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Nascido em Málaga, na Espanha, Pablo Picasso (1881-1973) é, sem dúvida, um dos mais conhecidos nomes da arte do século XX. Suas questões, paixões e inovações, impressas em sua obra, deixaram importantes marcas e inegáveis influências na história da arte.Sua longevidade (o pintor viveu até os 91 anos!), acompanhada pela ininterrupta produção, colaboraram para sua relação com importantes vanguardas artísticas europeias, assim como para o desenvolvimento de um trabalho e pesquisa bem pessoais. Sua obra, plural, passa por diversas fases, distintas classificações em termos de estilos e constantes variações sobre o mesmo tema.


Leia atividade didática de Artes inspirada neste artigo
Anos do Ciclo: 4° ao 9°
Objetivos de aprendizagem: Reconhecer técnicas e elementos formais utilizados nos objetos culturais apreciados. Comparar objetos: ler e pesquisar acerca do contexto de produção dos objetos culturais.

Explore as principais fases e contextos históricos presentes na obra do pintor
Tempo de Duração: 4 aulas
Possibilidade interdisciplinar: História

1) Selecione obras das mais diversas técnicas, linguagens e períodos da carreira do artista. Apesar de sua extraordinária contribuição como pintor – sendo essa sua linguagem mais conhecida – Picasso também produziu gravuras, esculturas e objetos cerâmicos. Sites de museus e catálogos de exposições, além de livros específicos sobre o artista, são ótimas fontes. Opte por imagens em alta resolução, com dados completos sobre o trabalho: título, data, técnica, material utilizado, dimensões.

2) Faça leituras das obras em parceria com os alunos e permita que eles tragam as impressões e observações iniciais. A partir do que foi levantado, chame atenção para aspectos mais pontuais dos trabalhos: técnica utilizada, materiais escolhidos, aplicação das pinceladas, gestualidade, palheta de cores, composição, representação, estilizações, temas etc. Nesse momento também podem ser discutidas questões técnicas mais específicas, como a diferença entre uma pintura a óleo e uma gravura em metal, por exemplo.

3) Paralelamente às leituras das obras, pontue a relação entre Picasso, o contexto histórico e o ambiente artístico no período do trabalho abordado, aprofundando tais temas (suas fases, os diferentes movimentos, distintos momentos do cubismo, artistas com quem mantinha contato etc.). É importante frisar o quanto as artes são um campo de conhecimento específico, com suas linguagens e questões próprias. Além de suas inquietações pessoais, Picasso respondia, em sua obra, a problemas próprios do meio artístico.

4) Se possível, agende uma visita com o grupo a exposições ou coleções públicas com obras do artista, para apreciação dos originais. Será um grande ganho para os alunos entrar em contato com os trabalhos legítimos já tendo sido preparados em sala de aula. É de extrema importância salientar quão diferentes são as experiências de se relacionar com os trabalhos via reprodução fotográfica e pessoalmente. Questões de ordem métrica, de proporção e de percepção por vezes se transformam quando dada esta passagem.

Tais características o tornam indispensável em sala de aula. Sua obra apresenta questões fundamentais para a aproximação entre alunos e arte moderna e contemporânea, tanto no que diz respeito à visualidade quanto nas heranças práticas e teóricas. Uma ótima oportunidade de entrar em contato com sua produção é a exposição Picasso e a Modernidade Espanhola – Obras da Coleção do Museu Nacional de Arte Reina Sofia, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo até junho.

Muito conhecido por sua fase cubista, Picasso teve uma formação artística inicialmente conservadora. Desde cedo, demonstra seu talento e interesse pelo mundo das artes e pinta seu primeiro quadro aos 8 anos de idade. Seu pai, José Luiz Blasco, professor de Desenho, dedica-se à sua formação no intuito de que o filho tenha uma carreira acadêmica. Em seu período inicial de estudos, entre 1892 e 1898, Picasso frequenta cursos tradicionais de arte em La Coruña, Barcelona e Madri, preferindo, posteriormente, visitar o Museu do Prado – onde teve oportunidade de entrar em contato com os grandes mestres da pintura espanhola, em vez de assistir às aulas.

Quando retorna a Barcelona, em 1899, envolve-se com os círculos de vanguarda. Instala ateliê em meio ao fervor do Modernismo Catalão, que alcançava seu apogeu financiado por uma burguesia enriquecida e influenciado pelas ideias trazidas de Paris – então o mais importante polo cultural europeu – pelos artistas espanhóis que lá passavam temporadas.

Em 1900, buscando novas referências e experiências, Picasso faz sua primeira viagem à capital francesa, ao lado do amigo Carles Casagemas. No local, a dupla instalou um ateliê e Picasso encontrou seu primeiro marchand e mecenas: o industrial catalão Pere Maniac.

Entre 1900 e 1904, faz ao menos três viagens entre Espanha e Paris – onde já tinha sido convidado a expor na galeria do importante marchand Ambroise Vollard, fixando-se definitivamente na cidade em 1904. Essa fase coincide com o momento de sua obra denominado “O Período Azul”. Sua produção, até então dominada por temas como a boemia e a vida mundana, ganha forte carga de melancolia, miséria e desespero, que refletem tanto o momento psicológico do pintor (Casagemas suicida-se em 1901, causando grande dor em Picasso) e suas consequentes questões sobre vida e morte quanto a sociedade burguesa da época e sua exclusão, no que diz respeito à miséria dos pobres e explorados.

A fria monocromia azul é predominante nas pinturas do período, conferindo dramaticidade à composição, com apenas algumas pinceladas de cor que reavivam as telas. O desenho é discreto, severo e seguro de si, por causa da autenticidade de sentimento.

O ano de 1904 também é o que Picasso conhece Fernande Olivier. Grande paixão e primeira mulher a compartilhar sua vida, Fernande foi objeto de inspiração para o artista. A felicidade conjugal é um respiro à dor dos anos anteriores. Picasso reconhece em Fernande uma forte figura sensual, retornando assim à vida e ao amor. Juntos instalam-se em Montmartre, bairro boêmio da capital francesa. É o início do “Período Rosa”. A partir desse momento, as pinturas, até então pálidas e sombrias, ganham mais alegria, leveza e erotismo.

No mesmo período, o pintor frequenta o circo e nele se inspira para criar suas novas obras. Arlequins e saltimbancos povoam seus quadros, porém, não são mais indivíduos representados, passam a ser tipos. Mais preocupado com a resolução de problemas puramente pictóricos, Pablo Picasso começa a significar mais do que reproduzir. A gama de cores é mais variada, os tons mais suaves e luminosos. Predominam o vermelho-pálido e o rosa.

Em 1906, viaja a Gosol, pequena aldeia da Cataluña. Lá se impressiona com a imagem de uma virgem românica do século XII, por sua estilização e síntese formal. Tal experiência transforma sua arte, afastando-o das questões naturalistas e direcionando-o para a solução de problemas de pura ordem plástica. Ao retornar a Paris, conclui o Retrato de Gertrude Stein sob tal influência. O rosto da modelo é solucionado como uma máscara, geometrizado, acentuando seus traços essenciais.

Em 1907 conhece o pintor francês Henri Matisse, que chama sua atenção para a dita “arte negra”, despertando em Picasso o mesmo interesse e impacto estético que a virgem de Gosol. Visita museus de etnologia e começa sua própria coleção de esculturas “primitivas”. Com isso, a preocupação com a estilização e simplificação das formas se fortalece.

A famosa pintura Les Demoiselles d’Avignon já havia sido iniciada. É o prenúncio do cubismo. Nela há um encaixe geométrico dos planos e diferentes pontos de vista são condensados em uma imagem – seja em um rosto ou corpo. A perspectiva tradicional é descartada e não há mais esforço naturalista.

O impacto desta tela no meio artístico próximo a Picasso é enorme. Pintores que orbitavam e conviviam com o artista catalão foram incitados a experimentar esse novo tratamento de planos e volumes propostos pelo artista. Um deles é Georges Braque, que abraçaria o cubismo pouco tempo depois. Com o tempo, a pesquisa cubista dividiu-se em diferentes frentes: o cubismo cézanniano (1907-1909), o cubismo analítico (1909-1911) e o cubismo sintético (1912-1914). Em 1914, o início da Primeira Guerra Mundial põe fim ao movimento.

A partir de 1917, Picasso inicia o seu “Período Clássico”, retornando à linha, ao desenho e à figuração, paralelamente a alguns trabalhos do “Cubismo Sintético”. Neste ano viaja para a Itália, na companhia de Jean Cocteau, para colaborar com cenários e figurinos da trupe do Balé Russo. Nesse período, conhece Olga Kokhlova, sua nova musa, com quem se casa em 1918. Em Roma, descobre a arte clássica e suas obras do período são figuras escultóricas, monumentais, que revisitam temas ligados à mitologia.

Pouco depois, em 1925, a pintura de Picasso passa a apresentar uma transgressão formal e moral: as cores são berrantes, os corpos são deformados, desmembrados, há violência, erotismo e paixão. Nesse momento, reaparece em sua obra a figura do touro (ou Minotauro) como duplo do artista e metáfora para brutalidade e luta. Também surge como reconhecimento da animalidade do homem – animalidade esta ainda mais evidenciada em tempos de guerra.

A ascensão de governos totalitários na Europa antes da Segunda Guerra Mundial (1938-1945) trouxe também mudanças para a postura do artista catalão. Antes da eclosão da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), conflito deflagrado entre os adeptos da democrática república espanhola e de nacionalistas liderados por Francisco Franco, Picasso não se pronunciava sobre questões políticas, seja em suas obras, seja em declarações pessoais.

Em janeiro de 1937, porém, realiza uma série de gravuras intitulada Sonho e Mentira de Franco, denunciando as violências perpetradas pelos fascistas na Espanha. Tal série já apresenta elementos formais e simbólicos que anunciam a obra-prima Guernica, realizada em 1937. Naquele ano, Picasso havia aceitado a encomenda do governo da Espanha para realizar uma pintura a fim de decorar o pavilhão do país na Exposição Universal de Paris, de 1937.

Quando recebe a notícia do bombardeio à cidade de Guernica, porém, imediatamente decide que este será o tema de sua pintura.  Realizada em tons de preto e branco, a obra retrata o horror da guerra. As cores e deformações dos personagens trazem forte apelo expressionista: tragédia, dor e sofrimento são manifestados dessa forma. Trata-se de uma cristalização de temas surgidos alguns anos antes – o par formado por touro e cavalo, os personagens de corpos desmembrados, o guerreiro alongado –, mas é desprovida de todo elemento narrativo, a fim de constituir uma pura imagem de terror. Durante a Segunda Guerra Mundial, com ateliê fixado em Paris, Picasso produz abundantemente. As naturezas-mortas desse período evocam suas dificuldades e angústias.

No pós-Guerra, experimenta a tranquilidade dos tempos de paz e o prazer de nova estrutura familiar. Vive com Françoise Gillot, com quem tem dois filhos: Claude e Paloma. Nessa fase, explora a cerâmica e revisita obras dos grandes mestres da pintura ocidental, como Delacroix, Manet, Poussin e Velázquez.

A partir de 1966, em sua fase final, dedica-se a uma pintura emancipada, que extrapola os limites do bom gosto, tanto nos temas marcados por uma forte carga sexual – os nus ou os beijos – quanto na técnica de tinta escorrida, empastada, borrada, pelo desprezo ao belo ofício do pintor e pela estridência de cores. Morre em abril de 1973, aos 91 anos, na França.

Pablo Picasso deixou-nos um legado vasto e importantíssimo, no que diz respeito a soluções e inovações plásticas e intelectuais. Sua produção é de uma complexidade e coerência difícil de abarcar em poucas linhas, e essa é uma de suas qualidades: o fascínio que desperta permite que sua obra mantenha-se viva, sendo vista e revista em diferentes tempos, por distintas óticas e perspectivas.


Exposição Picasso e a Modernidade Espanhola – Obras da Coleção do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia.

Site Fundação Picasso
Museu Picasso de Paris