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De Volta para o Futuro
Lançado em 1985, filme especula sobre como seria o mundo em 2015

Trinta anos se passaram desde a produção da franquia cinematográfica De Volta para o Futuro, concebida pelo cineasta Robert Zemeckis e produzida por Steven Spielberg. Lançados entre 1985 e 1990, os três filmes que compõem a saga desdobrada em videogames, parques de diversão, histórias em quadrinhos e séries de tevê têm o adolescente Marty McFly e o físico nuclear Doc Emmett Brown como personagens principais. O filme parte de uma pergunta aparentemente simples: você seria amigo dos seus pais se os conhecesse na mesma idade que você?


Leia proposta de atividade de Artes inspirada neste texto
Anos do Ciclo: 8° ao 9°
Objetivos de Aprendizagem: Produzir argumentos de cenas para um filme

Possibilidade interdisciplinar: Língua Portuguesa

Proponha aos alunos pensar no futuro pela ótica do cinema: crie roteiros de ficção científica dos próximos 30 anos

1) Em primeiro lugar, faça com seus alunos um mapeamento das questões atuais. Partimos do princípio de que um adolescente de 17 anos entra em uma máquina do tempo para visitar o futuro. Em grupos, os alunos vão discutir quais as principais questões da nossa sociedade: ambientais, de preconceito, de mobilidade urbana, conflitos políticos. Cada grupo deve eleger um aspecto para trabalhar no presente e no futuro.

2) Os alunos podem buscar essas questões entrevistando pais, colegas, parentes, vizinhos; em recortes de revistas e jornais ou notícias da tevê ou da internet. O que os incomoda atualmente no mundo em que vivemos? É possível também propor que os alunos entrevistem pessoas nas ruas sobre o que elas gostariam que mudassem no mundo daqui a três décadas.

3) Com os assuntos determinados por grupos, é hora de criarem pequenas cenas de cinema. Estabeleça que elas devem ter entre duas e cinco páginas, apresentar ao menos dois personagens (o personagem principal e mais alguém com quem ele(a) encontra pelo caminho) e uma invenção ou solução para um aspecto do presente. Estimule a descrição do cenário: como é este ambiente, com que cores, como as pessoas se comportam. Por exemplo: em De Volta para o Futuro, Marty McFly de 1985 quer saber como será a sua lanchonete predileta em 2015. Assim, ele e Doc Brown vão até lá. Enquanto conversam, os dois observam o casal que estranhamente se exercita na bicicleta de spinning enquanto janta. Há um objetivo (Marty, vindo de 1985, deseja ver como está no futuro o lugar que tanto frequenta), uma descrição do cenário, um dialogo entre dois personagens e a introdução de um aparato técnico para uma questão estética e comportamental.

4) Por fim, cada grupo apresenta a sua ideia de futuro. Caso a turma sinta-se interessada, podem filmar um pequeno ato de ficção científica com telefones e/ou câmeras digitais. O objetivo principal é provocar uma discussão sobre que tipo de futuro iremos alcançar.

Munidos de um automóvel DeLorean transformado em uma máquina do tempo, os dois dão início ao experimento com uma viagem de volta aos anos 1950, a década em que os pais de McFly se apaixonaram. Eram os anos da invenção do rock’n’roll, dos filmes de James Dean e de Marlon Brando, de forte expansão econômica no país e do apogeu de um estilo de vida norte-americano. Lembremos que De Volta para o Futuro é um filme produzido em Hollywood na metade da década de 1980, dez anos após o fim da Guerra do Vietnã, conflito que marcou profundamente a opinião pública, e 12 anos após o início da crise do petróleo, catalisador de um severo recesso na economia internacional. Era pertinente, portanto, ao escrever o roteiro de seu longa-metragem e compor o plano de fundo da história, que Robert Zemeckis ressaltasse pontos para relembrar os anos gloriosos do país.

A trajetória de McFly, entretanto, sofre um revés quando acidentalmente ele impede uma jovem de ser atropelada. Revés do destino: a adolescente é a sua mãe, Lorraine, e quem deveria salvá-la é seu pai, George. Sem essa ação do destino, o casal jamais se formaria e McFly, portanto, não poderia existir. E agora? Como recolocar a história no trilho certo, permitir que o casal se forme e que, consequentemente, o herói do filme não desapareça em meio à busca por sua própria trajetória? Entre buracos no tempo, ações inconsequentes e um jogo de xadrez entre passado e futuro, Marty McFly e Emmett Brown terminam por parar nos dias de hoje, em 2015.

O futuro de Marty McFly

Como era o futuro (agora nosso presente) visto há 30 anos? Quais aspectos do mundo poderiam ser previstos e quais poderiam ser inventados? E mais importante: quais são as imagens de futuro que queremos? O cinema de ficção científica é um campo artístico, que na maior parte das vezes termina por nos revelar mais sobre onde estamos e o que de fato queremos, do que necessariamente sobre aonde chegaremos.

O futuro de Marty McFly é o mundo do consumo da informação. Em uma das cenas de De Volta para o Futuro II, McFly embasbaca-se diante de uma tela gigantesca com seis canais simultâneos transmitindo notícias de todo o mundo. Dados atualizados freneticamente, toda a sorte de notícias disparadas à velocidade da luz, um cardápio infinito de canais de televisão disponíveis ao consumidor.

Parece bastante óbvio hoje, depois da revolução midiática pós-tevê a cabo e internet. As fontes disponíveis para se construir conhecimento sobre determinado fato nunca estiveram tão à mão: de enciclopédias virtuais a Wikipedia, de sites de jornalismo aos blogs da mídia alternativa.

No entanto, é necessária uma capacidade progressiva de concentração e foco. Há muita (e cada vez mais) informação disponível. Como distinguir informação de opinião, de publicidade e de consumo ou, ainda mais, como construir uma opinião sólida e embasada, torna-se uma das grandes dificuldades do nosso tempo.

Outro aspecto corriqueiro da nossa vida anunciada pelo filme é a presença dos computadores nas ações mais banais do nosso cotidiano, entre laptops, tablets e telefones. Preciso pagar uma conta? Ora, aqui está meu telefone com os dados do cartão de crédito. Preciso falar com uma pessoa a 10 mil quilômetros de distância? Basta acionar o programa e a imagem aparece na tela.

A comunicação a distância está atualmente sendo trabalhada em mais um nível de expansão da realidade: utilizando, de um lado do mundo, uma câmera 3D, e do outro lado, um par de óculos tridimensionais, é possível visualizar o ambiente filmado como se a pessoa estivesse lá. A tecnologia é utilizada hoje em videogames, mas já é pensada como uma solução mais barata para se estar “presente” no casamento daquele primo que vive em outro país.

Quais as consequências desse amplo uso dos aparelhos tecnológicos na nossa vivência diária e no relacionamento com a família, os amigos, os colegas de trabalho, os vizinhos? Como se dará a comunicação entre pessoas daqui a 20, 30 anos? Assistiremos ao fim do dinheiro, enquanto papel, moeda, cartão de plástico e sua transformação em bytes?

No fim da década de 1980, quando o segundo e o terceiro filmes da franquia foram escritos e dirigidos, o painel geopolítico mundial estava em plena transformação. A Guerra Fria que dividiu o planeta assistia ao seu crepúsculo e uma nova ordem econômica foi estabelecida.

Na 2015 de De Volta para o Futuro, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da comunidade xiita iraniana e Michael Jackson são garçons em hologramas no “Café dos Anos 1980”. O que isso significa?

Talvez fosse um pensamento de que, no futuro, a tensão entre Ocidente e Oriente pertenceria ao passado: líderes nacionais em posições políticas opostas dividiriam calmamente as atenções em um nostálgico restaurante. (A nostalgia para com a década de 1980 foi certeira; no entanto, não podemos concordar com a ideia de que 30 anos depois as divergências políticas entre a América do Norte e o Oriente Médio estariam sanadas.)

Nesse mesmo restaurante, os clientes têm a opção de desfrutar de um saboroso hambúrguer, enquanto queimam as calorias numa bicicleta de spinning. Paranoia ou premonição? O culto ao corpo perfeito e a imposição de um determinado padrão estético certamente são marcas do nosso presente.

Todavia, ainda que a ideia pareça em um primeiro momento tentadora, não há registro de lanchonetes que ofereçam serviços de academia como opção para o jantar. Nos últimos anos, a preocupação excessiva com um determinado padrão estético (e não saudável) provocou um movimento cultural de valorização da autoestima, da saúde e de uma alimentação balanceada, em vez do excesso de fórmulas miraculosas de dieta que explodiram durante a década de 1990 a 2000.

E, apesar de não existir os automóveis voadores nem termos abolido completamente o uso de combustíveis fósseis, a pesquisa acerca das energias renováveis foi expandida consideravelmente. Na cidade de São Paulo, por exemplo, já existem ônibus movidos completamente a energia solar. A consciência acerca da ocupação urbana também se transformou ao longo de três décadas e o inchaço do trânsito nas cidades pelo alto número de automóveis vem sendo questionado.

Além do incentivo ao uso de bicicletas, os países têm repensado a integração entre transportes públicos. A Finlândia, por exemplo, prevê que daqui a dez anos, não terá mais carros particulares em circulação. O projeto de mobilidade urbana deseja unir todo o tipo de transporte – bicicletas, táxis, caronas, trens – a fim de resolver um dos grandes problemas das cidades, a falta de espaço. De Volta para o Futuro parou nos carros elétricos.

O cinema é uma das formas artísticas de compreender e interpretar o mundo em que vivemos, seja por meio de um filme de arte, seja por meio de uma comédia blockbuster. De Volta para o Futuro propôs uma intrigante questão: como queremos os nossos próximos anos? E a partir daí, outra ainda maior se impõe: o que podemos fazer agora para que este futuro aconteça?

*Letícia Simões é cineasta, mestranda em Estudos Contemporâneos da Arte pela UFF