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Lygia Fagundes Telles
A autora de "As Meninas". Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles diz que não é raro atender a ligações de leitores querendo comentar seus livros. Tem uma resposta pronta: “Estou com o chapéu na mão para ir a um casamento, querido. Não posso falar agora”.


A anedota revela um pouco de sua poética. Há em sua obra a marca do suspense como uma pergunta sem resposta. Não porque na ausência resida o mistério (e muitos de seus textos invocam mistério e horror). Mas porque está repleta de personagens solitários, rejeitados ou loucos. O inacabado aparece como linguagem, na dificuldade de se comunicar.

Leia atividade didática de Literatura baseada neste texto

Competências: Analisar e interpretar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos

Habilidades: Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político; relacionar informações sobre procedimentos de construção do texto literário; reconhecer valores sociais e humanos atualizáveis em textos

Um roteiro para trabalhar e interpretar o romance As Meninas e o conto Antes do Baile Verde

As Meninas
1) Encontre e selecione trechos de fluxo de consciência de Lorena, Lia e Ana Clara ao longo do livro. Depois, faça a análise dos recursos expressivos e estilísticos desses trechos, comparando-os para encontrar as relações entre representação linguística e psicológica das personagens. O romance é um exemplo de utilização do fluxo de consciência e da variação da utilização de registros em terceira e primeira pessoa. A rigor, o livro é narrado em terceira pessoa. No entanto, o narrador também empresta as personagens como narradores em primeira pessoa em alguns trechos, intercalando momentos de fluxo de consciência e a migração de fluxos entre um personagem e o outro durante a mesma cena. Peça aos alunos que encontrem trechos representativos dessas elaborações.

Antes do Baile Verde
1) No conto, duas personagens se preparam para o carnaval, enquanto o pai de uma agoniza no quarto ao lado. Identifique, em grupo, como a linguagem determina as relações entre elas e como se dão os mecanismos de controle, autoridade, projeção e inveja que se estabelece numa ação que supostamente as igualaria socialmente. Discuta a questão à luz da nova lei que regulamento o trabalho das funcionárias domésticas no Brasil.

No conto Natal na Barca, por exemplo, uma mãe com um filho moribundo vive um transe misto de desespero e fé; em Venha Ver o Pôr-do-Sol, um amante rejeitado decide castigar a mulher trancando-a no jazigo de um cemitério; em Biruta, um garoto é privado de seu cachorro no Natal.

Lygia trata do “desencontro humano como inevitável”, como disse Óscar Lopes.

Para o crítico Wilson Martins, Lygia era a “contista da idade ao mesmo tempo encantada e atormentada que é a adolescência e do mundo tenebroso que se chama família, mas também contista de gatos filosóficos, cães memorialistas e anões de cerâmica”.

Para o poeta e crítico José Paulo Paes, um de seus grandes méritos era “ter dado estofo convincentemente humano às suas personagens burguesas, salvando-as da estereotipia a que as costuma confinar à ficção ideologicamente engajada”.

É nessa burguesia paulistana em que nasce a escritora, em 1923. A relação com o pai, as dificuldades da juventude, a convivência com a intelectualidade paulista, os anos na faculdade de Direito, a amizade com escritoras como Hilda Hilst e Clarice Lispector, e o envolvimento com a política, tudo isso marca profundamente sua obra.

Lygia trabalhou muito até dominar os gêneros do conto e do romance e construiu conscientemente um estilo próprio que expõe a rejeição como o mal maior a afligir ricos e pobres, liberais e conservadores, héteros ou gays.

Já publicou 19 livros: quatro romances, livros de contos e de memória, além de participações em coletâneas. Nas últimas décadas, tem revisto parte de sua obra em sucessivas reedições e mudanças de editoras.

Preocupa-se com a posteridade. Em 2013, comemorou-se o 40˚ aniversário da publicação de As Meninas, além dos 90 anos de vida da autora. Está, merecidamente, “além do bem e do mal que possam dizer sobre a sua obra os críticos literários”, como dizia Wilson Martins.

As Meninas
Romance mais conhecido de Lygia Fagundes Telles foi publicado em 1973

O romance As Meninas é um sucesso literário mantido e reforçado sobretudo pelo acolhimento do público. O livro já teve mais de 30 edições e continua sendo lido, discutido, estudado e adaptado em diferentes suportes e linguagens: recentemente, ganhou a primeira edição eletrônica e uma adaptação teatral em São Paulo.

Sua força está precisamente nos riscos estilísticos que a autora se impinge e que atravessa com equilíbrio e controle, fazendo surgir, ao longo da leitura, uma imagem viva e poderosa de três personagens emblemáticas de um momento cultural do Brasil:

A jovem burguesa escolarizada e frágil, a idealista que crê no poder da comunidade e no fim das desigualdades sociais, e a mulher que se entrega aos prazeres do físico e ao êxtase.

Elas são Lorena, a filha de milionários com transtorno obsessivo-compulsivo; Lia, a guerrilheira baiana bissexual; e Ana Clara, órfã de pai, filha de mãe pobre e com histórico de abusos na infância.

As três moram em um pensionato de freiras em São Paulo e são amigas próximas, compartilhando momentos e experiências de formação na passagem da juventude para a vida adulta. Em comum, têm a certeza de um futuro grandioso à espera.

É essa fé no destino generoso que justifica a opção da autora por construir o romance utilizando-se do recurso do fluxo de consciência. É preciso identificar como essas questões se articulam a fim de apontar como o que era considerado um retrato de sua época no ano de lançamento, em 1973, pode ser considerado atual 40 anos depois.

Lygia Fagundes Telles escreveu este seu terceiro romance no fim dos anos 60 e começo dos anos 70, no momento em que a ditadura brasileira intensificava a perseguição aos grupos de esquerda, obrigados a operar na clandestinidade.

No período, o mundo e também o Brasil vivem a explosão
da revolução sexual, da contracultura e da ideia de que a utilização de entorpecentes provoca estados alterados de consciência capazes de revelar grandes certezas encobertas no véu da geopolítica mundial, das crenças místicas e das explicações científicas e psicanalíticas.

É preciso lembrar que esse ambiente se relacionava com o mundo de freiras citando bulas papais, com as aulas de latim, os fortes laços familiares, a solidez do casamento, as greves, as torturas e os assassinatos de militantes políticos.

Assim, as únicas promessas reais de liberdade que os anos 70 prometiam apontavam todas para a interioridade do sujeito. No entanto, como vemos em As Meninas, o movimento de interiorização não se traduz em uma busca por identidade individual exclusiva e afirmativa.

Ainda que Lorena, Lia e Ana Clara articulem nos seus devaneios buscas muito particulares (Lorena quer que o amante platônico M.N. tire a sua virgindade e largue a esposa e os filhos para ficar com ela; Lia quer lutar pelo esclarecimento e o engajamento do povo, mas antes quer ficar com o namorado e preso político Miguel; Ana Clara quer ser rica para desfrutar das benesses do capitalismo), ainda assim, o que elas parecem procurar é mais redenção do que identidade.

No cúmulo do paradoxo, quando mergulham em si mesmas, em fluxos de consciências às vezes truncados e aleatórios, o que parecem encontrar é a ideia do outro.

Como numa teologia sutil, ou disfarçada, Lygia Fagundes Telles cria três personagens que se iluminam na comunhão com a humanidade a partir do mergulho naquilo que os anos 70 prometia como a quintessência da liberdade individual.

Esse sonho da liberdade pessoal, no entanto, não é exclusividade dos anos 70. É sempre uma reedição dele que se encarna de tempos em tempos e movimenta exércitos de inocentes e rios de dinheiro.

Nos últimos 40 anos, o que mudou nesse sentido? Ainda se pensa nas drogas como um espaço inalienável de liberdade (embora não mais se fale em estados alterados e sim em apaziguamento da consciência), a tortura não sumiu das prisões mesmo após a reabertura política, há pouco espaço de afirmação das individualidades sexuais e a homossexualidade é tão abertamente combatida que às vezes temos a impressão de que recuamos no tempo.

Duas coisas mudaram de lá para cá, no entanto, e parecem ser uma boa ponte para discutir a atualidade de um romance como As Meninas: a promessa de independência pessoal garantida pelo dinheiro (com circulação e poder de compra maiores hoje do que há 40 anos) e a conquista do espaço virtual como lugar neutro de expressão.

Pesquisas mostram que a geração que hoje tem a mesma idade de Lorena, Lia e Ana Clara sente-se no direito de esperar por um grande futuro, por um mundo onde não faltem emprego ou dinheiro, e onde as liberdades individuais possam ser exercidas, mesmo que não façam nada por isso.

Em outras palavras, a geração que tem hoje entre 15 e 30 anos vive uma relação tão ensimesmada com o mundo e mediada por equipamentos eletrônicos que é como se vivessem, no limite, em eternos monólogos interiores, como as personagens de Lygia.

A leitura de As Meninas, assim, é eficaz naquilo que se chama de deslocamento antropológico.

Pelo espaço de algumas centenas de páginas, o leitor pode se ver na personagem, pode se aproximar de pessoas ou de um sentimento familiar e articular, assim, um entendimento do outro, diminuindo a distância dele com o mundo, encurtando o caminho que vai do solipsismo (de quem vê o mundo como um espelho de si) ao reconhecimento do outro como parte indissociável da experiência de viver.

* Roberto Taddei é coordenador da pós-graduação em Formação de Escritores do ISE Vera Cruz

Saiba Mais

Obras de Lygia Fagundes Telles
(todas editadas pela Companhia das Letras)

Antes do Baile Verde – contos

Ciranda de Pedra – romance

A Estrutura da Bolha de Sabão – contos

Invenção e Memória – contos e memória

As Meninas – romance

Seminário dos Ratos – contos

Verão no Aquário – romance