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Parceria animal por sobrevivência

A cooperação entre bichos de diferentes espécies em prol do benefício mútuo

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capivara e carrapateiro
O carrapateiro pega carona na capivara

A vida dos animais silvestres não é fácil e tem seus desafios. Situações hostis de clima, disponibilidade de alimento ou risco de predação os tornam frágeis, dificultando sua permanência na comunidade em que vivem. É por isso que, ao longo do tempo, diversos animais desenvolveram formas de aumentar suas chances de sobrevivência na natureza ou maximizar a probabilidade de encontrar alimento.


Leia sugestão de atividade didática para o 4º ao 6º ano
Quantidade de aulas: 4 a 6
Trabalho em equipe Teste técnicas de cooperação para obter melhor resultado em suas atividades
Anos do Ciclo: 4° ao 6°
Objetivo de aprendizagem: Identificar formas de cooperação entre animais de diferentes espécies e os benefícios dessa associação.

1) Apresente aos alunos as formas de cooperação entre animais de diferentes espécies e suas diferenças. Cite exemplos clássicos e peça para que pesquisem novos exemplos, a serem apresentados na aula seguinte.

2) Realize uma aula prática com objetivo de comprovar que a cooperação gera benefícios mútuos. Teste formas de cooperação em sala de aula, comparando o resultado de esforços individuais com o resultado de um trabalho em equipe. É sugerido um trabalho de produção em série de determinado produto, no qual alguns alunos ficam responsáveis por todo o processo (que envolve a confecção do produto, o fechamento da embalagem, a etiquetagem e o transporte até o almoxarifado); e outros alunos se reúnem em equipes. Ao final, é possível comparar quantas unidades foram finalizadas pelos alunos individualmente e quantas foram finalizadas pelos grupos.

3) Solicite aos alunos que saiam a campo durante os fins de semana e registrem em vídeo as formas de cooperação que conseguirem identificar na natureza durante o período no qual o tema será abordado em sala. O envolvimento dos pais é necessário para promover a obtenção do material e incentivar a atividade.

4) Prepare uma aula específica para que os alunos apresentem os vídeos e expliquem as formas de cooperação obtidas em campo. Avalie o material, a apresentação técnica e os exemplos citados. Incentive-os a observar a natureza em sua volta com um olhar técnico e científico.

Entre as diversas técnicas empregadas individualmente, existem relações entre espécies diferentes que geram benefícios simultâneos. Na verdade é uma ajuda mútua em que ambos são os interessados e ambos são os beneficiados. Protocooperação e mutualismo são termos utilizados para tal associação interespecífica, e se distinguem por sua obrigatoriedade. Na protocooperação, as duas espécies em questão podem viver isoladamente, ou seja, não dependem uma da outra. Quando se associam, apenas adquirem certa vantagem em relação aos outros indivíduos da mesma espécie por possuir um “acessório” a mais. Existem exemplos clássicos como o do caranguejo-ermitão e a anêmona que se adere à sua concha, amplamente citado em materiais didáticos. No entanto, aqui trataremos de exemplos menos conhecidos e tão importantes ou comuns quanto a este.

Na savana africana existem duas espécies endêmicas de pássaros, conhecidas por Oxpeckers (Buphagus africanus e B. erythrorhynchus), que passam a maior parte de suas vidas no dorso de grandes mamíferos, tais como girafas, antílopes, hipopótamos, rinocerontes, búfalos, zebras. O motivo é o item pelo qual esta ave prioritariamente se alimenta: carrapatos. Esses parasitas são abundantes na pele desses animais, e uma simples inspeção com o bico pela pelagem do hospedeiro é suficiente para que o pássaro encontre alimento farto. Para os grandes mamíferos, a vantagem de “dar uma carona” às aves é a limpeza que elas os fazem. Os pássaros, por sua vez, se alimentam enquanto removem os ectoparasitas. Tal situação é semelhante ao clássico exemplo da rêmora, pequeno peixe que se adere à pele de tubarões e se alimenta dos parasitas de sua pele. Apesar de muitos leigos conhecerem a relação mutualística não obrigatória que existe entre esses animais, a maioria dos brasileiros não percebe que isso ocorre próximo a eles. As capivaras, por exemplo, mamífero de médio porte muito comum em quase todo o País, recebe a visita de aves como um falconídeo conhecido como carrapateiro (Milvago chimachima) ou a iraúna-grande (Molothrus oryzivorus) pelo mesmo motivo: livrar-se dos carrapatos, enquanto as aves se alimentam.

Em florestas tropicais é comum observarmos várias espécies de aves silvestres locomovendo-se juntas em busca de alimento, compondo os chamados bandos mistos. Geralmente elas se associam em tempos de pouca oferta de alimento (como no inverno no Sul e Sudeste do Brasil ou durante a seca na Região Norte) com o objetivo de maximizar a atividade de busca por recursos. Os bandos mistos podem ser compostos apenas de espécies de copa, como saíras, que encontram com mais facilidade as árvores que contêm frutos; ou então podem agregar espécies de diferentes hábitos e estratos da floresta, fazendo uma varredura completa pela mata, um verdadeiro “pente fino”. Com a intensa movimentação das espécies frugívoras (que se alimentam de frutos) muitos insetos são espantados e se expõem na vegetação. Assim, espécies insetívoras aproveitam para se fartar. Nos bandos mistos de aves comumente existe uma espécie nuclear que dita o avanço do grupo, a direção e a durabilidade do agrupamento, sendo a mais comum entre todas as participantes. Uma espécie que se destaca por estar presente na maioria dos bandos mistos da Região Amazônica é o pássaro chamado por ipecuá (Thamnomanes caesius).

Outro exemplo pouco conhecido é a associação entre anfíbios da família Microhylidae e aranhas (tarântulas). Uma pesquisa comprovou tal interação ao investigar ocos de árvores onde é comum observar ambas as espécies juntas. Em diversas ocasiões, os pesquisadores observaram o anfíbio (Ramanella nagaoi) predando as formigas que tentavam atacar os ovos da aranha. Em contrapartida, as aranhas defenderam os ovos do anfíbio quando outro anuro (Hemidactylus depresses) tentava predá-los. Essas tarântulas (Poecilotheria ornata e P. subfusca) reconhecem quimicamente a presença do anfíbio parceiro, ao mesmo tempo que o anfíbio não teme a presença da aranha, havendo tolerância mútua na cavidade a qual habitam. Existem relatos sobre outras espécies interagindo da mesma forma: o anfíbio Kaloula taprobanica e a aranha Poecilotheria hanumavilasumica, e as espécies de anuros como Hamptophryne boliviana e Chiasmocleis ventrimaculata também se comportam da mesma forma.

A protocooperação também ocorre com a espécie humana. Isso pode ser observado, por exemplo, durante a pesca artesanal da tainha no litoral catarinense. Em Laguna, os pescadores e os botos (Turciops truncatus) aprenderam a pescar ajudando um ao outro e essa associação vem mantendo-se por gerações. Os pescadores posicionam-se ao longo do canal e observam a movimentação dos botos. Esses mamíferos aquáticos, por sua vez, localizam os cardumes de tainha e os conduzem em direção aos pescadores. No momento em que o cardume está na posição ideal, um dos botos sinaliza com a nadadeira dorsal para os pescadores, os quais arremessam suas tarrafas todos ao mesmo tempo. Dessa forma, quando a tarrafa cai sobre o cardume, alguns peixes se desorientam e se afastam do mesmo, sendo facilmente capturados pelos botos. Em contrapartida, os arremessos quase sempre acarretam em sucesso para os pescadores.

O mutualismo ou simbiose é uma forma semelhante de cooperação, porém os dois organismos dependem um do outro para sobreviver. A associação é necessária, pois a outra espécie fornece certa função fisiológica que falta para o organismo em questão. O exemplo mais conhecido são os líquens, aqueles filamentos pendurados em galhos de árvores (principalmente nas araucárias), conhecidos popularmente por barba-de-velho; ou aquelas manchas arredondadas e coloridas nos troncos de algumas árvores; ou então aqueles tufos verdes que são abundantes em algumas porções arenosas da vegetação arbustiva das restingas. Os líquens são uma associação permanente entre fungos e algas. Morfologicamente são apenas um material orgânico uniforme, no entanto, o fungo absorve e metaboliza os nutrientes enquanto a fotossíntese e é exercida pelas algas ali presentes. Outra forma de mutualismo é a relação existente entre os cupins e o protozoário triconinfa que vive em seu intestino, capaz de digerir a celulose, transformando-a em açúcares disponíveis para as duas espécies. Sem esse protozoário em seu intestino os cupins não seriam capazes de digerir a celulose.

O comensalismo é uma relação entre dois organismos de espécies diferentes, sendo benéfica apenas para um deles, não afetando de forma alguma o outro. A etimologia da palavra significa literalmente “comendo na mesma mesa” (com=junto; mensa=mesa). O termo é usado para descrever relações simbióticas que não se encaixam em categorias de mutualismo ou parasitismo. Um bom exemplo é a garça-vaqueira (Bubulcus ibis) e o gado bovino. Essa espécie de garça é insetívora e acompanha (passo a passo) os bois enquanto os mesmos pastam, pois o pisoteio do gado espanta uma série de insetos que vivem nos capins. Outro exemplo são as aves amazônicas da família Thamnophilidae que são especializadas em seguir correições de formigas. Aves do gênero Rhegmatorhina perseguem constantemente os numerosos grupos de formigas que se deslocam pelo solo da floresta para se alimentar dos insetos que as mesmas espantam durante a passagem das formigas. É uma forma muito eficaz de se obter uma grande oferta de alimento.

O parasitismo, outra forma de interação interespecífica, não pode ser considerado como cooperação, pois nesse caso um organismo é beneficiado enquanto o outro é prejudicado. Isso ocorre quando uma figueira, por exemplo, utiliza outra árvore para se desenvolver, sufocando-a na medida em que cresce. Carrapatos aderem-se à pele de vertebrados quando há contato físico entre os mesmos, porém apenas o carrapato se beneficia alimentando-se do sangue do hospedeiro. Além do carrapato não oferecer nenhuma vantagem ao animal ao qual está parasitando, pode transmitir doenças fatais.

É nítido, portanto, que na natureza ocorre o mesmo que observamos nas sociedades humanas: muitos indivíduos tentam beneficiar-se à custa de outros e chegam até a conseguir em alguns casos. Porém, quando existe união, cooperação e trabalho em equipe os resultados são melhores para todos.

Raphael E. Fernandes Santos é biólogo e diretor da empresa Fieldwork Consultoria Ambiental