COMPARTILHE
Praia do Sancho

Quem quiser conhecer o litoral brasileiro tem mais de 8 mil quilômetros de costa para explorar. Esses espaços, na interface entre o continente e o oceano, foram moldados ao longo da história geológica da Terra.


História que remonta há 200 milhões de anos, durante a separação do supercontinente Gondwana, que afastou a América do Sul da África e provocou a abertura do Oceano Atlântico. Milhões de anos depois, as flutuações do nível do mar dos últimos 100 mil anos tiveram papel importante na evolução das planícies costeiras.


Leia atividade didática de Geografia inspirada neste texto
Anos do Ciclo: 8° e 9°
Área: Geografia
Duração: 5 a 8 aulas
Objetivos de aprendizagem: Utilizar mapas resultantes das mais diferentes tecnologias e empregar a linguagem cartográfica para obter informações a respeito das principais formas de relevo do litoral brasileiro


1) Formas de relevo

Antes de levar os alunos para a sala de informática, faça uma explanação sobre as principais formas de relevo do litoral brasileiro. Ressalte os processos de erosão e deposição e seus agentes condicionantes. Em seguida, destaque as formas que são facilmente observadas nas imagens de satélite, como as praias arenosas, as restingas, os campos de dunas etc. Caso sua região seja litorânea, apresente essas características aos alunos.

2) Imagens de satélite
Na sala de informática, forme grupos de três alunos por computador. Abra o programa Google Earth e mostre aos alunos que no canto superior direito da tela é possível mover o Norte para cima ou para baixo. Em seguida, fixe o Norte para cima e, visualizando o Brasil em seu conjunto, aponte o aspecto retilíneo do litoral. Depois, amplie o zoom e explore as imagens em âmbito regional. Mostre que nessa escala de observação é possível ver as baías e demais reentrâncias do litoral, como por exemplo, a Baía de Todos os Santos, em Salvador, a da Guanabara, no Rio de Janeiro, a de Paranaguá, no Paraná e o litoral recortado do Maranhão.

3) Areias brancas
Por fim, destaque algumas feições litorâneas que foram abordadas neste artigo. A observação da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, possibilita a visualização das restingas e do sistema lagunar. Já os campos de dunas dos Lençóis Maranhenses permitem inferir a direção dos ventos a partir da observação das formas das dunas.

Em uma escala de tempo mais recente, a dinâmica desses espaços naturais é determinada por mecanismos que agem continuamente e são condicionados por elementos climáticos, oceanográficos e geomorfológicos.

As ondas geradas pela ação dos ventos, as tempestades, o regime de marés e as correntes modelam as feições dos litorais. De modo geral, o vai e vem das águas erode e deposita. A energia das águas e a consequente movimentação dos sedimentos geram os processos de erosão e acumulação que remodelam constantemente os litorais.

Esses elementos serviram de base para a conhecida compartimentação do litoral brasileiro de J. D. Silveira, publicada no livro Brasil: A Terra e o Homem, de Aroldo de Azevedo, em 1964. Apesar de clássica, essa divisão continua difundida nos meios científicos e escolares, por possuir limites relativamente claros e por ter pedagogia que permite apresentar, mesmo resumidamente, as principais feições do litoral brasileiro.

Isso não significa que elas sejam exclusivas de determinada porção da costa. Na natureza nenhum limite é rígido e estanque. Sempre que houver condições favoráveis para a ocorrência de um elemento da paisagem, haverá seu desenvolvimento. Como acontece, por exemplo, com os manguezais que estão presentes do litoral do Amapá até Santa Catarina.

Parati

Segundo essa compartimentação, o litoral brasileiro foi dividido em cinco grandes regiões.

O litoral da porção Amazônica, do norte do Amapá até o Golfão Maranhense, sofre influência do aporte de sedimentos trazidos pelos rios caudalosos, sobretudo o Amazonas. Com isso, formam-se extensas planícies costeiras recobertas de sedimentos finos e lamacentos.

Esse ambiente favorece o desenvolvimento de manguezais que são compostos de árvores dos gêneros Rhizophora, Avicennia e Laguncularia, adaptadas à salinidade e às regulares inundações pelas marés. Possuem importante papel ecológico, pois servem de área de reprodução, berçário e abrigo para inúmeras espécies de crustáceos, peixes, moluscos e aves marinhas.

A região do litoral nordestino, da foz do Rio Parnaíba até Salvador, na Bahia, possui como característica marcante o relevo tabular. Os tabuleiros possuem topos planos e elevados situados próximos às planícies costeiras. Foram moldados nas rochas sedimentares da Formação Barreiras, compostas de areias de origem fluvial e marinha, pouco consolidadas e de cores variadas.

Essa formação é precedida pelos campos de dunas, alimentados por sedimentos provenientes da plataforma continental. São também frequentes os arenitos de praia, ou beach rocks. Essas rochas sedimentares são originadas pela cimentação dos grãos de areia, favorecida pela temperatura alta e consequente evaporação da água do mar. Formam recifes alongados e alinhados paralelamente à linha de costa.

A porção do litoral chamada Região Oriental situa-se entre Salvador e Cabo Frio, no Rio de Janeiro. É um segmento de transição por apresentar a mistura de elementos do litoral nordestino, como a presença do relevo associado à Formação Barreiras e de arenitos de praia, com os afloramentos do embasamento cristalino, uma característica do litoral sudeste. Apesar disso, têm uma característica única os recifes de corais do Arquipélago dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia.

São únicos porque apresentam espécies de corais endêmicas. Ao contrário das espécies existentes em recifes de outros mares tropicais, em Abrolhos as espécies se adaptaram às águas turvas, típicas da costa brasileira. A forma de cogumelo desses recifes, chamada de “chapeirão”, é outra especificidade.

O litoral sudeste, setorizado entre Cabo Frio e Cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, é forjado pela presença da Serra do Mar. Geomorfologicamente, a Serra do Mar é formada por um conjunto de planaltos situados paralelos à linha de costa, com altitudes de mil metros, chegando a 2 mil metros no Planalto da Bocaina.

É justamente essa distância, entre as escarpas da serra e a linha de costa, que traz particularidade à paisagem. Nos setores onde a distância é reduzida e as planícies costeiras são pequenas, as ilhas e os afloramentos rochosos são frequentes.

Nessas localidades, a ocorrência de chuvas orográficas – quando a massa de ar úmida encontra uma barreira topográfica, como a Serra do Mar – aumenta o escoamento superficial, o que pode causar escorregamentos de encostas, movimentos de massa e até mesmo grandes catástrofes. Nos setores em que a distância entre as escarpas e a linha de costa é maior, as planícies costeiras são mais extensas e ocorre a retilinização do litoral.

Por fim, a região sul do litoral brasileiro vai do Cabo de Santa Marta até Chuí, no Rio Grande do Sul. De modo geral, esse setor tem linha de costa retilínea com praias arenosas e extensas. A paisagem transforma-se em Torres (RS), onde existem falésias rochosas.

Nessa região, os sistemas lagunares são bem desenvolvidos. Neles, as restingas, ou cordões litorâneos, têm papel fundamental. Apoiadas em saliências litorâneas ou em cabos, as restingas são formadas por faixas arenosas que são depositadas paralelas à praia. Assim, separam do mar uma quantidade de água que se transforma em lagoas litorâneas. São sistemas complexos e de grande importância ecológica. A Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, é um exemplo grandioso.

Andrea Panizza é doutora em Geografia pela Universidade de São Paulo