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Pássaro-cetim

Na natureza, os animais que existem atualmente são, na verdade, sobreviventes adaptados às diversas mudanças ocorridas ao longo dos anos, cuja capacidade de evitar predadores e obter o alimento necessário lhes permitiu gerar o máximo possível de descendentes. Uma das características mais interessantes decorrentes desse processo são as habilidades construtoras observadas em insetos sociais – como as formigas ou os cupins – e em algumas aves, como o joão-de-barro.



Leia atividade didática de Ciências inspirada neste texto
Anos do Ciclo: 2º ao 4º
Tempo de Duração: 4 a 6 aulas
Possibilidade interdisciplinar: Geografia e Artes
Objetivos de aprendizagem: Identificar comportamentos dos animais, associando-os à necessidade de sobrevivência

1)Identificar as principais técnicas de construção de ninhos e associá-las às espécies de aves. Enfatizar os membros da avifauna brasileira, promovendo um maior contato dos alunos com as espécies que ocorrem em sua região. Realizar uma pesquisa sobre a ocorrência (distribuição geográfica) das espécies que estão sendo trabalhadas em sala com o intuito de incentivá-los a procurar os ninhos em ambientes naturais onde vivem.

2)Realizar aula prática que tenha como objetivo construir réplicas dos ninhos tratados na aula teórica. São sugeridos diferentes modelos: a) O ninho do joão-de-barro, que pode ser feito com argila, ou incentivar os alunos a observar a ave e identificar o tipo de barro que a mesma utiliza, para assim coletar o mesmo material. b) Ninhos de membros da família Icteridae, que constroem cestos suspensos e longilíneos trançando material filiforme (palha seca, capim ou fibras de folhas de palmeiras podem ser utilizadas na réplica). c) Ninhos de gravetos, típicos de algumas espécies que também pertencem à família do joão-de-barro (Furnariidae). d) Ninhos simples utilizados pela maioria dos pássaros, em forma de cesto, feito com uma grande variedade de materiais (ex.: líquens, briófitas e capim seco, entre outros).

3)Associar as técnicas empregadas na natureza pelas formigas, abelhas, marimbondos, aranhas coloniais e aves silvestres com a arquitetura contemporânea. Exemplificar a relação com obras de engenharia baseadas em estruturas utilizadas por esses animais. Agregar o aspecto histórico e cultural de populações antigas com técnicas de engenharia utilizadas atualmente por meio da progressão do conhecimento arquitetônico que ocorreu ao longo do tempo (citar habitações indígenas, de comunidades incas, astecas, maias e romanas, entre outras).

A seleção natural (teoria de Charles 
Darwin que explica o surgimento das espécies) permite que os indivíduos mais adaptados a certas condições do hábitat espalhem mais seus genes em uma população, em comparação com outros que não contam com determinadas vantagens.

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Vários exemplos podem ser citados, como uma ave de plumagem semelhante ao galho no qual costuma pousar. Assim, permanece camuflada e não é encontrada pelos predadores, contando com mais estações reprodutivas do que outras. Os animais que não contam com técnicas apuradas de proteção são facilmente consumidos por seus predadores ou acabam morrendo por inanição, sendo eliminados da população e, consequentemente, não gerando descendentes.

Basicamente, duas formas principais de reprodução predominam na natureza. Na primeira, animais produzem uma imensa quantidade de ovos, dos quais quase a maioria será consumida por outras espécies antes mesmo de atingirem uma semana de vida. Nesse caso, a quantidade é importante para se assegurar que alguns alcancem a idade adulta e continuem disseminando os genes na população. Para estes animais não existe cuidado parental, ou seja, os ovos são despejados no ambiente para que sobrevivam os mais capazes. A outra é encontrada em animais que produzem uma pequena quantidade de ovos ou filhotes, cuidando deles até que atinjam certa maturidade e independência. E, para esse grupo de espécies, um local seguro para a criação de seus filhotes é essencial para se obter sucesso reprodutivo.

Devido à imensa diversidade de espécies, e suas mais variadas técnicas de obtenção de alimento, o risco de haver predação de ovos ou filhotes é grande. Por essa razão, a escolha de um local apropriado e a construção de um bom ninho são fatores muito importantes envolvidos na perpetuação da espécie.

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Alguns animais utilizam estruturas bastante simples durante a época reprodutiva, depositando os ovos no solo, cavando buracos na areia ou amontoando rochas disponíveis no entorno. Outras, porém, constroem verdadeiras obras complexas para assegurar a segurança da prole ou de sua colônia. É o caso dos insetos sociais, como formigas, abelhas e marimbondos, e algumas espécies de aves passeriformes.

Os ninhos das formigas são considerados por alguns autores como os mais sofisticados da natureza. Subterrâneos, contêm muitas galerias e as mais variadas conexões entre elas. Sua construção exige bastante tempo e um número grande de operárias, que trabalham constantemente de forma muito organizada. Um dos principais cômodos do ninho é o local em que o material vegetal colhido pelas formigas para obter seu alimento é depositado.

Nessa cavidade existe um fungo simbionte responsável por processar os fragmentos de folhas trazidos pelas operárias. Outras cavidades são escolhidas como local de depósito de matéria indesejada, como se fossem os lixões das cidades. Dessa forma, a matéria orgânica que não está sendo convertida em alimento acaba concentrada apenas em cavidades específicas, mantendo a limpeza das galerias. Os formigueiros ainda contam com cavidades vazias, chamadas de cômodos de reserva.

Abelhas e marimbondos também constroem estruturas coloniais chamadas de colmeias ou cachopas, respectivamente. Estas são menos complexas que os formigueiros, porém, contam com a mesma eficácia contra predadores e intempéries climáticas. A maioria das abelhas sem ferrão nativas do Brasil, conhecidas como meliponídeos, utiliza ocos de árvores como ninhos, construindo uma abertura de cera em forma de sifão, por onde ocorre a entrada e a saída das abelhas que compõem a colônia.

Estruturas muito complexas e igualmente dispendiosas são também construídas por algumas aves silvestres. Talvez a mais conhecida seja o joão-de-barro (Furnarius rufus): seu ninho é uma estrutura esférica feita de barro, cuja entrada possui uma parede curva que impede o acesso de alguns animais de maior porte. Geralmente, alguns fatores são levados em conta na construção do ninho, como o tipo de barro utilizado como matéria-prima, a direção da abertura para evitar o sol em excesso ou a chuva, entre outros. Alguns membros da família à qual o joão-de-barro pertence (Furnariidae), porém, constroem ninhos tão interessantes quanto e são praticamente desconhecidos pela população.

O graveteiro (Phacellodomus ruber), por exemplo, é uma espécie típica do Pantanal que coleta dezenas de gravetos, geralmente da mesma espessura, entrelaçando-os para produzir uma grande estrutura ovalada, oca, na qual existe um pequeno orifício de entrada. Para maximizar a proteção do ninho, às vezes a espécie utiliza gravetos espinhosos e o constrói em estruturas artificiais, como os postes de luz.

O curutié (Certhiaxis cinnamomeus) também vive em brejos em diferentes regiões do País e constrói um ninho semelhante, que chama a atenção por suas dimensões em relação ao tamanho da ave (que possui cerca de 12 centímetros).

Outras aves que desenvolveram exímias habilidades construtoras são representantes da família Icteridae (tecelões, guaxos, japus, xexéu e outros). Elas coletam material filamentoso como capins secos, pelos de animais ou liquens para construir um cesto longilíneo que fica pendurado na extremidade dos galhos mais altos das árvores. A escolha desses galhos justifica-se pela impossibilidade de animais arborícolas pesados chegarem até sua ponta.

O primeiro passo da construção do ninho é o nó principal que irá sustentá-lo. Com extrema habilidade no bico em forma de cone que os representantes dessa família possuem, eles trançam centenas de vezes o material que coletam até formar uma estrutura em forma de gota, cuja abertura se localiza na parte superior. É um trabalho tão dispendioso quanto confeccionar uma blusa de crochê, sem agulhas.

Outra ave que merece ser mencionada é o pássaro-cetim (Ptilonorhynchus violaceus), também conhecido como satin-azul (Satin Bowerbird), que vive na costa leste da Austrália. Essa espécie possui um interessante comportamento de corte pré-nupcial. O macho seleciona um solo um local que será sua arena de exibição. Nele constrói uma estrutura formada por ramos coletados da vegetação nativa. Essa estrutura é formada por duas paredes paralelas com um espaço entre elas, onde o macho executa suas danças de exibição para as fêmeas que visitam a arena.

Além disso, o macho enfeita o local com todos os objetos de coloração azul que encontra, desde sementes até pedaços de sacos plásticos e tampas de garrafa. Essa estrutura é tão bem construída e interessante aos olhos do observador que foi utilizada pelos arquitetos como inspiração para a construção de um dos cartões-postais australianos mais conhecidos: a Opera House.

*Rapahael E. Fernandes Santos é biólogo e diretor da empresa Fieldwork Consultoria Ambiental