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aves
Sanhaço de Fogo (Piranga flava) é uma ave encontrada na caatinga

Há quem elogie o livro Os Sertões, mas a obra de Euclides da Cunha presta um desserviço ao Sertão, aos sertões, às caatingas, ao Nordeste, pois instituiu uma imagem caricatural dessa terra e povo, lamentavelmente, consumida pelo mundo.


Entre tantas aberrações que o autor escreve, destaco: “e o Sertão de todo se impropriou à vida”. Ele reforça as ideais dos naturalistas Martius e Spix que, após suas imersões na caatinga, classificaram-na como silva hórrida (floresta horrível, feia, em tradução livre do latim).

Logo, Os Sertões não é uma referência para falarmos da caatinga e do seu povo. Estranha-me que seja uma obra tão elogiada, inclusive, por sertanejos. Suponho, não tenham lido com a criticidade que merece, quiçá, a cena e o horror da Guerra de Canudos excitem consumidores de seu trabalho sem que percebam a narrativa racista contra indígenas, negros e sertanejos.

Leia proposta de atividade didática inspirada neste texto
Anos do ciclo: 5º ao 9º
Áreas: Geografia e História
Possibilidade interdisciplinar: Ciências
Objetivos de aprendizagem: Problematizar a percepção que as pessoas têm sobre a Caatinga, o Semiárido e o Nordeste, objetivando evidenciar as riquezas e potencialidades desse importante Bioma brasileiro.

1. Propor aos alunos a construção de um painel de imagens da flora e fauna da Caatinga, destacando as espécies de orquídeas, bromélias, árvores frutíferas, onças, veados, peixes, anfíbios, répteis, objetivando ampliar o olhar para além da beleza das cactáceas e do bode.

2. Construir em parceria com os alunos um trabalho audiovisual que trata da dinâmica ecológica da caatinga do tempo seco para o tempo verde, mostrando a beleza desse espaço geo humano nesses dois momentos e ilustrar com a cultura, música e as belas tradições do Sertão.

3. Pedir que os alunos pesquisem quanto foi investido na Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Pedir que estudem qual a espécie de animal da caatinga que serviu como mascote. Solicitar que façam uma redação analisando porque nada foi investido para preservar esta espécie.

As representações sobre o bioma caatinga, no semiárido brasileiro, são, geralmente, marcadas por preconceitos, além de serem extremamente superficiais. A nossa sociobiodiversidade é tratada como homogênea, quando possui um número significativo de paisagens singulares.

A caatinga é o único bioma totalmente brasileiro e, até hoje, não foi considerada patrimônio nacional como é a Amazônia e a Mata Atlântica, como consta na Constituição Federal, que também excetua o cerrado. Incrível como as lutas (PEC 123/2003 e PEC 504/2010) para que isso se efetive no Brasil esbarram no destrutivo e silencioso sentido de se tratar a caatinga como um lugar inóspito e pobre. O próprio site do Ministério do Meio Ambiente refere-se a um agrupamento de pessoas carentes.

Tentam fazer acreditar que a caatinga é um bioma pobre em espécies e endemismos. Mas mesmo sendo a região menos pesquisada do Brasil, já foram identificadas em torno de 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221 de abelhas. Segundo Giullieti, na caatinga já foram identificadas mais de 5.344 espécies de plantas que produzem flores e sementes (fanerógamas), caracterizando-se como local de rica biodiversidade.

A região é a mais diversa do mundo, considerando as condições de clima e solo semelhantes. Suas florestas e outras áreas naturais representam 12% do território nacional, abrangendo os estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e parte de Minas Gerais. Sua rica biodiversidade confere valores biológicos e econômicos significativos para o Brasil, fazendo da caatinga, hoje com cerca de 28 milhões de habitantes, um bioma prioritário para a conservação na América Latina.

Não há consenso quanto ao tamanho e caracterização do bioma caatinga. De forma genérica, quando nos referimos à caatinga tratamos do tipo de vegetação que cobre boa parte da área com clima semiárido na região Nordeste. Hoje, o sentido que atribuímos à caatinga ultrapassa a noção de uma formação vegetal especificamente. Ela é sinônimo de Nordeste (região sociocultural) e de semiárido (dimensão climática).

De origem indígena, caatinga significa mata, floresta branca, certamente, em decorrência da sua extraordinária capacidade de resistir a períodos de longas estiagens, protegendo-se das adversidades climáticas quentes ficando com um aspecto esbranquiçado, como as árvores e outros organismos fazem em áreas geladas. Em outros períodos, volta a ficar totalmente verde.

Parte da caatinga é cortada pelo Velho Chico, um oásis que abriga mais de 17 milhões de pessoas e que agoniza, sobretudo, pela visível morte do cerrado, de onde vem seus principais volumes de água. O Vale do São Francisco é um grande polo da fruticultura irrigada. Além da produção de frutas e verduras, hoje sua produção de bons vinhos já é reconhecida mundialmente.

Sua biodiversidade sustenta várias atividades econômicas, quer para fins industriais fármacos, alimentos e cosméticos), quer para atividades agrosilvopastoris, destacando-se a criação de caprinos e ovinos além de alguns espaços de produção bovina. Essa região do Brasil constitui-se, também, como importante fonte de extração mineral e de produção de energia.

As atividades extrativistas entre as comunidades locais se estabelecem como base da renda de centenas de famílias sertanejas. Na caatinga, também estão tesouros paleontológicos e arqueológicos. Apesar de toda essa importância, mais da metade da caatinga já foi destruída.

Mais da metade da caatinga está em solos rasos, cristalinos, onde se observa uma cobertura vegetal antiga que, se desmatada, considerando as visíveis alterações climáticas, raramente se recuperará, consequentemente, toda a região está susceptível aos intensos processos de desertificação. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o desmatamento na caatinga já atingiu 46% da área do bioma, decorrentes da extração de lenha nativa de forma ilegal e insustentável, além da estruturação de pastagens e modos inadequados da agricultura. Para agravar ainda mais essa situação, pouco mais de 1% dela está em unidades de proteção integral.

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Moradores da Serra dos Morgados, Jaguarari (BA). Foto: Juracy Marques

A caatinga protagoniza grandes dramas ligados à conservação de suas espécies de plantas e animais, haja vista o descaso e desprezo para com sua biodiversidade. Só para ilustrar, em 2001 a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) foi dada como extinta no ambiente natural em Curaçá, Bahia, entre outras razões, provocada pela caça, tráfico ilegal, cortes indiscriminados de árvores, inserção inadequada de abelhas africanizadas no bioma, além de outros graves problemas socioambientais.

Outro dado interessante que diz respeito à banalização da biodiversidade da caatinga tem relação com a Copa do Mundo. O mascote do Mundial no Brasil foi o tatu-bola, espécie ameaçada de extinção, mas que, em nenhum momento, fez parte de um programa nacional de conservação no nosso País.

Pelo contrário, o esforço de pesquisadores da Univasf (Universidade do Vale do São Francisco) para criação do Refúgio de Vida Silvestre Tatu-Bola, objetivando a proteção do tatu-bola-do-nordeste (Tolypeutes tricintus), chocou-se com uma grande área de criação de caprinos, ao mesmo tempo fonte de renda das famílias e um dos mais graves fatores de impactos do bioma. A proposta não foi levada a cabo. Mesmo tendo sido publicada a criação em Diário Oficial, o estado de Pernambuco recuou dada às pressões de políticos e das famílias que dependem da caprinocultura.

Poderíamos continuar falando das centenas de espécies de peixes e plantas extintas após a construção das barragens no São Francisco, a quantidade de orquídeas e bromélias que desapareceram com as queimadas criminosas na Chapada Diamantina, sem contar a quantidade de aves, mamíferos, répteis e anfíbios que sucumbem frente a intensa atividade de caça ilegal em todo o Semiárido.

Tipificados como vítimas das condições naturais, os moradores da caatinga, semiárido mais populoso do mundo, seus estados de pobreza e miseralização são resultados antes de um processo histórico de marginalização e exploração, e da ausência e insuficiência de políticas públicas estruturais. Os graves problemas socioambientais do semiárido são fabricações do espírito escravagista e colonialista que persiste nas relações de poder do Nordeste e suas vinculações com outras regiões do Brasil.

Assim, para essa civilização resistente da caatinga resta a esperança de que, um dia, o Brasil entenderá a importância de um bioma tão extraordinário e exuberante, que acolhe um contingente de pessoas, plantas e bichos desenhando um País sempre escondido e negado. O tempo de agora é o de sua insurgência pela beleza da sua biodiversidade e força política de seu povo. E isso só será possível quando escutarmos o coração da caatinga.

*Juracy Marques é pós-doutor em Ecologia Humana, professor titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e presidente da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (SABEH).