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Alex Vallauri
Obra do grafiteiro Alex Vallauri, publicada em Já Era, Jacaré

Quando entramos em uma livraria, os livros de arte estão em uma estante,  em prateleiras específicas ou vitrines, destacados como verdadeiras obras de arte. São, em geral, livros maravilhosos, em formato superior aos outros e com inúmeras reproduções que despertam o desejo de adquiri-los, como se fossem os objetos de desejo e consumo.


Leia atividade de Artes inspirada neste texto
Anos do Ciclo: Infantil ao 5 anos
Objetivos de aprendizagem: Apreciar produções e manifestações das artes visuais. Reconhecer semelhanças e diferenças entre os objetos culturais apreciados. Trocar impressões com outros colegas.

Tempo de Duração: 2 aulas por livro

Possibilidade interdisciplinar: História, Língua Portuguesa

1. Conheça o acervo de livros sobre arte da escola e prepare uma visita à biblioteca com seus alunos. Se a turma for muito grande, divida em dois grupos.

2. Deixe os alunos escolherem um livro e leve-os para a sala de aula. Como não há tempo para ler todos, faça com que escolham um por votação ou combine um sorteio.

3. Leia com os alunos o livro escolhido e a cada encontro de leitura amplie o conhecimento sobre o artista, levando outros materiais que tenham imagens das obras desse artista, do movimento artístico ou do tema apresentado no livro.

4. A partir desse encontro, poderão surgir inúmeras possibilidades de trabalho para as aulas de arte, incluindo a visita a um museu para encontrar a obra descoberta nas páginas dos livros.

Para os adultos, só as imagens podem ser pouco. É preciso compreender, é necessário saber e, então, um texto escrito por um especialista assegura o reconhecimento da obra, a autenticidade, como um valor seguro do que podemos admirar. São essas, porém, compilações indigestas do saber e não verdadeiramente um ponto de vista original sobre o assunto. Além disso, os produtos são caros, o que impede sua disseminação e reafirma o acesso à arte a poucos privilegiados.

Os livros de arte no Brasil são tão caros que se tornaram elemento de decoração exibido para ostentar o seu valor comercial e um suposto acesso à cultura – mesmo considerando que um bom livro de mesa de centro pode fazer milagres em mãos criativas!

Ainda que raro e pouco acessível, o livro de arte é essencial, pois possibilita o (re)encontro com as obras artísticas, 
revela emoções, revive lembranças, 
apresenta questões.

Mercado editorial

A boa notícia é que, apesar de todas as dificuldades encontradas na produção, publicação e distribuição de livros de arte para adultos, uma nova categoria desse gênero apareceu mais fortemente no mercado editorial a partir dos anos 1990: os livros de arte para crianças.

O mercado de livros de arte para adultos traça um paralelo com os livros infantojuvenis: os dois produtos estão marcados por falhas e lacunas semelhantes, decorrentes da falta de política editorial e cultural no País.

Se, historicamente, o livro de arte para adultos está muitos anos à frente e ainda assim a produção é insuficiente no mercado editorial brasileiro, o que poderíamos dizer das publicações de arte para crianças?

Muitos dos problemas das edições para adultos se repetem nas publicações para crianças, como o pequeno número de edições sobre artistas nacionais, compilações exaustivas e pouco originais.

Apesar das semelhanças, há também as diferenças. Esses livros diferem no conteúdo, na forma de apresentação, no aspecto visual e nas diversas abordagens dos textos. Sem dúvida, os livros infantis não devem ser versões simplificadas das obras para adultos, nem mais baratas nem com qualidade inferior.

Diante do aumento significativo na produção de livros de arte destinados ao público infantil e o espaço que eles vêm ocupando como recurso pedagógico no ensino de arte nas escolas, é importante nos aproximarmos dessas publicações.

É  fundamental refletirmos sobre as especificidades em relação às outras publicações, a propriedade dessas edições na introdução ao universo das artes visuais, os critérios de escolha das obras e artistas e a inserção dessas edições na instituição escolar com a finalidade de avaliarmos a sua efetiva contribuição no acesso da criança ao universo artístico.

Resta-nos conhecer, ler e avaliar esses livros, suas diferentes formas e sua função como objeto de intermediação entre a criança e a arte.

A primeira coleção destinada a apresentar as artes para os pequenos é Arte para Crianças, da editora Berlendis&Vertechia. Criada em 1980, a coleção apresenta vários artistas: Volpi, Tomie Ohtake, Carlos Scliar, Lasar Segall e Arcangelo Ianelli, entre outros, com textos de autores igualmente importantes e reconhecidos, como Ana Maria Machado, Fernando Sabino etc. As reproduções das obras são impecáveis, com qualidade exigida para a exibição de uma obra de arte e os textos ampliam a leitura das imagens, vão além de compilações de informações sobre a vida do artista.

Atualmente há editoras com ótimas iniciativas no que se refere à produção de livros de arte para o público infantil. São muitas as coleções que exibem artistas nacionais e internacionais, presentes nos catálogos das editoras, tais como Paulinas, Moderna, Cosac Naify, Panda Books e Olhares, entre outras.

A maioria, no entanto, apresenta os artistas renomados internacionalmente, a exemplo de Vincent van Gogh e Pablo Picasso. Esses dois artistas, por exemplo, estão em quase todas as coleções presentes no mercado por serem mais conhecidos e, portanto, mais facilmente comercializados.

No que se refere aos títulos nacionais, observa-se a predominância de artistas mais famosos e conhecidos no ambiente escolar, como Tarsila do Amaral. É notória a quantidade de títulos dedicados a essa importante artista brasileira em coleções ou em títulos individuais.

Além da escolha dos editores em publicar artistas reconhecidos, predominam títulos sobre pintores, em detrimento de linguagens como gravura, desenho, escultura, fotografia, e manifestações artísticas, como instalações, videoarte, grafite etc.

Há algumas exceções, como o livro Já Era, Jacaré – um Rolê pelo Graffiti (Olhares), que apresenta a obra do artista precursor do grafite no Brasil, Alex Vallauri. O livro é o único no mercado que mostra o grafite, tema de muito interesse das crianças e presente em seu universo visual.

Há no mercado também a série Conhecendo o Ateliê do Artista (Moderna), que une os artistas por meio da linguagem, mostrando aspectos da técnica por meio das obras realizadas, como desenho com nanquim, giz pastel seco, lápis de cor, gravura etc.

Outra iniciativa de apresentar obras que vão além da pintura é o livro que mostra uma das mais importantes escultoras do Brasil, Maria Martins, Coleção Olharte, publicada pelo MAC USP e Editora Paulinas, em 1997. Contemplado com o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantojuvenil – atualmente está fora de catálogo e só é encontrado em sebos, o que reforça a predominância no mercado dos artistas mais famosos em detrimento de outros tão importantes.

Uma coleção inovadora no que se refere à seleção dos artistas e que se propõe a ir além da pintura é Arte à Primeira Vista (Paulinas). A coleção conta com cinco volumes publicados: Lygia Clark, Frans Kracjberg, Leonilson, Regina Silveira e Mira Schendel, e tem como objetivo apresentar a arte contemporânea brasileira para as crianças.

O primeiro volume expõe a obra de Lygia Clark, uma artista que alterou os caminhos da arte contemporânea brasileira, propondo que o público participasse da criação dos trabalhos artísticos por meio de uma ação que os completam, como, por exemplo, os Bichos, esculturas móveis que podiam ser tocadas e transformadas pelo espectador.

Essa coleção apresenta os autores em uma linguagem atrelada à poética do artista, os textos não contam suas histórias, mas constroem a trajetória de sua produção por meio da combinação de um texto poético e um projeto gráfico que priorizam o conhecimento da obra.

Entre os títulos publicados podemos conhecer o trabalho de Regina Silveira, artista brasileira reconhecida internacionalmente por suas instalações em lugares específicos. Com a preocupação de apresentar uma instalação aos leitores, as autoras construíram um livro-objeto que, ao ser aberto, monta quatro espaços, como se fossem as maquetes da artista. Dessa maneira, as crianças poderão perceber o que é uma instalação. Há ainda um pequeno boneco que facilita a percepção da relação entre o tamanho do corpo e do espaço.

Outro segmento dentre essas inúmeras publicações são os livros temáticos. Por meio de um assunto ou gênero das artes visuais como autorretrato e paisagem, os autores reúnem obras de diferentes artistas e períodos, alinhavando essas imagens para contar uma história da arte que vai e vem no tempo, possibilitando aos leitores o contato com produções bastante diversas, mas com um viés temático que as une.

Dentro dessa proposta encontramos alguns títulos, como Para Comer com os Olhos e Futebol: Arte dos pés à cabeça (Panda Books), e Mesa de Artista, Espelho de Artista, Bichos de Artista (Cosac Naify).

São inúmeras as publicações e infinitas as possibilidades de encontro com a arte por meio dos livros encontrados nas prateleiras das bibliotecas, nas livrarias, nos sebos, abrindo as primeiras páginas de fruição estética.

Procure um livro que considere um objeto artístico e divida com os alunos o prazer de conhecer o que pode nos fazer ver o mundo com outros olhos: a arte. O livro nas mãos das crianças pode abrir os olhos de pequenos leitores, fazê-los enxergar o mundo de outra forma. As obras que nós mostramos, próximas ou distantes no tempo e no espaço, famosas ou pouco conhecidas, se tornarão familiares, farão parte de seu patrimônio, de seu imaginário, e deverão acompanhá-las até a sua idade adulta.

*Autora de livros de artes para crianças e educadora do MAM USP