro declarou o caráter socialista da revolução. O socialismo, momento transitório entre o capitalismo e o comunismo, carrega em si a utopia de uma igualdade na abundância. Porém, Cuba é uma ilha pobre. E assim como o Brasil, sua história é marcada por um passado colonial e escravocrata. Portanto, o principal desafio da revolução cubana foi (e ainda é) combater o subdesenvolvimento.

Como disse Esteban Morales, sociólogo cubano que investiga o racismo, não se pode superar em 50 anos (de revolução) os problemas que foram enraizados durante mais de 4 séculos (de escravidão e colonialismo). Para complicar, a sociedade cubana resiste ao bloqueio econômico dos Estados Unidos, o que torna o desafio do desenvolvimento ainda mais complexo. Foi preciso ter criatividade e a revolução só sobreviveu até hoje por ser um processo dinâmico e vivo.

Durante a existência da União Soviética, Cuba se aproveitou das vantagens geopolíticas que obtinha com a Guerra Fria, por estar no encalço do seu principal adversário. Recebeu oferta barata de crédito e preços favoráveis para o petróleo. Nesse período, a ilha desenvolveu uma “dependência de novo tipo” com os soviéticos. Era uma relação que garantia vantagens econômicas inegáveis no curto prazo, mas desvantagens preocupantes no longo prazo. Isso permitiu que Cuba vivesse uma sensação momentânea de “igualdade na abundância” nos anos 1970 e 1980. Mas quando a União Soviética caiu, em 1990, a pobreza emergiu novamente, mostrando as fragilidades e limites do socialismo cubano.

Para fazer uma analogia do xadrez, esporte que Che Guevara adorava, com o fim do campo socialista, Cuba perdeu a rainha e suas torres. Desde então, move as peças na defensiva para proteger as conquistas sociais da revolução. Nesse tabuleiro, a margem de movimentos possíveis está cada vez mais estreita.

O estreitamento de opções faz com que Cuba sobreviva como uma espécie de quilombo no século XXI. As condições são adversas, mas há uma tremenda energia para resistir. É evidente que há problemas: ônibus insuficientes e lotados, baixos salários, desemprego disfarçado, pouca variedade de produtos, escassez de alguns itens, cortes de energia, processos morosos, funcionários desestimulados, corrupção, imprensa limitada, internet precária, um sistema político centralizador, o racismo e o machismo no cotidiano. Essa lista seria alongada por qualquer cubano.

E com tantas dificuldades, afinal, por que os cubanos não derrubam o governo? Provavelmente porque a maioria crê que é ele, ainda, quem pode resguardar as conquistas da revolução. Fala-se da ineficiência do Estado, mas é um Estado que alimenta, veste, educa, cuida, defende e investe na produção da cultura popular. Apesar do racismo e do machismo, qualquer negro em Cuba pode virar médico, cientista, dirigente ou professor, enquanto as mulheres são maioria nas universidades, na saúde, na ciência e na cultura. Medida na régua do capitalismo contemporâneo, Cuba é uma espécie de reserva ecológica de valores humanos que o mundo se empenha em desnaturalizar. “Para nós, você não é um estrangeiro, é um ser humano”, ouviu um colega brasileiro, inseguro se receberia atendimento médico na ilha. “Os médicos cubanos são os melhores do mundo, porque são os mais carinhosos”, emendou um pai.

Se em outros tempos havia mais tabus e mais medo, hoje o Estado cubano perdeu o monopólio das perguntas e das respostas sobre o futuro do país. Vive-se um momento de transição, em que o paradigma de “socialismo centralizador” perdeu lastro na realidade, mas ainda não se consolidou uma alternativa. Como disse um jovem, “não temos clareza do que queremos nem das formas de consegui-lo”. O sentido da revolução está em disputa e imagina-se o país de muitas maneiras.

Apesar das incertezas, dentro da ilha existe considerável consenso em torno de um projeto de nação que preserve a conquistas sociais e a soberania. As manifestações espontâneas de luto decorrentes da morte de Fidel em dezembro de 2016 deram este testemunho. Quem falou em “juventude indiferente”? Milhões de cubanos, inclusive os jovens e os críticos, homenagearam Fidel, pois reconhecem que o país que começou em 1959 continua sendo mais digno que o país anterior.

Estas gigantescas marchas foram uma mensagem ao futuro, com efeito demonstrativo aos Estados Unidos e ao mundo sobre o significado da revolução para os cubanos hoje. A questão fundamental para eles não é ser “contra a revolução”, mas sim, quais os rumos que a revolução tomará. O futuro que respiram os cubanos já não é a utopia de uma sociedade sem Estado, sem classe e sem propriedade privada, mas é uma combinação entre garantia dos direitos universais, gratuitos e de qualidade com as novas relações mercantis que se fortalecessem, embora bastante disciplinadas por um Estado soberano.

Diante deste cenário, dois dilemas se colocam: até que ponto a mercantilização das relações sociais será compatível com a preservação do ideário revolucionário, ainda que em sua versão minimalista? O Estado será capaz de disciplinar o capital internacional em defesa da nação cubana, localizada na periferia do sistema econômico mundial do século XXI? Na obra moral regeneradora da revolução cubana, o otimismo da vontade enfrenta o pessimismo da razão.

Fábio Luis Barbosa dos Santos é professor de Relações Internacionais da Unifesp, autor do livro Origens do pensamento radical na América Latina: um estudo comparativo entre José Martí, Juan B. Justo e Ricardo Flores Magón (Editora da Unicamp, 2016).

Joana Salém Vasconcelos é doutoranda em História Econômica na USP, autora do livro História agrária da revolução cubana: dilemas do socialismo na periferia (Editora Alameda, no prelo).