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Contos, novelas e romance de aventuras, em geral, são as primeiras paixões literárias de crianças e jovens. Tradicionalmente, os clássicos juvenis convertem-se em uma ponte entre a literatura juvenil e a adulta. Tal preferência talvez se credite ao fato de o gênero estabelecer muitas relações com as formas arcaicas da narrativa. O protagonista das narrativas de aventura aproxima-se dos heróis míticos e dos enredos arquetípicos em que um herói abandona a “sua casa” e viaja até os limites de “outro mundo”: sujeito a provas e testes, obtém o que desejava e inicia a viagem de regresso, durante a qual pode enfrentar novas provações.


A partida, que liberta; a aventura, que ensina; os obstáculos, que temperam e põem à prova; o regresso, que repõe a ordem – são os temas recorrentes das narrativas de aventuras juvenis. Os personagens abandonam um mundo onde nada muda. Os leitores saem do tempo real de suas vidas e mergulham na ficção.

É por isso que um dos componentes essenciais para a narrativa de aventura é a sua extraterritorialidade: as experiências vividas pelo protagonista transcorrem em outro lugar. Talvez esse “outro lugar” explique a recorrência das paisagens marinhas em tantas narrativas de aventuras. Como tão poeticamente descreve Ana Maria Machado, em Como e Por Que Ler os Clássicos Universais desde Cedo, publicado pela Editora Objetiva, muitas aventuras “recendem a maresia, têm som ambiente de velas drapejando ao vento, madeira do casco estalando, ondas se quebrando nos rochedos ou marulhando na praia, gaivotas crocitando enquanto voam em giros sobre embarcações”.

Conheça as características das novelas de aventuras: 

1. Narador X leitor
O narrador transmite ao leitor uma aventura, ou seja, acontecimentos impressionantes experimentados pelo protagonista. A enunciação deve provocar a sensação de que tais ações são possíveis em um tempo e espaço de alteridade, 
em que tanto o protagonista como o leitor se reconhecem ou se estranham. Em sua imaginação, o leitor identifica-se com 
o protagonista, esquece-se de seu cotidiano, revivendo as proezas do herói.

2. Conteúdo temático
Os personagens se apropriam de espaços naturais ou de outras culturas movidos 
pela curiosidade, implicando: exploração de lugares insólitos, contato com povos 
e pessoas diferentes, superação de obstáculos gigantescos, determinação 
na conquista de objetivos.

3. Construção composicional 
Como há distanciamento entre 
as experiências cotidianas 
dos personagens e as experimentadas 
em suas aventuras, os núcleos 
de ações são hierarquizados 
em função da dinâmica:
a) Apresentação – os protagonistas 
são introduzidos e se expõem algumas circunstâncias anteriores à aventura.
b) Complicação – as aventuras 
se desenrolam: algo acontece por 
algum motivo; algum personagem 
faz algo que tem consequências. 
Tal processo conduz ao clímax.
c) Desfecho – os obstáculos são 
superados pela ação do herói, encaminhando-se para um equilíbrio diferente do inicial, já que a 
personagem é transformada 
pela experiência aventuresca.

4. Marcas estilísticas
a) Apresenta como eixo uma linha temporal construída pelos eventos que se sucedem.
b) Uso de marcadores para localização temporal e espacial dos episódios narrados (tempo como movimento, lugar como pausa no fluxo temporal, afeição pelo lugar em função do tempo.
c) O texto pode ser narrado na 3ª ou 1ª pessoa. Quando o narrador é também personagem, há fusão do “eu” que enuncia de um espaço e de um tempo e o “eu” implicado nos eventos relatados.
d) Uso de adjetivação para caracterizar 
os lugares por onde o protagonista passa.
e) Tendência a uso de vocabulário mais concreto com uma série de palavras que fazem referência aos lugares e a seus atributos ou ao modo de vida das pessoas. É possível encontrar palavras ou expressões que revelem o ponto 
de vista do personagem em relação 
às experiências relatadas.

Clássicos infantojuvenis: seleção de 11 obras e versões

Vinte Mil Léguas Submarinas
Autor: Júlio Verne
Edição integral: Tradução: André Telles Zahar
Edição adaptada: Walcyr Carrasco-Moderna
Adaptação para HQ, 
animação ou cinema: Filme 
Dirigido por Richard Fleischer, em 1954

A Ilha 
do Tesouro
Autor: Robert Louis Stevenson
Edição integral: Alves Calado Record (Tradutor)
Edição adaptada: Ary Quintella – Ática
Adaptação para HQ, 
animação ou cinema:  HQ
Christophe Lemoine (Autor) 
Patrice Duplain (Ilustrador) – 
L&PM Editores

Ilíada
Autor: Homero
Edição integral: Lourenço, Frederico (Ilustrador) – Penguin Companhia
Edição adaptada: Menelaos Stephanides – Editora Odysseus
Ruth Rocha Conta a Ilíada – Salamandra

A Volta ao Mundo 
em 80 Dias
Autor: Júlio Verne
Edição adaptada: Walcyr Carrasco – Moderna
Adaptação para HQ, animação ou cinema: Filme 
Dirigido por Michael 
Anderson, em 1956
HQ 
Loïc Dauvillier (Autor)
Aude Soleilhac (Ilustrador)- Salamandra

O Lobo do Mar
Autor: Jack London
Edição integral: Daniel Galera – Zahar
Edição adaptada: Monteiro Lobato – Ibep Nacional
Adaptação para HQ, animação ou cinema: Minissérie 
Dirigida por Mike Barker em 2009 com dois episódios

Moby Dick
Autor: Herman Melville
Edição integral: Alexandre Barbosa de Souza – Cosac Naify
Edição adaptada: Fernando Nuno – DCL
Adaptação para HQ, animação ou cinema:  Filme 
Dirigido por John Huston, 
em 1956

As Viagens 
de Gulliver
Autor: Jonathan Swift
Edição integral: Britto, Paulo Henriques (Tradutor) – Penguin Companhia
Edição adaptada: Clarice Lispector (Adaptação) – Rocco
Adaptação para HQ, animação ou cinema: Filme 
Dirigido por Rob Letterman, 
em 2010

Robinson Crusoé 
Autor: Daniel Defoe
Edição integral: Sergio Flaksman (Tradutor) – Penguin Companhia
Edição adaptada: Fernando Nuno (Adaptação) – DCL
Adaptação para HQ, animação ou cinema:  Filme 
Dirigido por Rod Hardy e George Miller, em 1997

Peter Pan
Autor: James Matthew Barrie
Edição integral: Ana Maria Machado – Salamandra
Edição adaptada: Paulo Mendes Campos – Ediouro
Adaptação para HQ, animação ou cinema:  Animação Produzida pela Disney em 1953

A Odisseia
Autor: Homero
Edição integral: Lourenço, Frederico (Tradutor) – Penguin Companhia
Edição adaptada: Menelaos Stephanides – Editora Odysseus
Ruth Rocha Conta a Odisseia – Salamandra

A Ilha 
Misteriosa
Autor: Júlio Verne
Edição adaptada: Clarice Lispector – Rocco
Adaptação para HQ, 
animação ou cinema: 
Filme 
Dirigido por Cy Endfield, 
em 1961

Com seus alunos
Prepare-se para ler!
Sugestões e orientações para a leitura compartilhada
Anos  do Ciclo: 4º ao 9º
Área Envolvida: 
Língua Portuguesa
Possibilidade Interdisciplinar: História, Geografia, Artes
Tempo de Duração: 
Atividade permanente
Objetivos de aprendizagem: Posicionar-se criticamente em relação aos textos lidos. Trocar impressões com outros leitores a respeito dos textos lidos. Comparar textos (de mesma mídia ou não) quanto ao tratamento temático ou estilístico.

ATIVIDADES

1. Promova uma roda de leitura com novelas de aventura em que o mar componha o cenário. Para alunos dos anos finais do Fundamental I ou dos anos iniciais do Fundamental II, dê preferência a edições adaptadas; para alunos dos anos finais do Fundamental II, sugira as integrais.

2. As rodas de leitura abrem espaço para que os próprios estudantes escolham o que ler, conversem sobre o conteú-do dos textos, indiquem ou não a obra a possíveis leitores, analisem as recomendações dos colegas, desenvolvendo, ao longo do processo, gostos e preferências por obras, gêneros e autores.

3. Como a leitura das obras selecionadas se sustenta no diálogo igualitário entre os leitores, não há atividades para analisar aquilo que o autor quis dizer em seus textos, mas, sim, uma conversa a respeito das diferentes e possíveis interpretações que um texto pode suscitar. Todos podem expor suas ideias e argumentar, não se pretende chegar a um consenso, apenas compartilhar diferentes perspectivas e intensificar processos reflexivos. São os argumentos que vão sustentar as manifestações que cada pessoa pode trazer à discussão de uma obra.

4. O papel do professor nas rodas é instigar os leitores a expressar o que absorveram dos textos, como foram tocados por eles. A mediação do professor é, talvez, o fator de maior peso para o sucesso das rodas de leitura. São suas provocações sensíveis aos questionamentos e às curiosidades do grupo que mobilizarão a participação, tornando as rodas interessantes.

Passo a passo

1. Apresente os títulos para seus alunos. Faça um levantamento das obras disponíveis na biblioteca escolar ou sugira que cada um adquira um título de sua preferência a partir de consulta às sinopses disponíveis em sites de livrarias. Se desejar, organize um mural com imagens das capas dos livros e proponha que seus alunos afixem cartazetes com as sinopses.

2. Combine com que periodicidade as rodas de leitura acontecerão. Explique que, nesses encontros, além do empréstimo ou troca de livros, vão poder conversar sobre as leituras que realizaram em casa, recomendar (ou não) o livro que leram aos colegas. É possível ainda que cada aluno-leitor selecione um pequeno trecho para ler em voz alta, comentando as razões que o levaram a selecionar a passagem. Nessas rodas, os estudantes aprendem a compartilhar as experiências e reflexões que realizaram durante a leitura, ampliando a compreensão leitora e a expressão oral.

3. Se julgar oportuno, amplie o trabalho cotejando diferentes traduções ou adaptações de uma mesma obra, apreciando o estilo de cada tradutor ou adaptador. É possível ainda confrontar alguma passagem notável em português com a correspondente ao idioma do texto fonte, estabelecendo uma parceria com o professor de língua estrangeira.

4. Como muitos desses clássicos foram adaptados para quadrinhos, animação ou filme, comparar esses produtos com os livros sempre rende boas conversas. O cinema sempre promoveu o interesse pelas obras que foram transformadas em roteiros.

5. Durante a roda de leitura, crie uma ambiência sugestiva: reproduções de ilustrações das obras lidas; capas de livros; reproduções de marinhas, isso é, de pinturas que têm por tema a paisagem marítima ou assuntos marinhos; fotos etc.

*Publicado originalmente em Carta na Escola