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O Brasil tem uma riqueza de brinquedos artesanais proporcional à sua extensão territorial. Entretanto, dificilmente esse acervo lúdico chega ao alcance das escolas que, tradicionalmente, optam por brinquedos industrializados quase com exclusividade.


Somos herdeiros de um verdadeiro tesouro nacional de brinquedos artesanais que não frequentam as instituições de educação: brinquedos de miriti, mamulengos,  brinquedos de lata, de folha de flandres, panelinhas de barro, bolas de borracha da Região Amazônica, bichinhos de balata (resina vegetal), bonecas de pano,  petecas de palha ou buriti, as mais variadas engenhocas feitas por muitos artesãos, e outros tantos brinquedos artesanais, peças em extinção em muitas escolas brasileiras.

Se a escola é lugar de aprofundamento da cultura, por que não ampliar a oportunidade de brincar com brinquedos de norte a sul do País, com sua diversidade de materiais, texturas, cores, cheiros e a especial qualidade de trazer fortemente marcas de quem os produziu?

Parece urgente arejar a discussão de um currículo para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental que considere o brincar em sua diversidade e riqueza de propostas, interação, espaço e recursos lúdicos. Para isso é preciso também cuidar do acervo lúdico disponível, afinal o brinquedo é pretexto para a brincadeira acontecer – elo entre crianças que se reúnem em torno dele.

Uma criança que brinca com mamulengos que representam a bernúncia ou uma burrica de carnaval brinca não só com o objeto que tem em mãos, mas com a história que ele carrega, com os valores culturais que estão nesse brinquedo. Da mesma forma, quando uma criança de centro urbano tem a oportunidade de brincar com um forno de barro miniatura que até esquenta comida de verdade, tem a oportunidade de conhecer mais sobre a diversidade de costumes de seu próprio país.

O brinquedo artesanal ainda tem um diferencial importante que é a transparência do processo de construção. Ao explorar o brinquedo, a criança percebe a engrenagem feita com sistema de correias de câmera de pneu que faz a roda-gigante girar, repara que o mamulengo é feito usando cabaça, papel machê e pano de chita, descobre o mecanismo que faz o ratinho feito com colagem de papel sobre papel (técnica de papietagem) funciona usando um curioso mecanismo de carretel de argila com linha, tensionado por elástico. Enfim, o brinquedo artesanal tem esse talento de ser generoso em socializar como ele é feito, favorecendo, portanto, a criança a se aventurar na construção de seus próprios brinquedos.

O convite do brinquedo artesanal à criação é intenso, diferente do brinquedo industrial que necessita de alta tecnologia e máquinas que não estão à disposição de uma criança para construí-lo. Neste sentido, o brinquedo artesanal potencializa a capacidade de pensar, sentir e agir.

Outro ponto importante do brinquedo artesanal é a qualidade diversa de sua matéria: madeira, folha de flandres, pano, fibras naturais, bucha, couro, sabugo de milho, sementes etc. Com tanta variedade por que ficar só nos brinquedos plásticos? Ao optar por um único material para oferecer à sensibilidade infantil, acabamos massificando a brincadeira. É preciso buscar brinquedos que surpreendam, que toquem a sensibilidade da criança sob muitos aspectos.

Da mesma forma que um bom leitor lê bons livros, um bom brincante conhece boas brincadeiras, jogos e brinquedos. É preciso refletir sobre a escolha do acervo lúdico e propostas de criação de brinquedos pelas crianças, considerando o seu potencial cultural, educativo e relacional.

Algumas escolas têm certa restrição ao brinquedo artesanal por não considerarem tão resistentes como os brinquedos plásticos inquebráveis, à prova de força bruta. Acontece que a delicadeza e aparente fragilidade do brinquedo artesanal é fortaleza, é qualidade de invencionice. Ao brincar com um conjunto de panelinhas de barro, as crianças precisam estabelecer uma relação diferente de cuidado com o brinquedo que de fato quebra ao cair no chão. Essa sensibilidade fina de que alguns objetos precisam de uma atenção especial, de uma ação delicada, não deveria ser deixada de fora da escola. E quando, por ventura, o brinquedo se quebra pode ser pretexto para aprender como ele é feito, repará-lo ou reconstruí-lo.

Se considerarmos que o brincar é uma experiência sensível e a sensibilidade nasce das nuances e sutilezas da vida, faz toda a diferença para o refinamento da sensibilidade termos brinquedos com características diferentes: plástico, pano, madeira, papelão, alumínio, porcelana, fibra natural, palha, bambu, lã, elementos da natureza etc. E sobretudo que tais brinquedos sejam modelos que inspirem a criação.

Além do convite à brincadeira, os brinquedos artesanais são um convite ao enriquecimento da experiência perceptiva e sensitiva da criança, como é o caso do brinquedo aqui retratado (acima): delicadas mobílias artesanais em miniatura com estrutura de arame galvanizado encapadas e preenchidas com fios de lã colorida.

Inspirando-se nas mobílias em miniatura, podemos propor que as crianças confeccionem seu mobiliário com diferentes materiais (caixas pequenas de papelão, embalagens, tocos de madeira). Ou então que possam buscar estruturas de galhos de árvore que se bifurcam, forquilhas para fazerem amarrações com fios de lã, juntando vários deles para compor uma cabana de bonecos.

Se olharmos atentamente um grupo de crianças, veremos que elas estão o tempo todo inventando brinquedos. Cabe a nós, educadores, valorizar esses gestos criativos e dar condições de ampliá-los, seja disponibilizando materiais, seja compartilhando saberes e possibilitando que os diversos informantes da cultura lúdica – artesãos, adultos, crianças – possam se unir para incrementar essa cultura de inventar os próprios brinquedos de forma artesanal.

Publicado originalmente em Carta Fundamental