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Paulo Leminski

Jovem culto, inteligente e criativo, filho mestiço de polaco com negra, Paulo Leminski nasceu na cidade de Curitiba, Paraná, em 24 de agosto de 1944. Muito cedo começou a ser conhecido como um intelectual carismático, mix de erudito, escritor e artista pop, figura emblemática para sua geração.


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Foi uma personalidade múltipla: escreveu narrativas, biografias e poemas, traduziu livros, compôs canções, lecionou História e Literatura em curso pré-vestibular, fez jornalismo, publicidade e televisão, foi agitador cultural e professor de judô. Dedicou-se à cultura e à literatura em tempo integral: “Minha vida é administrar papéis”, dizia.

Leia atividade didática de Língua Portuguesa inspirada neste texto
Anos do ciclo: 4º ao 9º
Área: Língua Portuguesa
Possibilidade interdisciplinar: Artes
Duração: 5 aulas
Expectativas de aprendizagem: relacionar o tratamento dado à sonoridade (rima, assonância, aliteração) e aos efeitos de sentido que provoca; interpretar a posição do eu-lírico; trocar impressões a respeito dos poemas lidos; produzir poemas a partir de modelos; revistar poemas de modo expressivo.

Selecionamos alguns poemas e propomos caminhos para compreender o texto poético, explorar o humor e produzir poemas curtos

1 Explique aos alunos que a atividade a seguir terá a finalidade de aprender a produzir poemas e organizar uma mostra na escola na qual estes serão expostos. Apresente, então, uma seleção de poemas de Paulo Leminski adequados à faixa etária de sua turma.

2 Depois da leitura, inicie uma conversa a respeito de poemas curtos. Valorize as inferências dos alunos e anote no quadro as que dizem respeito ao gênero (use as palavras e expressões dos alunos e destaque as observações que dizem respeito ao sentido. observe que os poemas às vezes se restringem a uma frase bem-humorada distribuída na página em branco, contrariando o que o senso comum costuma reconhecer como poesia, com ritmo bem marcado). mantenha as anotações expostas em um cartaz durante o desenvolvimento da unidade.

3 Em seguida, transcreva a explicação escrita por Leminski à obra: Aqui, poemas para lerem, em silêncio, o olho, o coração e a inteligência. Poemas para dizer, em voz alta. Poemas, letras, lyrics, para cantar. Quais, quais, é com você, parceiro. Rediscuta o que observaram antes e trate da importância do leitor ao atribuir sentido aos poemas, o que não elimina a intenção do autor de produzir textos com linguagem multissignificativa. estimule-os a pensar nos poemas que leram. retome alguns e, em grande grupo, peça que falem sobre ideias que suscitam. a intenção é identificar a linguagem sugestiva, os implícitos que contêm. relacione- os com a explicação de leminski e aproveite diferentes sentidos expressos por eles ao sintetizarem os poe mas lidos para ilustrar a importância de cada leitor ao ler poesia. depois, retome alguns poemas e faça-os observarem atentamente o ritmo. É bem marcado? É rimado? como fica mais evidente perceber se o ritmo é muito importante ou não na produção do texto? (Se necessário, escolha um poema rimado de autor conhecido das crianças e contraste aos de leminski.)

4 Depois de lerem e comentarem diferentes poemas curtos, proponha que produzam alguns, a partir dos mesmos critérios observados ao lerem os de leminski. Se preferir, sugira um tema orientador: as cenas domésticas para os mais jovens e as relações afetivas, como a amizade, o enamoramento, para os maiores. Enquanto trabalham, acompanhe o processo de produção
e auxilie-os a buscar a expressão de imagens por meio da escrita breve e reflexiva das palavras, valorizando a ambiguidade da linguagem ou acentuando o tom humorístico.

5 Promova a socialização do que cada um produziu e proceda à avaliação pelo grupo a partir do que viram a respeito do assunto, lançando, se for o caso, sugestões para qualificar as produções. depois de obterem a forma final, peça que preparem uma cópia ilustrada de seu poema com o objetivo de expô-lo em um painel. Sugira ainda que destaquem os poemas curtos de leminski ou dos demais poetas lidos de que tenham gostado, preparem um cartaz e acrescentem ao painel. Combine um momento para apresentação e convide outra(s) turma(s) para visitar a classe, ocasião em que os alunos poderão dizer seus poemas em voz alta e conversar com os convidados a respeito deles.

No gênero lírico, publicou, entre outros, Caprichos e Relaxos (1983), Distraídos Venceremos (1987), La Vie em Close (1991). Produziu canções que foram musicadas por Morais Moreira, Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes, entre outros. Na prosa, escreveu obras como Catatau (1976), Agora É Que São Elas (1984) e Metamorfose (1994).

As obras desrespeitam as fronteiras entre a narrativa, a lírica e o ensaio e assumem um caráter híbrido de tradição joyceana. Leminski também publicou literatura infantojuvenil, Guerra Dentro da Gente (1986), considerada por Haroldo de Campos uma fábula zen para crianças grandes. É a história de Baita, menino pobre, filho de lenhadores, que aprende a arte da guerra. Cuida de animais, é vendido como escravo, vive aventuras e acumula poder e prestígio. No final, retorna à aldeia cheio de sabedoria.

Como biógrafo, dedicou-se à vida de Jesus Cristo, Cruz e Souza, Matsuo Bashô e Leon Trotski. Em relatos que retomam as figuras humanas e as inserem em um contexto histórico, cultural e literário, foi irreverente tanto na escolha dos biografados quanto no gênero que realizou, já que recorre a uma prosa que mescla o ensaio e a crônica jornalística.

Relativamente à tradução, mostrou versatilidade quanto ao domínio de vários idiomas: latim, japonês, inglês e francês, entre outros.

Transformou-se em fenômeno de massa depois que Caetano Veloso musicou e gravou uma composição sua, Verdura. Hoje, mais de 20 anos após a sua morte (7 de junho de 1989), o lançamento de Toda Poesia (Companhia das Letras, 2013) volta a alçá-lo à condição de best seller: vendeu, apenas em março, cerca de 20 mil exemplares.

O poeta e o haicai

Os textos revelam uma pessoa múltipla e inquieta capaz de sintetizar em versos influências orientais e cristãs, amalgamadas por teo­rias literárias. Dos concretos herdou o gosto pela concisão e o forte apelo à imagem, a valorização da palavra enquanto signo e matéria-prima básica do poema; do modernismo, ou da contracultura, veio o resgate da comunicabilidade, o humor. Também valorizava a concisão e o combate ao sentimentalismo, caminhos pelos quais chegou ao haicai.

Paulo Leminski

Entretanto, não se manteve nos limites da estética japonesa, mas extraiu dela a precisão, não se restringiu ao simbolismo objetivo de notação sensorial, restrito ao renovar das estações, mas acrescentou a possibilidade do humor, construído de forma inusitada. Sua obra revela sua filosofia de vida: foi um idealista romântico, apaixonado e questionador de todas as formas de poder.

Seus poemas apropriam-se de novas formas de expressão e linguagem, exploram aspectos da palavra como a oralidade, ou apresentam visualidade que investe na comunicação com o leitor.

Em versos, leva às últimas consequências suas ideias em relação aos limites da linguagem, irreverência que colabora para a manutenção do interesse de leitores jovens por sua obra e confirma uma atitude de vanguarda, que não se deixa capturar por rótulos. Inventa um caminho pessoal em que a poesia se define como “a liberdade da minha linguagem”.

Leminski funda um momento único na poe­sia brasileira da segunda metade do século, graças ao esforço de síntese que realiza entre a cultura erudita e a popular, entre a formação cultural de base experimental e a experiência de vida, entre a afirmação subjetiva e a construção de uma figura pública, midiática, que sempre tratou a linguagem como matéria digna de respeito e atenção.

*Ana Mariza FilipousKi é professora, coautora de A Formação do Leitor Jovem: Temas e Gêneros da Literatura e de Leitura e Autoria: Planejamento em Língua Portuguesa e Literatura, ambos pela Edelbra