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Pássaros fantoches

Inspirando-se no texto de Alfredo Bosi, Os Trabalhos da Mão, publicado em O Ser e o Tempo da Poesia e que trata poeticamente da multiplicidade de usos criativos feito pelo animal simbólico de uma só parte de seu organismo, poderíamos relacionar uma lista divertida de brincadeiras expressivas com as mãos: modelagem, teatro de sombras, de fantoches, brincadeiras de palmas, figuras de barbante e toda gama de brinquedos que só são possíveis graças à habilidade manual.

Leia também: O livro de arte 
para crianças

Como tocar instrumentos musicais, jogar pião, 5 marias, bola de gude, empinar pipa, construir castelos e tantos e tão diversos brinquedos existentes improvisados no dia a dia.


A habilidade das mãos, somada à capacidade imaginativa e expressiva, levou a humanidade a construir todas as ferramentas existentes no mundo. A criança, portanto, quando brinca, inaugura o mundo no gesto de suas mãos miúdas, de seu olhar atento, de sua mente curiosa e de sua sensibilidade à flor da pele. Faz sucessivas revoluções internas, transformando seu entendimento do mundo, refinando sua sensibilidade e ainda fortalecendo os vínculos com quem se relaciona.


Leia atividade didática de Artes inspirada neste texto
Anos do Ciclo: Infantil ao 3°
Possibilidade interdisciplinar: Língua Portuguesa
Duração: 10 aulas
Objetivos de aprendizagem: Apreciar produções e manifestações das artes visuais. Criar objetos culturais visuais e improvisar cenas teatrais a partir de estímulos variados.

Criar bonecos, tendo como matéria-prima as próprias mãos e luvas, para dar corpo a diferentes personagens. Um verdadeiro jogo de imaginação e expressividade das mãos, inspirado na obra do artista italiano Mario Mariotti e do milenar teatro de sombras.

1 – Leve livros e/ou imagens retiradas da internet de teatros de sombra feito com as mãos, bem como imagens da arte das mãos de Mario Mariotti, para que as crianças possam interagir com tais informações e trocar também o seu próprio repertório de brincadeiras que fazem com as mãos.

2 – Convide as crianças a contornar suas mãos em papel ou no chão, depois transformando os contornos em personagens. Podem ser convidadas a mudar a posição dos dedos para realizar os contornos e novas criações de personagens como sugeridos no livro Arte nas Mãos.

3 – Ofereça tinta guache, lápis de cor ou pintura própria para o corpo para que possam transformar as mãos em animais, pessoas e seres, tal como faz Mariotti. Repita a proposta diversas vezes para que aprimorem nas criações e inventem seres imaginários e outros tantos personagens. Podendo, vez ou outra, acrescente fios, palitos, botões, retalhos de tecido para dar ainda mais expressão a seus personagens.

4 – Dê espaço para os alunos brincarem muito de fazer teatros e conversar com os personagens criados. Podem fotografar as mãos, escanear e montar histórias com elas também.

5 – Assista pequenos trechos do artista Mario Mariotti na internet e veja novas fotos de suas criações. Compare com a que fizeram os alunos e, inspirados no artista, crie o próprio livro da turma com os personagens-mãos.

6 – Transforme luvas brancas (encontradas facilmente em lojas de construção) ou mesmo luvas de borracha em fantoches, pintando com tinta guache ou de tecido, caneta hidrocor ou de tecido, ou ainda caneta retroprojetor. Monte depois um teatro de fantoches para brincar com os enredos criados para os personagens.

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– Brincar de teatro de sombras, usando os conhecimentos de transformar as sombras em diversos animais e personagens com as mãos. As crianças podem, inclusive, recontar, por meio de teatro de sombras histórias já conhecidas. Lembre-se de deixar na sala um painel com as dicas de posicionamento das mãos para criar diferentes animais e seres.

Quanto mais puder brincar com qualidade, maior a sua capacidade de se relacionar com o mundo, mais apurada sua sensibilidade. Não à toa, a escola deve valorizar os gestos criativos infantis e dar condições de ampliá-los. É justo que se estabeleça um diálogo lúdico entre o frescor do desejo intenso da criança de brincar com a disponibilidade do adulto-professor para estar atento às brincadeiras da humanidade, da criança e à sua própria.

É bastante simples partir dos interesses das crianças para ampliar suas brincadeiras. Basta estar em sintonia com a vivacidade da ação da criança que brinca e encontrar na cultura e nos próprios recursos lúdicos elementos para se aprofundar na brincadeira. E já que o assunto do artigo são as mãos e a imaginação, vamos nos lembrar de nossas próprias brincadeiras e das crianças que convivemos.

Quem nunca se flagrou usando as mãos como personagens, ora fazendo os dedos médio e indicador andarem como pernas, ora usando estes mesmos dedos para fazer carinhas e transformá-los em personagens, ou então usando as duas mãos para criar personagens para o teatro de sombras na parede. E quando se tem a oportunidade de usar tinta, quem não se atreveu a pintar a mão toda?

Alguns adultos e artistas parecem estar muito em sintonia com o mundo infantil, como é o caso do artista italiano Mario Mariotti (1936-1997), célebre por criar um modo brincalhão de fazer arte pintando as próprias mãos para criar expressivas figuras humanas e de animais capazes de fazer a imaginação brincar a valer.

Pavão mãos

Seus vários livros, dentre eles os premiados Animani, estão repletos de imagens que nos tiram do senso comum, nos convidam a imaginação e por que não dizer à própria ação criativa, afinal o artista nos desafia num convite escrito em seu livro Umani: “Mais vale experimentar pintar corajosamente um dedo do que utilizar este mesmo dedo para folhear as páginas de todos os Animani e Umani em conjunto”.

Não recusemos o expressivo convite! Vamos ter a coragem de brincar ao invés de só observar quem expressa a brincadeira pelas mãos! E assim estar a altura para propor às crianças que criem mãos de fadas, de bichos, monstros e tantos seres fantásticos. Podemos ainda convidá-las a pintar luvas transformando-as em verdadeiros fantoches de sua imaginação.

Nunca é demais lembrar que o valor do brincar está na capacidade de povoar a imaginação, de instigar o ato criativo, expressivo  e autônomo e ainda em  aprofundar os vínculos que se estabelece com quem se brinca.

Os Trabalhos da Mão, por Alfredo Bosi
“Parece ser próprio do animal simbólico valer-se de uma só parte do seu organismo para exercer funções diversíssimas. 
A mão sirva de exemplo.

A mão arranca da terra a raiz
e a erva, colhe da árvore o fruto, descasca-o, leva-o à boca. A mão apanha o objeto, remove-o, achega-o ao corpo, lança-o de si. A mão puxa e empurra, junta e espalha, arrocha e afrouxa, contrai e distende, enrola e desenrola; roça, toca, apalpa, acaricia, belisca, unha, aperta, esbofeteia, esmurra; depois, massageia o músculo dorido.

A mão tateia com as pontas dos dedos, apalpa e calca com a polpa, raspa, arranha, escarva, escarifica e escarafuncha com as unhas. Com o nó dos dedos, bate. A mão abre a ferida e a pensa. Eriça o pelo e o alisa. Entrança e destrança o cabelo. Enruga e desenruga o papel 
e o pano. Unge e esconjura, asperge e exorciza…

Mas seria um nunca acabar dizer tudo quanto a mão consegue fazer quando a prolongam e potenciam os instrumentos 
que o engenho humano foi inventando na sua contradança de precisões e desejos…

Trecho reproduzido do livro 
O Ser e o Tempo da Poesia, 
de Alfredo Bosi (Companhia 
das Letras)