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O matemático Julio Cesar de Mello e Souza, mais conhecido como Malba Tahan, dá palestra a educadores no Paraná em 1963
O matemático Julio Cesar de Mello e Souza, mais conhecido como Malba Tahan, dá palestra a educadores no Paraná em 1963

Você sabia que no dia 6 de maio se comemora o Dia da Matemática no Brasil? Isso porque é essa a data do nascimento de Julio Cesar de Mello e Souza. Esse educador brasileiro foi escritor de mais cem obras, quase a metade sobre Matemática, vendeu mais de 2 milhões de exemplares. Poucos, porém, conhecem seu nome verdadeiro, pois assinava como Malba Tahan. Surpreso novamente?


Leia atividade didática inspirada neste artigo
Anos do ciclo: 5° ao 6°
Expectativa de aprendizagem: Analisar, interpretar e resolver situações-problema a partir de narrativas, envolvendo diferentes operações

Atividade | O Homem Que Calculava

1) Apresente aos alunos a obra O Homem Que Calculava. Não comente ainda as façanhas do autor. Chame a atenção com relação à Dedicatória. Ao final do livro encontramos um conjunto interessante de apêndices, entre eles um belo comentário sobre seu significado religioso. Vale lembrar que, atualmente, o que é veiculado sobre a cultura árabe está muito associado a ações terroristas, discriminatórias e autoritárias. Para tratar esse tema com maior justiça, talvez um trabalho combinado com os professores das áreas de Português, História, Geografia e Religião seja bastante relevante.

2) Na página seguinte encontramos a “Nota do Tradutor”. Ela permite uma visão geral da construção da obra e, ademais, permitirá desfazer toda a fantasia que cerca o autor da mesma.

3) Achamos digno de nota o Capítulo 11 (pág.76), em que o “poeta” Beremiz inicia seu curso de Matemática à jovem Telassim, filha do xeque, com uma linda prece, que poderá ser lida pelo professor em sala após a apresentação do personagem central da obra, o que se dá nos dois primeiros capítulos.

4) Na sequência do trabalho pode se dar com a leitura diária de cada capítulo. Cada um deles é proposto em um contexto e um problema por vezes resolvido com bastante astúcia por Beremiz. Uma possibilidade de exploração do livro é um trabalho em duplas. Um aluno lê um capítulo e prepara o problema para o seu colega resolver. Na discussão, o aluno proponente vai dando algumas dicas, mesmo aquelas presentes na solução apresentada no livro, para que o colega chegue na solução. O importante nesse momento são as estratégias criadas pelos alunos na solução do problema, que podem, também, ser socializadas na sala.

5) Em alguns capítulos, como o problema do joalheiro (Capítulo 5), encontramos um par de soluções: do joalheiro e do calculista. O professor pode discutir e analisar com os alunos os argumentos presentes em cada solução, compará-los e decidir qual responde corretamente à pergunta. O professor observará que, em alguns capítulos, ele mesmo poderá oferecer o problema como desafio para os grupos. Destacamos os capítulos 17, 19, 23 e 32.

6) Chamamos a atenção para o Capítulo 15, em que Beremiz conta ao rei a história do jogo de xadrez. Contada de maneira cuidadosa, a lenda é uma oportunidade de trazer para sala de aula elementos sensíveis de cunho pessoal e social, entremeados por um belo problema matemático de pagamento de uma recompensa que descortina uma batalha ainda maior entre a arrogância e a ambição contra a simplicidade e a causa justa.

O uso de pseudônimo por Julio Cesar foi uma decisão imposta em sua trajetória como escritor e contista. Certa vez, como colaborador de um jornal, viu alguns de seus contos serem engavetados sem cerimônia. Imaginativo na resolução de problemas, Julio entregou seus mesmos contos à redação, dizendo que se tratava da tradução de um importante contista americano, de nome R. S. Slade. Com isso, seus contos figuraram em sucessivas edições, e nas primeiras páginas. A ideia pareceu-lhe razoável e resolveu adotá-la. Esse era um mundo possível, sem internet!

Tendo estudado por anos a língua e a cultura árabes, Julio estreia como Malba Tahan publicando no Jornal A Noite, de Irineu Marinho, seus Contos de Mil e Uma Noites. Não bastasse inventar as histórias e o autor árabes, ele ainda criou o professor Breno Alencar Bianco, responsável pelas notas e tradução.

Este ano, a Editora Record comemorou os 120 anos do nascimento de Julio Cesar publicando uma edição especial da sua mais famosa obra: O Homem Que Calculava. Se comemorar significa “compartilhar memórias”, nada mais oportuno do que lermos ou relermos essa magnífica obra de ficção que nos remete às aventuras matemáticas de Beremiz Samir, um personagem criado por um educador brasileiro que se propôs, entre outras coisas, narrar para encantar a aprendizagem da Matemática.

Em seu livro Conhecimento e Valor (Editora Moderna, 2004) o professor Nilson José Machado aponta que o cerne da ação docente, a finalidade da Educação em sentido lato, é a construção de significados. Para o autor, “o significado, em qualquer tema, sempre é construído por meio de uma história, de uma narrativa bem arquitetada. Nesse sentido, o professor eficiente será sempre um bom contador de histórias. Não são apenas as crianças que gostam de histórias: se a escola não as contam, os alunos mais velhos vão buscá-las em algum lugar, para justificar seus valores e articular seus pontos de vista, seja no cinema, seja nas novelas, seja nos relatos biográficos”.

Escolhendo a tradição de narrativas árabes Malba Tahan escreve tecendo considerações de cunho moral e espiritual, permitindo que o leitor construa e amplie os significados de sua própria vida.

O Homem Que Calculava, como fábula matemática, pode ser considerada uma obra de referência do projeto educacional do autor. Nela, conteúdo e didática da Matemática se misturam para agregar, a um conjunto de saberes, significados construídos e apoiados em contextos factuais do cotidiano e da história da Matemática e ficcionais, tão criativos quanto o modo de fazer Matemática.

Planejar uma aula, nessas referências, é construir narrativas pertinentes ao assunto a ser ensinado/aprendido. Ao construir essas narrativas, o próprio professor forma-se como bom contador de histórias, aprimora seu conhecimento, observa e imagina contextos e, em sua aula fabulosa, os alunos encontram os significados como uma possível moral da história.

*Roberto Perides Moisés é formado em Matemática pela PUC-SP, mestre em Educação pela FE-USP e professor do Ensino Médio e EJA do Colégio Santa Cruz