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Hercules Florence, 1827 – Duas pirogas dos Guaná

Para estudar a história dos povos indígenas no Brasil é necessário estabelecer diálogos com diferentes áreas de pesquisa. Contribuem as descobertas feitas por arqueólogos, a partir da localização e análise de objetos de cultura material – fogueiras, cerâmicas, restos de alimentos, urnas funerárias; os estudos de registros feitos pelos europeus, que aqui estiveram ao longo de cinco séculos, e que escreveram, desenharam, pintaram e fotografaram aldeias, famílias e atividades cotidianas dos nativos; e as memórias preservadas pelos ancestrais indígenas, que contam suas histórias aos seus filhos, netos e bisnetos.


Observe o desenho acima. Ele foi feito por um francês chamado Hercules Florence (1804 – 1879), integrante de uma expedição científica durante os anos de 1824 a 1829, comandada pelo Barão de Langsdorff (1774 – 1852). Esse artista retratou, nesse desenho, os índios Guaná. Encontrou-os em Albuquerque, antiga vila portuguesa fundada em 1778, instalada na margem direita do Rio Paraguai. A história da vila remonta à disputa de território entre portugueses e espanhóis na região. Atualmente, Albuquerque é a cidade de Corumbá, no estado Mato Grosso do Sul.

O desenho é uma fonte de informação histórica. Registra, por exemplo, as embarcações dos Guaná naquela época. Outras fontes indicam, por exemplo, que um dos grupos Guaná foi ancestral do atual povo Terena, que atualmente fala a língua Chané-Guaná, da família linguística Aruak. Os Terena têm habitado a região próxima aos afluentes do Rio Paraguai (Aquidauana e Miranda) há centenas de anos.

Leia abaixo atividade didática baseada no tema:

Ano do ciclo: 5º a 9 º ano do Fundamental II

Componente curricular: História

Tempo de duração: 3 aulas

Objetivo de aprendizagem: 

– Conhecer e refletir a respeito da história do povo indígena Terena

– Conhecer um relato de memória preservada pelo povo Terena

– Ler e analisar relatos de memória.

Proposta de atividade:

Depois da Guerra do Paraguai, os Terena voltaram para suas aldeias e as encontraram destruídas. Sofreram também com a perda de suas terras para os fazendeiros, que foram para o Mato Grosso, a partir do incentivo do governo. Os Terena ficaram cercados de cabeças de gado e com condições muito difíceis de sobrevivência. Então, boa parte deles teve de procurar emprego nas fazendas.

a) Sobre essa época, leia as memórias contadas pelos mais velhos do povo Terena e analise quais as condições de trabalho que lhes foram impostas:

“Naquela época os Terena se encontraram fora de sua aldeia, trabalhando nas fazendas em condições de quase escravidão. Trabalharam quase sem remuneração e muitas vezes os fazendeiros simularam o acerto de contas e diziam, aproveitando-se dos índios: ‘você ainda está devendo, portanto tem que trabalhar mais um ano’. E a cada acerto de contas eles repetiam o mesmo.” (Genésio Farias)

“O pessoal daquela época tinha medo porque ainda se lembrava do patrão que os chicoteava na fazenda. Quem se atrasava para tomar chá de manhã era surrado… foi o finado meu avô quem me contou. Como castigo o pessoal tinha que arrancar o mato com as próprias mãos. Quando a comida estava pronta, eles mediam toda a sua tarefa. Eram quinze braças de tarefa e, mesmo não terminando a tarefa do dia, de manhã mediam outra tarefa, que acumulava.” (João ‘Menootó’ Martins)

BITTENCOURT, Circe e LADEIRA, Maria Elisa. A história do povo Terena. Brasília: MEC, 2000, p. 78.

b) Pesquise onde vivem hoje os Terena e quais alguns de seus costumes atuais.

Diversos outros povos indígenas viveram próximos do Rio Paraguai. E remontando a história de ocupação desse território, os arqueólogos identificaram vestígios de que foi habitado há cerca de 5 mil anos por populações de caçadores-coletores-pescadores, que utilizavam ferramentas líticas (feitas de pedra). Ao longo do tempo, esses povos atuaram no ambiente em que viveram, fazendo manejo de várias espécies vegetais (palmeira acuri, arroz do pantanal…) e iniciando uma agricultura simples. Por volta de 3000 anos atrás, a região era efetivamente ocupada por diferentes populações que construíam aterros nas planícies inundáveis, produzindo cerâmicas e praticando agricultura.

Ao longo dos séculos, outras fontes indicam a presença dos Guaná nessa região. Pelo relato do padre Diogo Ferrer, de 1633, sobre a missão jesuítica do Itatim (nome Guarani dado à região onde fica hoje o estado do Mato Grosso do Sul), na margem direita do Rio Paraguai, viviam os Gualacho, que compreendiam os Guaná, Tunu, Baya, Guaramo, Guaycuru ou Guaycuruti, Guayarapo, Payagua, Charaye e Orejone. Segundo esse jesuíta, esses povos eram lavradores, plantavam arroz e eram grandes pescadores.

O naturalista português Alexandre Rodrigues Ferreira, em 1791, também esteve nesse território. Em carta ao governador Albuquerque Pereira, escreveu sobre os costumes dos Guaná, contando que casavam com os Guaicuru, de quem eram vizinhos, amigos e aliados. Suas casas eram em forma oval, com cumeeiras altas e cobertas de sapé. Plantavam milho, feijão, batatas, canas, mamões, bananas, abóboras, melancia e arroz plantado em lagos e pântanos. Eram ainda criadores de cavalos, como os Guaicuru.

No século XIX, as expedições científicas europeias também registraram algumas características dessas culturas. Observe esse desenho de Hercules Florence.

Hercules Florence, 1830 – Índios Guaná
Hercules Florence, 1830 – Índios Guaná

Repare nos detalhes e procure identificar elementos culturais dos Guaná. Observe as roupas e os cabelos. Estão usando grandes panos enrolados no corpo, alguns com cabelos curtos, uma mulher com trança e um menino com calça e um chapéu. Compare com esse outro desenho, também feito por Hercules Florence.

Hercules Florence, s/d – Jovem Guaná e Guanitá, capitão-mor dos Guaná
Hercules Florence, s/d – Jovem Guaná e Guanitá, capitão-mor dos Guaná

Os tecidos de algodão, com fios tingidos, aparentam um trabalho artesanal laborioso. Florence escreveu que foram feitos no tear pelas mulheres Guaná. Eram considerados panões (panos grossos), usados para vestimentas e redes. E conta:

Cifram-se as roupas dos Guanás para os homens num pano que enrolam como tanga e atado à cintura, caindo, quando muito, até os joelhos; e num pedaço de fazenda quadrado, retangular ou puxado mais para o comprido, o qual tem no meio uma abertura por onde enfiam a cabeça e que não lhe resguarda mais que os ombros, peitos e espátula. – Hercules Florence, 1827.

A partir do século XVIII, os Guaná passaram a ser aliados dos portugueses e quando os paraguaios invadiram o território brasileiro, no episódio conhecido como Guerra do Paraguai (1864 – 1870), eles integraram as tropas nacionais e abasteceram o Exército de alimentos. Mas, com o fim da guerra, seu território foi disputado por fazendeiros, impondo a perda das terras onde viviam, que foram só parcialmente recuperadas com os processos de demarcação das terras Terena no século XX.

 

Saiba mais:

BESPALEZ, Eduardo. Arqueologia e história indígena no Pantanal. Estudos avançados 29 (83), 2015.

BITTENCOURT, Circe e LADEIRA, Maria Elisa. A história do povo Terena. Brasília: MEC, 2000.

PEREIRA, Sonia Maria Couto. Etnografia e iconografia nos registros produzidos por Hércules Florence durante a Expedição Langsdorff na Província do Mato Grosso (1826-1829) / Dourados, MS: UFGD, 2008.

SILVA, Verone Cristina da. Missão, aldeamento e cidade: os Guaná entre os Albuquerque e Cuiabá – Cuiabá: Instituto de Ciências Humanas e Sociais, 2001.

 

*Antonia Terra de Calazans Fernandes é professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com experiência na área de Educação, ensino de História, formação de professores, livros didáticos, educação de jovens e adultos, memória e currículo de História.