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Os índios possuem um grande conhecimento da natureza. Também são ótimos observadores e, por isso, chamam a caatinga de “mata branca”, pois na estação seca as plantas perdem folhas e os troncos das árvores ficam brancos e brilhosos. As plantas desfolhadas e a presença de cactos revelam uma vegetação xerófila, capaz de reter a água e resistir à seca. Essa aparência contrasta com o exuberante verde das florestas tropicais brasileiras, mas não significa menor importância em termos de biodiversidade. Pesquisas científicas têm evidenciado seu caráter único com a descoberta de novas espécies e de endemismos até então desconhecidos.


O bioma caatinga recobre as regiões de clima semiárido do Nordeste e algumas áreas de Minas Gerais às margens do Rio São Francisco. Seus vizinhos são o Cerrado, a oeste, e a Mata Atlântica, a leste. Estima-se que sua área original tenha ocupado 826.411 quilômetros quadrados, o que equivalia a quase 10% do território nacional. O monitoramento feito com imagens de satélite pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) mostra que a ocupação e a intervenção humanas vêm reduzindo esse bioma. Dados de 2009 indicam que restam apenas 441.117 quilômetros quadrados de vegetação nativa, ou seja, somente 53,4% de sua área original.

Como em outros biomas brasileiros, a caatinga também é constituída de mosaicos de formações vegetais que se desenvolvem em diversos ambientes, relevos, solos e condições climáticas e que afetam o regime dos rios. O Sertão é um espaço semiárido que contrasta com o restante do País, dominado por climas úmidos. Trata-se de um regime quente, seco e de forte sazonalidade definido por caraterísticas extremas de baixa precipitação, baixa nebulosidade, baixa taxa de umidade relativa e alta temperatura média anual, que varia entre 26 e 28 graus e, somada à constante luz solar, causa secura. A forte incidência de energia solar também contribui para as elevadas taxas de evapotranspiração de rios, represas, açudes e solos, causando significativa perda hídrica que afeta a biota e os habitantes da região.

As chuvas são escassas e irregularmente distribuídas durante o ano. Geralmente, concentram-se em três meses consecutivos, o que ocasiona longos períodos de estiagem. A média anual de precipitação em algumas regiões da caatinga é inferior a 750 milímetros. Em certas áreas é ainda menor, chegando a 500 milímetros por ano, típico de clima seco. A duração da estação seca varia bastante e depende das características físicas e da localização. Assim, em lugares mais secos a estiagem dura de 10 a 11 meses, enquanto na maior parte da região perdura de seis a nove meses. Já nos brejos úmidos, não ultrapassa dois a três meses. A maioria dos rios que atravessam o Sertão é temporária, isto é, seca durante o período de estiagem. A exceção é o Rio São Francisco, que tem origem nas regiões chuvosas.

A vegetação desenvolveu adaptações fisiológicas. Possui revestimento dos tecidos, o que diminui a perda de água pela transpiração. As folhas são grossas, coriáceas e pilosas, algumas miúdas e outras com forma de espinhos. As florestas arbóreas ou arbustivas são secas, abertas e decíduas, isto é, perdem as folhas durante a estação seca. Algumas espécies são perenifólias, a exemplo de palmeiras como a carnaúba (Copernica prunifera) e do juazeiro (Ziziphus joazeiro), cujas raízes longas são capazes de retirar água do subsolo.

A presença de cactáceas é uma característica marcante, sendo comuns o mandacaru (Cereus jamacaru), a coroa-de-frade (Melacactus bahiensis), o xique-xique (Pilocereus gounellei) e a palma forrageira (Opuntia ficus-indica). Esta é usada, após a queima de seus espinhos, para alimentar o gado. A Caatinga possui também uma camada herbácea efêmera com plantas dominantes que passam a estação seca na forma de sementes.

Embora o bioma seja ainda insuficientemente estudado e tenha inventários incompletos, sabe-se que a região é rica em biodiversidade e em endemismo. Das plantas catalogadas, quase 41% são endêmicas.

Quanto à fauna, 15% dos anfíbios e répteis, 13% das subespécies de aves, 4% das aves e 7% dos mamíferos conhecidos desse bioma também são endêmicos, ou seja, só existem nesse lugar do mundo. Muitos estão em perigo de extinção, como as aves arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) e soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni). Também o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), que foi escolhido como mascote da Copa do Mundo de 2014, encontra-se vulnerável à extinção. Conhecendo melhor a Caatinga, a ciência conseguiu revogar a ideia de uma região natural homogênea e pouco diversa.

A importância desse bioma não se mede somente pela biodiversidade: é também um patrimônio cultural com vestígios do homem pré-histórico. A principal ameaça à Caatinga é o desmatamento. Quase 46% da vegetação natural já foi suprimida, e cientistas alertam para a dificuldade de encontrar fragmentos nativos superiores a 10 mil hectares. Além disso, são poucas as unidades de conservação – somente 1% do bioma é unidade de proteção integral e pouco mais de 6% são unidades de uso sustentável, menos restritivas.

Outra grande ameaça é a desertificação resultante das variações climáticas e da degradação dos recursos naturais. Atividades humanas, como o corte da vegetação nativa para a produção de carvão e lenha e o pastoreio intenso, aumentam a degradação. Esse processo gera o surgimento de paisagens desérticas, a perda da biodiversidade, o esgotamento dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos e o aumento dos processos erosivos. Tanto os cientistas como a Organização das Nações Unidas (ONU) alertam para o problema. Do ponto de vista social, eles geram perda da capacidade produtiva das populações sertanejas, tornando-as ainda mais vulneráveis e intensificando a migração rumo aos centros urbanos.

A questão da seca no Semiárido brasileiro está ligada à irregularidade das precipitações, caracterizada por avanço ou atraso das chuvas ou por anos seguidos de seca. A incompatibilidade entre o ritmo das chuvas e o ciclo vegetativo impede a prática convencional da agricultura e da pecuá-
ria e afeta também a agricultura de subsistência, amplamente difundida.

Desde a segunda metade do século XIX, inúmeras políticas públicas foram propostas para amenizar os efeitos da seca. Muitas vezes, as ações foram questionadas pela ineficiência, pelo clientelismo ou pela degradação ambiental decorrente. As construções de açudes e de adutoras são exemplos de obras que, de certa forma, amenizam a falta de água nas escalas local e regional. Atualmente, a preparação de cisternas para captação da água das chuvas nas áreas rurais tem-se mostrado mais adequadas às realidades locais.