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Trabalhadores escravos têm condições de trabalho muitas vezes precárias

O trabalho escravo ainda é uma violação de direitos humanos que persiste no Brasil. A sua existência foi assumida pelo governo federal perante o país e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 1995, o que fez com que se tornasse uma das primeiras nações do mundo a reconhecer oficialmente a escravidão contemporânea em seu território. Daquele ano até 2016, mais de 50 mil trabalhadores foram libertados de situações análogas a de escravidão em atividades econômicas nas zonas rural e urbana.


Mas o que é trabalho escravo contemporâneo? O trabalho escravo não é somente uma violação trabalhista, tampouco se trata daquela escravidão dos períodos colonial e imperial do Brasil. Essa violação de direitos humanos não prende mais o indivíduo a correntes, mas compreende outros mecanismos, que acometem a dignidade e a liberdade do trabalhador e o mantêm submisso a uma situação extrema de exploração.

Confira sugestão de atividade de Artes relacionada ao tema:

Anos do ciclo: 8º a 9º anos do Ensino Fundamental II, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos

Áreas Envolvidas: Geografia, História, Língua Portuguesa e Sociologia

Tempo de Duração: 5 a 8 aulas

Objetivos de aprendizagem:

– Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.

– Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades.

– Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades.

– Identificar estratégias que promovam formas de inclusão social.

Construa o “ciclo do trabalho escravo”, um recurso lúdico que representa o percurso enfrentado pelos trabalhadores escravizados. Ao fim, apresente a definição conceitual do crime de trabalho escravo contemporâneo.

1. Faça três questões provocadoras: (i) Existe trabalho escravo hoje?; (ii) Quais são suas características?; (iii) Quem é o trabalhador escravizado?. Transcreva os elementos apresentados pela turma na lousa. A ideia é estimular a participação dos alunos e sistematizar os conhecimentos que já possuem sobre o tema, mesmo que as informações sejam imprecisas.

2. Afixe na parede as tarjetas do ciclo do trabalho escravo, na seguinte ordem: vulnerabilidade socioeconômica, aliciamento, migração, trabalho escravo, fuga, denúncia, fiscalização, libertação e linhas de combate ao trabalho escravo.

A cada tarjeta colada, forneça informações gerais sobre a etapa específica em questão e apresente a relação entre as demais. Para ter a dimensão de como o ciclo deve ficar, veja a imagem abaixo. (Como subsídio, consulte o fascículo Ciclo do Trabalho Escravo).

3. Ao término da montagem, aprofunde os comentários sobre a tarjeta “trabalho escravo”. Leia o artigo 149 do Código Penal que define trabalho escravo como um crime, destaque suas principais características e ressalte que ele não pode ser confundido com a simples ocorrência de irregularidades trabalhistas (como subsídio, confira o primeiro capítulo do livro digital ENP!). Com base nessa exposição, destaque e, se necessário, corrija aspectos sobre o conceito apresentados pela turma no começo da aula.

4. Para sintetizar a discussão, exiba o vídeo de facilitação gráfica Ciclo do Trabalho Escravo. Os alunos podem aprofundar o conhecimento de forma divertida, utilizando o jogo digital Escravo, nem pensar!, que reproduz o eixo narrativo desse exercício.

O trabalho escravo é um crime, previsto no artigo 149 do Código Penal brasileiro, como constatamos a seguir:

Art. 149: Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:        
Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência.

§ 1º Nas mesmas penas incorre quem:

I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;   
II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.

§ 2º A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido:

I – contra criança ou adolescente;
II – por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.

Qualquer um dos quatro elementos abaixo é suficiente para configurar uma situação de trabalho escravo:

  • TRABALHO FORÇADO: o indivíduo é obrigado a se submeter a condições de trabalho em que é explorado, sem possibilidade de deixar o local seja por causa de dívidas, seja por ameaça e violências física ou psicológica.
  • JORNADA EXAUSTIVA: expediente penoso que vai além de horas extras e coloca em risco a integridade física do trabalhador, já que o intervalo entre as jornadas é insuficiente para a reposição de energia. Há casos em que o descanso semanal não é respeitado. Assim, o trabalhador também fica impedido de manter vida social e familiar.
  • SERVIDÃO POR DÍVIDA: fabricação de dívidas ilegais referentes a gastos com transporte, alimentação, aluguel e ferramentas de trabalho. Esses itens são cobrados de forma abusiva e descontados do salário do trabalhador, que permanece sempre devendo ao empregador.
  • CONDIÇÕES DEGRADANTES: um conjunto de elementos irregulares que caracterizam a precariedade do trabalho e das condições de vida sob a qual o trabalhador é submetido, atentando contra a sua dignidade, como descrito no diagrama a seguir.
TRABALHO ESCRAVO CONTEMPORÂNEO
Anulação da Dignidade E/OU Privação da Liberdade
Alojamento precário Dívida ilegal/servidão por dívida
Falta de assistência médica Isolamento geográfico
Péssima alimentação Retenção de documentos
Falta de saneamento básico e de higiene Retenção de salário
Maus tratos e violência Maus tratos e violência
Ameaças físicas e psicológicas Ameaças físicas e psicológica
Jornada exaustiva Encarceramento e trabalho forçado

* Baseado no Manual de Combate ao Trabalho em Condições Análogas às de Escravo publicado pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social Acesse: http://goo.gl/TaUkSz

Quem é o trabalhador escravo? Em geral, são migrantes que deixaram suas casas em busca de melhores condições de vida e de sustento para as suas famílias. Saem de suas cidades atraídos por falsas promessas de aliciadores ou migram forçadamente por uma série de motivos, que pode incluir a falta de opção econômica, guerras e até perseguições políticas. No Brasil, os trabalhadores proveem de diversos estados das regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, mas também podem ser migrantes internacionais de países latino-americanos – como a Bolívia, Paraguai e Peru –, africanos, além do Haiti e do Oriente Médio. Essas pessoas podem se destinar à região de expansão agrícola ou aos centros urbanos à procura de oportunidades de trabalho.

Tradicionalmente, o trabalho escravo é empregado em atividades econômicas na zona rural, como a pecuária, a produção de carvão e os cultivos de cana-de-açúcar, soja e algodão. Nos últimos anos, essa situação também é verificada em centros urbanos, principalmente na construção civil e na confecção têxtil.

No Brasil, 95% das pessoas submetidas ao trabalho escravo rural são homens. Em geral, as atividades para as quais esse tipo de mão-de-obra é utilizado exigem força física, por isso os aliciadores buscam principalmente homens e jovens. Os dados oficiais do Programa Seguro-Desemprego de 2003 a 2014 indicam que, entre os trabalhadores libertados, 72,1% são analfabetos ou não concluíram o quinto ano do Ensino Fundamental.

Produção de cana-de-açúcar é atrelada à intensa exploração de trabalhadores (Foto: VERENA GLASS/ REPÓRTER BRASIL)
Produção de cana-de-açúcar é atrelada à intensa exploração
de trabalhadores (Foto: VERENA GLASS/ REPÓRTER BRASIL)

Muitas vezes, o trabalhador submetido ao trabalho escravo consegue fugir da situação de exploração, colocando a sua vida em risco. Quando tem sucesso em sua empreitada, recorre a órgãos governamentais ou organizações da sociedade civil para denunciar a violação que sofreu. Diante disso, o governo brasileiro tem centrado seus esforços para o combate desse crime, especialmente na fiscalização de propriedades e na repressão por meio da punição administrativa e econômica de empregadores flagrados utilizando mão-de-obra escrava.

Enquanto isso, o trabalhador libertado tende a retornar a sua cidade de origem, onde as condições que o levaram a migrar permanecem as mesmas. Diante dessa situação, o indivíduo pode novamente ser aliciado para outro trabalho em que será explorado, perpetuando uma dinâmica que chamamos de “Ciclo do Trabalho Escravo”.

Para que esse ciclo vicioso seja rompido, são necessárias ações que incidam na vida do trabalhador para além do âmbito da repressão do crime. Por isso, a erradicação do problema passa também pela adoção de políticas públicas de assistência à vítima e prevenção para reverter a situação de pobreza e de vulnerabilidade de comunidades. Dentre essas políticas, estão as ações formativas no âmbito da educação, como aquelas propostas pelo programa Escravo, nem pensar!.

 

* Natalia Suzuki é jornalista, mestre em Ciência Política pela FFLCH-USP e coordenadora do programa Escravo, nem Pensar!, programa de educação para prevenção do trabalho escravo da ONG Repórter Brasil

* Thiago Casteli é historiador pela USP e coordenador assistente do programa Escravo, nem pensar!