COMPARTILHE
Hiroshima
Foto de 1948 mostra a devastação atômica em Hiroshima

Há 70 anos terminava um acontecimento que se tornou o catalisador de todas as perversidades do século XX – a Segunda Guerra Mundial – e a pergunta contrafactual que as novas gerações de diplomatas e historiadores continuam fazendo é: até que ponto ela poderia ser evitada?


Diplomatas e embaixadores são também, à sua maneira, historiadores, já que vivem interpretando a história. A grande diferença é que os historiadores têm o privilégio de se situarem após os fatos acontecidos, visualizando em retrospectiva e com maior nitidez, todas as alternativas possíveis e eliminando contingências.

Leia atividade didática de História baseada neste texto

Competências: Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações de poder entre as nações
Habilidades: Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações. Analisar a ação dos estados nacionais no que se refere ao enfrentamento de problemas econômicos e sociais

Discuta, com seus alunos, a história contrafactual da Segunda Guerra Mundial

1)A ficção de H. G. Wells, quase toda ela escrita e publicada antes da eclosão da Segunda Guerra foi realmente antecipadora. Pesquisar com os alunos outros exemplos, no universo militar ou tecnológico, nos quais a ficção literária exerceu sua capacidade de previsão.

2) A história contrafactual de definine quando perguntamos: “E se…”e usamos este condicional para definir as alternativas prováveis para acontecimentos do passado. Mas quais seriam as alternativas prováveis? Alternativas prováveis são aquelas que podemos demonstrar com base em provas contemporâneas que os contemporâneos chegaram a considerar. Refletir sobre a definição acima e apontar alguns exemplos de alternativas contrafactuais para o início e o final da Segunda Guerra.

3) Reconstituir as circunstâncias da criação da primeira bomba atômica pelos norte-americanos em 1945, identificando os principais detalhes da operação Trinity. Sugerimos usar como texto “Trinity: a história em quadrinhos da primeira bomba atômica” de Jonathan Fetter-Vorm (trad. André Czarnobai, S. Paulo, Três Estrelas, 2014).

4) A decisão de atacar o Japão com armas nucleares permanece a maior e a mais duradoura controvérsia da Segunda Guerra Mundial. Seus defensores a vêem como a “escolha menos abominável” enquanto seus críticos argumentam que a história teria seguido um caminho mais humano e civilizado se as armas nucleares não estivessem disponíveis ou não tivessem sido utilizadas. Discutir as duas afirmações, retomando o contexto das forças triangulares que atuaram no Pacífico em 1945: norte-americanos, japoneses e soviéticos.

Ainda assim, até que ponto o jogo diplomático afetou e/ou alterou os eventos históricos, sobretudo no caso da catástrofe bélica que foi a Segunda Guerra?

Entre a invasão da Polônia por Hitler, em 1939, e a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 – que demarcam, propriamente o início e o fim do conflito – em quais momentos o diálogo foi completamente abandonado e os contendores partiram para a irracionalidade da guerra?

Perguntas contrafactuais exigem uma certa imaginação do historiador e às vezes é conveniente examinar a ficção produzida pela época.

Neste caso, a Guerra começou em Danzig, em janeiro de 1940, quando um negociante judeu-polonês foi assassinado por um jovem nacional-socialista.Ele achou que o polonês – ao ajustar sua dentadura nova – estava rindo e zombando de um digno representante do 3º Reich.

O incidente foi descrito como aquela derradeira faísca que detonou o barril de pólvora das rivalidades e desconfianças europeias, conduzindo ao conflito mundial. Esta narrativa ficcional – A Forma das Coisas Que Virão, escrita por H.G. Wells e publicada em 1933 – ainda hoje espanta pela sua capacidade de antecipar-se: basta eliminar o incidente grotesco, recuar a cronologia para setembro de 1939 e manter o cenário em Danzig que a fábula se aproxima muito da história do que realmente aconteceu há mais de 70 anos.

Nos dez dias anteriores à deflagração da guerra, para ela ser evitada, era absolutamente necessário ocorrer uma dessas três coisas: primeiro, Hitler tinha de recuar da guerra – como  já fizera um ano antes em Munique – e aceitar um acordo internacionalmente negociado sobre as disputas com a Polônia em Danzig; segundo, os líderes poloneses tinham de aceitar que a guerra contra a Alemanha era uma “opção irracional”, concordando na revisão das fronteiras; terceiro, os líderes britânicos e franceses tinham de abandonar a garantia à Polônia, tentar novo acordo ou dar à Alemanha “carta branca” no Leste Europeu.

As férreas determinações de cada uma dessas partes em conflito transformaram-se numa espécie de psicohistória diplomática da guerra.Segundo inéditos testemunhos da época, cada um dos personagens que se envolveram nas tensas negociações, ocorridas no fim de agosto de 1939 (que se estenderam por quase dez dias em Berlim), teve de enfrentar uma crescente exaustão física e mental: Hitler encontrava-se num “estado incomum de nervos”; Goebbels, “exaurido devido ao excesso de trabalho”; Daladier, quase que em “estafa permanente”; Alex Cadogan, “moído de cansaço”; e Chamberlain, “sem força suficiente até para se expressar bem”.

O que levou a um estreitamento das alternativas na “caixa mental” de cada um, com seu próprio universo moral. Por mais criminosos que fossem os planos para a guerra (e os de Hitler realmente eram) eles ganhavam o revestimento de “moralidade” na restrita caixinha de cada um dos negociadores.

Segunda Guerra
Soldados alemães durante a batalha de Stalingrado

No lado britânico e francês, a obsessiva busca por uma justificativa de significado imediato resultou no conceito de “honra”. Foi só quando restou, para ambos os lados, uma convincente e momentânea asserção moral é que a guerra se tornou inevitável.

Ao longo daqueles dez dias de longas negociações, os protagonistas (sem exceção) foram progressivamente abandonando qualquer arcabouço de racionalidade, apegando-se unicamente ao enunciado que restara nas suas caixinhas mentais: “Honra”, gritava um; “orgulho”, gritava outro; “pátria”, vociferava um terceiro. E partiram para a briga – que resultou na maior tragédia do século 20.

Na outra ponta da cronologia da Segunda Guerra Mundial, meses antes de agosto de 1945 – quando se reuniram em Yalta – os líderes das três potências – Roosevelt, Churchill e Stalin – já delinearam o final do conflito pela “solução nuclear”. Mas nada indicava que tal solução fosse a única alternativa possível.

Quem se lembraria, por exemplo, que Stalin foi agraciado com o título de “homem do ano” de 1942, ganhando foto de capa e manchete de “salvador do mundo ocidental” na revista americana Time? E que a repentina morte de Franklin Roosevelt, três anos depois, provocaria enorme comoção em Moscou, com uma multidão dirigindo-se, em silêncio, para a embaixada americana, homenageando o falecido como um “grande amigo da Rússia e da paz”? Varridas da memória pelo ambiente pesado da Guerra Fria pós-1945, estas são, entre muitas outras, algumas das cenas mais inusitadas da historia do século 20, que retornam à lembrança coletiva após a leitura da correspondência ente Roosevelt e Stalin.

É certo que as cartas, recentemente publicadas, nada acrescentam nem alteram a história da Segunda Guerra Mundial. Fornecem, contudo, novos ângulos de visão e outras perspectivas, nem sempre agradáveis, à nossa cômoda amnésia histórica.

De material bélico pesado a alimentos e vestuário, as cartas adicionam detalhes espantosos a respeito da enorme ajuda material que Roosevelt conseguiu liberar para a União Soviética derrotar a Alemanha.

Muitos viram nesse tópico apenas um resquício da atitude amplamente favorável de Roosevelt em relação à URSS, interpretada, não raro, como ingenuidade de alguém que foi vítima das próprias ilusões e, até mesmo, dos limites físicos impostos pela sua doença. Mas existiram outras alternativas?

Algumas cartas deixam clara a decepção de Roosevelt com os acordos de Yalta. Ele sabia, no fundo, que estes nada valeriam, pois o delineamento da Europa do pós-Guerra seria determinado não por acordos, mas pela localização real dos exércitos ocupantes quando da rendição alemã.

Outros historiadores argumentam que Roosevelt conseguiu, apesar de tudo, estabelecer padrões para a Europa Oriental, enquadrando Stalin e obrigando-o a romper com o acordo de Yalta para consolidar as posições soviéticas.Para além dos intérpretes, as cartas revelam que Roosevelt conseguiu manter sempre o diálogo e que Stalin nutria – desde os primeiros tempos do New Deal – uma velada admiração pelo presidente americano. Conseguiu até mesmo que o seu interlocutor aceitasse o tratamento brincalhão, ao chamar Josef Stalin, em algumas cartas, de “Tio Joe”.Menos de dez dias depois da morte de Roosevelt, ou seja, em julho de 1945, ainda em Potsdam, Truman recebeu a mensagem cifrada de que o Teste Trinity tinha sido um sucesso e a bomba poderia ser produzida em questão de semanas.

Foi então que o embaixador russo, Vyacheslav Molotov (que era para Stalin o que Harry Hopkins era para Roosevelt), já seria destratado por Harry Truman: “Ninguém jamais falou assim comigo”, reclamou Molotov. “Cumpra sua palavra e não o tratarei dessa maneira”, rebateu Truman. Esse diálogo seria inconcebível na presença de Roosevelt.

O restante da história é bem conhecido: quatro meses depois da morte de Roosevelt vieram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki – e as cinzas da Guerra Fria manietaram o diálogo e calcinaram as mentes.Seria possível evitar a guerra se aquelas três condições apontadas tivessem se realizado? A guerra não teria o seu desfecho com as bombas atômicas se as negociações tivessem tomado outros rumos? A resposta é, com certeza, negativa. Então, por que nos dedicarmos a tais especulações contrafactuais?

Porque a História não é a reconstituição apenas do que aconteceu, mas também do que poderia ter acontecido e o exercício contrafactual – desde que fundamentado em fontes confiáveis – seria o equivalente virtual da experimentação laboratorial para os historiadores. Com o adendo importante de que os historiadores já realizam esses experimentos rotineiramente em suas mentes.

Por isso – não apenas em relação a eventos como a Segunda Guerra Mundial – em História devemos ter cuidado para não usar demais a palavra “inevitável”. Porque todos sabemos que os historiadores não escrevem rigorosamente sobre o tempo passado, mas sobre o que o historiador alemão Reinhart Koselleck chamou de o “futuro do passado”.

Ou seja, eles sabem o final de toda a trama histórica da guerra, mas não a projetam arbitrariamente na mente dos protagonistas da história, que viveram, à sua maneira, também um passado saturado de futuro: um tempo cheio de antecipação, alternativas possíveis, temores e esperanças. Inclusive as frustradas esperanças de que a guerra não ocorresse.

* Elias Thomé Saliba é Livre-Docente em História pela Universidade de São Paulo (USP)

Saiba Mais

E se…? Como seria a história se os fatos fossem outros?, de Robert Cowley. Tradução de Fábio Fernandes. Editora Campus, 2004.

Trinity: a história em quadrinhos da primeira bomba atômica, de Jonathan Fetter-Vorm. Tradução de André Czarnobai.  Três Estrelas, 2014

“Causa, contingência e contrafactuais” IN Paisagens da História, de John Lewis Gaddis. Tradução de Marisa R. Motta. Campus, 2003.

1939, contagem regressiva para a Guerra, de Richard Overy.  Tradução de Vitor Paolozzi. Record, 2010.