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Tomie faleceu aos 101 anos de idade
A artista plástica Tomie Ohtake (1913-2015).

A artista plástica Tomie Ohtake, falecida em fevereiro, aos 101 anos de idade, deixou sua marca na arte brasileira. Seu nome foi constantemente impresso e divulgado desde 1957, por textos críticos, notas e releases de exposições publicados nos mais diversos periódicos. Os livros dedicados à pintora englobam desde os grossos catálogos de Casimiro Xavier de Mendonça (1983) e o do Instituto que leva seu nome (2004), aos infantojuvenis (7 cartas e 2 sonhos de Lygia Bojunga, 1983; Tomie Ohtake de Ligia Rego e Ligia Santos, 2002; Tomie – Cerejeiras da noite de Ana Miranda, 2006).


Leia atividade didática de Artes inspirada neste texto
Competências Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significado
Habilidades Analisar as diversas produções artísticas. Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção de uma obra de arte

1) Selecione em livros ou pela internet imagens das obras da artista. Prefira reproduções com alta definição da imagem e que apresentem os dados técnicos da obra (título, ano, materiais, tamanho), sites de museus são bons lugares para obter essas informações. Se em sua cidade houver algum museu ou instituição cultural com obras da artista, agende uma visita para você e sua turma de alunos.

2) Juntamente com o grupo de alunos, observe as imagens: como são as pinceladas, texturas, cores e formas apresentadas nas telas. Como a composição desses elementos é organizada? Nesse primeiro momento é importante se ater a ver a obra, observar seus detalhes e pormenores, sem se preocupar com significados ou com “o que a artista quis dizer”.

3) Uma obra de arte não necessariamente comunica alguma coisa, em muitas de suas telas Tomie Ohtake queria, simplesmente, trabalhar com as transparências das cores ou com outros elementos concretos da pintura, como a questão da profundidade, da criação de espaços, do peso das cores e de suas relações. Assim, uma pintura abstrata pode despertar imagens diferentes em cada um de nós, mas também é importante perceber que ela pode, simplesmente, querer falar dela mesmo, de suas próprias características. Após essa apreciação com os alunos, é possível apresentar uma contextualização das obras vistas, discutindo o contexto artístico do período em que Tomie as produziu e apresentando diferentes fontes, como artigos de jornais e revistas, matérias da internet, textos críticos de livros.

4) Em outra aula, proponha uma proposta prática na qual os alunos tenham de realizar uma pintura pensando nos elementos plásticos que a compõem. O foco da atividade não é no resultado final, mas no processo de realização da obra. Algumas perguntas podem orientar essas produção: as pinceladas na pintura serão marcadas? Será possível ver seu movimento? Se sim, que movimento será esse? Quais cores vou utilizar? Como eu as escolho? Quais relações entre elas eu quero propor? Quero usar somente cores claras ou cores fortes que contrastam? Qual é o suporte que escolho para pintura: papel, papelão, tecido, madeira…? Vou deixar que o espectador perceba qual é a textura do meu suporte ou quero “disfarçá-lo”? Minha pintura terá linhas aparentes, manchas de cor, formas bem definidas? O que acontece se eu misturar camadas de cor com a tinta molhada? E se a tinta já estiver seca, qual é o resultado?

5) Essas são apenas algumas perguntas que podem orientar a produção. O importante é considerar que discussão da obra de Tomie Ohtake tem relevância para a formação dos jovens por fazer parte da história de arte brasileira e de nossa cultura. A prática que advém dessa discussão não deve ser cópia ou releitura da obra da artista, mas uma maneira de se pensar as questões colocadas anteriormente de outra forma, pela prática. Assim, o trabalho prático dos alunos deve ser orientado por algumas questões, mas deve ser livre, assim como o foi o da artista.

Com todo esse material disponível sobre a artista nipo-brasileira (sem contar os inúmeros endereços eletrônicos, onde é possível encontrar artigos originais e compilações de outras fontes), cabe-nos refletir sobre sua obra tentando escapar dos lugares-comuns e propor àqueles que a apreciam uma discussão crítica e sensível.

Tomie Ohtake nasceu em Kyoto, no Japão, em 1913. Chegou ao Brasil em 1936. Pouco tempo depois de sua chegada à terra que achou repleta de uma luz amarela, casou-se e teve seus dois filhos.

As primeiras pinturas de Ohtake são realizadas em 1952, já aos 39 anos de idade, depois de algumas aulas com o artista japonês Keiya Sugano. O processo que começou pelo incentivo do professor, continuou na sala de sua casa na Mooca, que transformou em ateliê. As primeiras obras apresentam o entorno no qual vivia: a rua de sua casa, as paisagens e vistas da cidade de São Paulo.

A escolha pela abstração acontece já em 1953, quando realiza telas com manchas de cor que delimitam áreas na superfície plana, uma geometria traçada pela mão e pela matéria tinta.

Em 1957, os artigos de jornais ressaltam que Tomie Ohtake não mais podia ser tratada como uma “pintora de domingo” (como na época nomeavam-se os artistas amadores), pois as suas telas abstratas enfocam os elementos essenciais que constituem a pintura: a cor, a pincelada, a forma e a planaridade da superfície. Alguns críticos já vislumbram uma carreira artística para a mulher que, posteriormente, passa a afirmar ter se dedicado primeiro à família e depois à arte.  A partir dessa data, já em posse de uma rotina sistemática dedicada a seu ofício, começa a expor e a ganhar prêmios em importantes instituições do meio artístico – Salão Nacional de Arte Moderna, Museu de Arte Moderna de São Paulo e galerias –, tanto em mostras individuais quanto coletivas.

Costuma-se caracterizar Tomie Ohtake como uma artista nipo-brasileira. Dezenas de entrevistas questionam como o Japão e as suas origens aparecem em sua obra. A essa pergunta, muitas vezes respondeu que começou a pintar somente no Brasil, 15 anos após a sua chegada e que, por isso, acreditava ser sua obra muito mais ocidental que oriental, apesar de não poder negar que sua experiência e vivência no mundo poderiam se relacionar, de alguma maneira com o seu trabalho.

Tal questão merece reflexão, pois revela que muitas vezes o mercado de arte, escritores e espectadores apressados têm necessidade de encontrar classificações prontas para os artistas, para assim enquadrá-los. Contudo, se essa maneira de agir pode acabar com a ansiedade classificatória, deixa escapar as questões importantes para as pesquisas plásticas desenvolvidas pelos artistas.

Não se trata de negar que pode haver na obra de Tomie Ohtake uma ponte ou relação entre as culturas oriental e ocidental, mas perceber que quando um crítico como Paulo Herkenhoff, por exemplo, assume essa postura e faz uma defesa da análise das contribuições dos artistas nipo-brasileiros à arte do País, quer expandir a consideração sobre o que é a arte brasileira contemporânea e quais são as raízes de sua formação, que não as exclusivamente europeias.

Apesar de nunca admitir em suas entrevistas uma relação direta das suas obras com, por exemplo, a caligrafia japonesa ou o sumi-ê; Ohtake, desde 1975, em citação longamente repetida por diversas fontes, admite que sua pintura é ocidental, “porém sofre grande influência japonesa, reflexo da minha formação”. Completa ainda que essa “influência” estaria na procura da síntese que sua obra opera, como numa poesia haicai.

É em busca dessa síntese, aliás, que opta pela abstração. Ao longo das décadas, sua obra se modifica e seus “assuntos” variam, mas sempre dentro desse mesmo caminho. As pinturas produzidas entre 1958 e 1961 são formadas por espessas camadas de tinta, uma sobre a outra, que criam manchas e texturas, deixam entrever as cores que foram cobertas, o rastro do pincel é tanto pincelada como risco que retira a matéria. Nos anos seguintes, as manchas informes ganham contorno em formas retangulares e quadradas dispostas sobre o espaço branco e claro construído na tela. A geometria que a artista oferece ao espectador é gestual, feita pela mão, imperfeita, torta. Tais trabalhos são, na verdade, fruto de estudos feitos em papel recortado com as mãos, essas pequenas colagens anunciam a pintura: suas cores, organização e textura já estão ali presentes.

Nos anos de 1970, esses estudos continuam como a origem da pintura de Ohtake, no entanto, as formas recortadas pela tesoura, apresentam contornos mais definidos, formando curvas e sinuosidades nas telas. Uma exposição em agosto de 2013 apresentou ao público, no Instituto Tomie Ohtake, essas pequenas colagens. Mostrou-nos que as cores e texturas das telas já estão enunciadas nas retículas dos papéis impressos, que a artista recorta de jornais e revistas. Assim, o gesto pictórico e as camadas de cor relacionam-se com a malha reticulada do papel apropriado pela colagem.

A extensão da obra de Tomie Ohtake não nos permite descrevê-la por inteiro, mas cabe aqui uma importante consideração sobre como sua obra dialoga com a geometria e com o informe. Se em alguns trabalhos são as bem definidas linhas curvas que predominam, em outros, a pincelada corre livre e solta, registrando o gesto da artista e a materialidade dos elementos que utiliza. Além disso, as formas sinuosas, as elipses, os círculos fazem parte de sua obra em abundância.

Alguns críticos, como Miguel Chaia, ressaltam sentidos não explícitos na obra de Tomie Ohtake, relacionando as telas com círculos, realizadas a partir década de 1980, às imagens dos cosmos, como as captadas por satélites. As pinturas com a tinta acrílica dissolvida em água, que a artista passa a usar depois de longos anos utilizando apenas o óleo, remeteriam a essas imagens do céu, dos cosmos.

Sobre essa leitura, a pintora afirma que “estas formas não têm nenhuma relação com algum significado que eu queira dar. Pode até ter semelhanças como as que Miguel Chaia cita em seus textos, as nebulosas, mas não é intencional, embora, seja importante, pois vivemos no mesmo período, as minhas pinturas e as fotos das nebulosas”.

Essa citação demonstra que, apesar de registrar sua intenção, Tomie Ohtake não pretende fechar os possíveis sentidos, sensações ou ideias que possam ser atribuídos a sua obra. O fato de não dar títulos às pinturas também demonstra essa atitude, de não incutir no espectador uma forma ou ideia fixa. Seu convite, pelo contrário, é para um olhar aberto e atento às características, formas, camadas e pinceladas de suas obras. As camadas de cor criam texturas, manchas, formas e luminosidades distintas que, quando vistas pelo espectador, podem levar tanto à discussão e apreciação dos elementos mais essenciais dos quais a pintura é feita, quanto criar caminhos complexos na percepção do indivíduo, levando-o a perceber ritmos e materialidades que podem levar a mente a outras imagens e ideias.

Entretanto, é importante pontuar que esse artigo não termina com a conclusão de que em pintura abstrata cada um “vê o que quer”. O quadro é um objeto, uma realidade a ser percebida e observada, qualquer leitura a partir dele deve tomar como base essa concretude, assim como o contexto que envolve sua produção.

Helenira Paulino é graduada em Artes Visuais pela Unicamp e professora na Escola Miguilim