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A canonização de José de Anchieta (1534-1597) atendeu às expectativas dos devotos brasileiros que, desde 3 de abril de 2014, podem oficialmente chamá-lo de santo. A devoção a São José de Anchieta dura mais de 400 anos, como atestam não só as narrativas de milagres e testemunhos de graças atendidas por sua intercessão, contados de geração em geração, como também as orações com pedidos divulgadas na internet.


Mas a presença de Anchieta no imaginário popular não foi o principal para a canonização, apesar de ter sido considerada. Francisco, o primeiro papa jesuíta e latino-americano, assinou o decreto levando em conta principalmente sua atuação e obra catequética, considerada exemplar pelo religioso.


Leia atividade didática de História inspirada neste texto
Anos do ciclo: 7° e 8°
Possibilidade interdisciplinar: Língua Portuguesa
Objetivos de aprendizagem: Colher informações de diferentes fontes e valorizar atitudes de respeito à diversidade étnica e cultural

1 – Peça aos alunos para acessar o site da Biblioteca Brasiliana Mindlin (www.bbm.usp.br). No acervo de Anchieta, eles poderão localizar a obra “Cartas: informações, fragmentos históricos e sermões do Padre Joseph de Anchieta”. Com a sala dividida em grupos, cada um deve ler uma carta, sistematizar as informações e apresentar para a turma. A ideia é identificar como Anchieta relata as atividades dos jesuítas e como ele representa os indígenas. As informações do texto Santo da Casa devem ser relacionadas às da carta.

2 – No site Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br), pesquise o autor e leia a obra Auto da Festa de São Lourenço. Peça aos alunos para identificarem, através dos personagens e das ações, a perspectiva religiosa e política. Numa atividade interdisciplinar, eles podem fazer uma montagem da peça para a escola, seguida de um debate sobre suas relações com a atualidade.

3 – Se houver em sua cidade ou município próximo algum monumento, rua, edifício dedicado a Anchieta, procure saber quando foi colocado e por quem. Entreviste também as pessoas sondando o seu conhecimento sobre esse jesuíta.

4 – Na internet, busque notícias difundidas por ocasião da canonização de Anchieta. Identifique as representações sobre sua pessoa, se ele é considerado uma figura exemplar ou criticado por sua ação catequética. Pode ser feito um debate sobre essa apropriação da vida de Anchieta no presente.

Nascido em uma época na qual o Vaticano enfrentava a expansão do protestantismo, o espanhol Anchieta tornou-se um símbolo da Companhia de Jesus, fundada em 1534 para difundir a fé católica pelo mundo com os ideais de rígida disciplina, hierarquia, votos de pobreza, castidade e obediência total à Igreja. Entrando para a ordem em 1551, quando estudava em Coimbra, a ação missionária de Anchieta foi toda realizada no Brasil.

Chegou junto de Manuel da Nóbrega em 1553 e, já no ano seguinte, participou da primeira incursão portuguesa longe do litoral, em uma aldeia de aliados na qual o cacique mandou erguer uma “pobre casinha feita de barro e paus”, a origem do Pátio do Colégio, em São Paulo. Logo aprendeu o tupi a ponto de escrever uma gramática para os irmãos da ordem, e se apropriou da cultura dos índios para convertê-los ao cristianismo.

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Protesto de guaranis das aldeias de São Paulo no Museu de Anchieta

Tal engajamento na catequese é a marca maior de sua obra, expressa nos poemas, sermões e peças teatrais voltados à formação cristã dos noviços nos colégios, dos colonos e, sobretudo, dos nativos. Por exemplo, uma das mais famosas peças é dedicada ao padroeiro de Niterói. Escrito em tupi, português e castelhano, o Auto de São Lourenço foi encenado em 1587. No segundo ato, três diabos – com nomes de indígenas inimigos – tentam a aldeia com pecados, sendo enfrentados e presos por São Sebastião, São Lourenço e pelo Anjo da Guarda.

Na forma de canto, entre os vícios enumerados pelo diabo-rei Guaixará, estão rituais dos nativos: A moçada beberrona / trago bem conceituada. / Valente é quem se embriaga / e todo o cauim entorna, / e à luta então se consagra. / Quem bom costume é bailar! / Adornar-se, andar pintado, / tingir pernas, empenado / fumar e curandeirar, / andar de negro pintado. Além das representações negativas das crenças e costumes que os jesuítas tentavam combater, a estrutura maniqueísta da peça apresenta como maus os adversários da Igreja e dos portugueses.

As referências apontam para outra atuação de Anchieta, a política. Defendeu os índios convertidos da captura dos colonos que queriam escravizá-los para trabalho nas lavouras de São Paulo, mas não deixou de incitar o combate àqueles grupos arredios à conversão, como os tamoios que se aliaram aos franceses estabelecidos em uma colônia no Rio de Janeiro.

Nesse contexto, em 1563, Anchieta serviu de tradutor em uma tentativa de paz com os tamoios, próximos a São Vicente, sendo feito refém na aldeia de Iperoig, atual Ubatuba, onde não só temeu pela vida como pela sua castidade, resistindo ao costume indígena de oferecer mulheres ao prisioneiro. Entre 1565 e 1567, juntou-se à esquadra de Estácio de Sá contra o restante dos inimigos para fundação do Rio de Janeiro, e convenceu o governador geral Mem de Sá a enviar uma frota que expulsou os franceses.

Todo esse trabalho possibilitou a ascensão e notoriedade de Anchieta entre os Jesuítas, que o levou ao posto de Provincial, o mais alto do Brasil, exercido entre 1577 e 1588. Saindo por vontade própria, aceitou permanecer como reitor do Colégio de Vitória, até se retirar para a aldeia de Reritiba, atual Anchieta-ES, onde faleceu.

A ideia de tornar José de Anchieta um símbolo nasceu ainda nas cerimônias fúnebres, quando recebeu o epíteto de “Apóstolo do Brasil”. Sua atuação missionária e política o tornava uma figura exemplar para a ordem, o que motivou as primeiras biografias de Quirício Caxa (1598) e Pero Rodrigues (1609). Esta incorpora testemunhos de maior número de pessoas, elenca um enorme rol de virtudes e enfatiza relatos de milagres atribuídos a Anchieta, para dar estofo à sua fama de santo.

O processo foi aberto na Santa Sé em 1617 e almejava dar prestígio à ordem, até então sem um membro canonizado. Mesmo com outras biografias publicadas no século XVII, porém, a demanda andou mais lentamente que o esperado, seja por mudanças nas regras de canonização, falta de dinheiro, e até mesmo pela supressão da ordem em 1773, restaurada em 1814.

No terceiro centenário da morte de Anchieta o processo foi reaberto, mas como nenhum milagre foi reconhecido, os papas João Paulo II e Francisco prescindiram deles para sua beatificação em 1980 e canonização em 2014.

Em um dos maiores países católicos do mundo, que assiste a uma debandada de fiéis para as igrejas pentecostais, a escolha de Anchieta como o terceiro santo brasileiro indica uma tentativa de revigorar o catolicismo, como aponta o arcebispo de São Paulo, Odilo Scherer: “Conhecer e valorizar a vida e a ação missionária de São José de Anchieta ajudará, certamente, a recobrar a identidade missionária de nossa Igreja e a buscar caminhos e meios para melhor concretizar esta missão no contexto sempre novo em que a Igreja se encontra”.

Depois que o Brasil se tornou independente, Anchieta também passou a integrar a galeria dos heróis nacionais. Sua ação missionária foi louvada pela fundação de cidades, integração do território, defesa contra os estrangeiros e a catequização. Dialogando com a versão católica na qual se baseava, essas ações compunham uma narrativa da História do Brasil cujo sentido estava na valorização da unidade territorial e da progressiva implantação da cultura/civilização europeia na América, em detrimento dos povos nativos e africanos ou, na versão mais branda, da mistura de raças ou culturas na qual predominava o elemento europeu, considerado superior.

É o que vemos, por exemplo, em um manual didático escrito por João Ribeiro em 1914, para quem ao Apóstolo do Brasil “se deve haver chamado à civilização milhares de homens embrutecidos pela selvageria, e haver promovido a paz entre eles e os colonos, com risco de vida e com grandes, constantes e penosos trabalhos”.

Reforçada em períodos de forte apelo nacionalista como as ditaduras, circula até hoje tal associação da trajetória de Anchieta a essa forma de contar a História do País. Nesta narrativa, os povos indígenas costumam ser enquadrados na alternativa de se integrar à cultura dominante pelo abandono de suas tradições, tornarem-se exemplares exóticos do passado, confinados em reservas cada vez menores ou desaparecer para dar lugar à expansão da “civilização”, o “verdadeiro Brasil” daqueles que buscam ampliar suas fazendas.

Os índios não costumam ser representados como brasileiros iguais em direitos civis e políticos, mesmo quando decidem manter, no todo ou em parte, as crenças, costumes e locais de seus ancestrais.

Ainda no calor das comemorações pela canonização do “Apóstolo do Brasil” e às vésperas do Dia do Índio, em 16 de abril de 2014, 50 guaranis das aldeias de São Paulo ocuparam o Museu de Anchieta e lá permaneceram até o dia seguinte, conversando, rezando e cantando músicas tradicionais.

O vídeo da campanha, falado em guarani com legendas em português, mostra como os movimentos indígenas, ao lutarem pelos seus direitos, podem deslocar os sentidos daquela narrativa tradicional para reescrever a História a partir do seu ponto de vista:

“Cansamos de ser enganados. Ocupando pacificamente esse lugar simbólico, não estamos nos vingando, nem estamos enganando vocês, como vocês fizeram. Queremos apenas surpreendê-los para anunciar que precisamos da demarcação das nossas terras. (…) Nossas terras não são mais aqui no Centro, não são no Pátio do Colégio, pois esse lugar já foi tomado por vocês há muito tempo, e não vamos nunca pedir de volta. Elas são na margem da metrópole, onde vocês ainda não destruíram, onde sobra ainda um pouco das matas onde sempre vivemos.”

*Publicado originalmente em Carta Fundamental