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Mapa mundi
Atribuído ao cartógrafo Waldseemüller, mapa foi adquirido por 10 milhões de dólares

Há um consenso atual que admite que as imagens são agentes ativos na formação da visão de mundo (das pessoas em geral e dos estudantes, em particular). Não são veículos neutros, que apenas representariam com exatidão o mundo, paisagens ou cenas cotidianas. As imagens fazem parte do conjunto de linguagens que tanto representam quanto constroem o mundo. E, dentre as imagens, o mapa tem papel singular nas sociedades, especialmente a partir da criação da imprensa, no caso da história ocidental. Um mapa particularmente elaborado e impresso nos primórdios da invenção da imprensa é hoje centro das atenções.


Leia atividade didática de Geografia inspirada neste texto

Uma atividade para iniciar a discussão sobre qual é nossa visão de mundo é a da construção de mapas mentais. Define-se como mapa mental uma representação de lugares conhecidos, direta ou indiretamente. Caso seja solicitada ao aluno a criação de uma representação de um mapa-múndi (ou planisfério), sem a consulta a qualquer fonte, o professor terá provavelmente o mesmo resultado que diversas pesquisas sobre esse tipo de elaboração.

Em exercício aplicado a 195 alunos do 7º ano (FONSECA, 2012) verificou-se que a quase totalidade dos estudantes seguiu este padrão: apenas um aluno apresentou o Oceano Pacífico e não o Atlântico no centro do mapa. O mais comum dos resultados é aquele do planisfério que traz as Américas à esquerda, a Europa e Ásia à direita, a África abaixo da Europa, mas ambas no centro do mapa. Com maior ou menor detalhamento. É um resultado comum de como nos apropriamos mentalmente e praticamente do conjunto da superfície terrestre, que tem uma relação intrínseca com a história ocidental. A partir dessa atividade introdutória, sugere-se que:

1) Discussões sejam feitas com os alunos procurando entender porque a maior parte das representações é similar, e;

2) Se há diferenças entre as representações produzidas pelos alunos, quais são as diferenças e por que elas apareceram.

3) A atividade introdutória pretende colocar em pauta as representações de mundo dos alunos e também demonstrar que há uma estabilidade nestas representações há menos quinhentos anos, pois foi a partir dos mapas do início do século XVI que a 4ª parte do mundo começou a fazer parte do mapa e juntou-se assim à Europa, Ásia e África. Mais tarde, teremos a representação da Oceania, que, provavelmente, também é parte das representações dos alunos.

4) Na sequencia da atividade introdutória, utilizar o mapa de Waldseemüller (uma imagem em boa resolução pode ser consultada em Library of Congress Geography and Map Division Washington) e iniciar a comparação de um mapa-múndi atual e o mapa de Waldseemüller.

5) A primeira questão que pode ser discutida junto aos alunos é sobre a precisão cartográfica. Se este mapa não possui precisão de um mapa atual (é só olhar como as Américas estão representadas como um continente fino e alongado) como ele pode ter sido e é ainda hoje tão importante? Aqui vale destacar um argumento significativo de Brian Harley, que diz que a questão da precisão cartográfica é apenas uma das análises possíveis do mapa. Não se pode desqualificar o mapa enquanto documento histórico significativo somente a partir de sua precisão locacional.

6) Uma segunda questão é sobre o contexto do cartógrafo Martin Waldseemüller, contratado para atualizar o mapa de Ptolomeu (figura 2). Aliás, o capítulo de abertura (a partir do viés da ciência e de sua geografia) do livro de Jerry Brotton, Uma História do Mundo em Doze Mapas, é sobre o mapa de Ptolomeu.

7) A proposta de atividade agora passa para a comparação entre o mapa de Ptolomeu (datado de 150 d. C.) e o mapa de Waldseemüller: o que há de similar e o que há de diferente? Algo que é importante e poderá surgir a partir da observação é, por exemplo, a representação do Oceano Atlântico. O oceano passa a ser representado com a mesma importância das terras emersas em mapas do mesmo período histórico do mapa de Waldseemüller. Neles as águas passaram a ser meios de conexão e novos “territórios” a serem mapeados e também conquistados, e não mais espaços que interditavam a expansão humana no planeta. E essa comparação pode incluir outros mapas que antecederam Waldseemüller e que lhe são contemporâneos: o planisfério de Cantino de 1502 (Figura 3) e o planisfério de Cavério de 1505 (figura 4).

8) A partir do planisfério de Cantino e Cavério, a representação do que se denominou “Novo Mundo” é também diversa daquela presente em Waldseemüller: são fragmentos inacabados de terras emersas que não se caracterizam como continente. Tais mapas representam o pensamento predominante à época, no final do século XV e início do século XVI, e indicavam que as terras emersas além do Oceano Atlântico seriam contíguas e contínuas à Ásia. Esse foi o pensamento também compartilhado por Cristóvão Colombo quando se lançou ao Atlântico, pois o que esperava realizar era chegar às Índias navegando para oeste.

9) Assim, o mapa de Waldseemüller não só definiu o nome do novo continente, mas também definiu o próprio continente como tal, num olhar inovador para a época. A partir do mapa as Américas não seriam mais ilhas ou parte de um continente já existente e conhecido. A discussão aí pode se voltar para a construção de uma ideia de mundo mesmo antes que se tenha certeza da coincidência dessa representação com a realidade (ou parte dela). E esse é o poder de um mapa-múndi até os dias de hoje: o de apresentar a Terra toda numa imagem plana, mesmo que não seja possível apreender o planeta visualmente de uma só vez, a partir do alto, nem por imagens de modernos satélites.

10) Para agregar outros mapas contemporâneos na comparação com o de Waldseemüller pode ser feito um exercício de busca dentre as mapotecas digitais. Para tanto, poderão ser consultados sites do Brasil, num primeiro momento, que possuem mapas do passado. Dentre estas instituições estão o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo que possui uma mapoteca bastante rica disponível em formato digital (http://www.mapashistoricos.usp.br/). A busca pode ser feita a partir da área geográfica “mundo” e trazer os planisférios ali existentes para possíveis comparações e análises. Há também o acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (http://bndigital.bn.br/acervo-digital) onde a busca pode ser feita a partir da classificação de “Mapas-múndi – Obras anteriores a 1800”.

11) Outra análise a ser feita é o contexto das técnicas no período da confecção do mapa. Ao observar o mapa de Waldseemüller há duas figuras humanas presentes no alto do mapa: à esquerda o geógrafo Cláudio Ptolomeu e à direita Américo Vespúcio. Deve-se apresentar estes dois personagens aos alunos e propor uma atividade que se refere ao contexto das técnicas. Ptolomeu e Vespúcio seguram instrumentos utilizados para navegação naquele momento histórico, hoje conhecido como das “grandes navegações”. Esta atividade dará o contexto histórico e das técnicas disponíveis naquela época e poderá colocar algumas questões aos alunos: como era possível a localização na superfície terrestre? A discussão daí surgida é aquela da mudança do paradigma da localização sobre a superfície terrestre, pois a partir do momento que o homem se lança ao mar os referenciais observáveis da superfície terrestre deixam de existir. E mesmo antes das grandes navegações, as coordenadas geográficas são uma elaboração humana para a localização também sobre a superfície terrestre, a partir da ampliação da escala de vivência do homem e a projeção de uma Terra muito maior que aquela experimentada. Nessa situação ele tem de olhar para o céu e projetar a abóboda celeste sobre a terra e também observar o aparente movimento desses corpos para se localizar. Essa necessidade e essas operações estão na origem do sistema de coordenadas geográficas. Vamos encontrar sistemas de coordenadas desde os mapas da Grécia antiga. Por exemplo, no mapa-múndi de Dicaiarcos (350-290 a.C.) e no de Ptolomeu. Assim, observar e discutir se o mapa de Waldseemüller possui coordenadas geográficas. Na comparação com o mapa de Ptolomeu é possível também observar a mesma ideia de projeção cartográfica nos dois mapas.

Trata-se do mapa atribuído ao cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, datado de 1507, adquirido pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em 2003 pela quantia de 10 milhões de dólares (figura 1). Parte da curiosidade vem do fato desse mapa ter sido comercializado com o maior valor jamais pago a esse tipo de objeto. Esse mapa é protagonista em obras recentes como, por exemplo, o livro de Jerry Brotton, Uma História do Mundo em Doze Mapas e de Toby Lester, A quarta parte do Mundo.

E por que este mapa, tão antigo, pode ser considerado como referencial na visão de mundo dos estudantes hoje? O interesse dos Estados Unidos em adquirir a única versão impressa desse mapa que teria sobrevivido, é a justificativa de que Waldseemüller inventou o nome “América” para um continente novo, antes designado como “terra incógnita”. Bom, veremos que não é só isso. A partir da metodologia proposta pelo geógrafo e historiador da cartografia Brian Harley, que parte do princípio que todo documento histórico só pode ser interpretado e valorizado a partir de seus contextos, propõe-se atividades em torno desse e de outros mapas históricos.

Fernanda Padovesi é doutora em Geografia Física e professora da USP

Livros

Uma História do Mundo em Doze Mapas, de Jerry Broton. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

A naturalização como obstáculo à inovação da cartografia escolar, de Fernanda Padovesi Fonseca. Disponível aqui: