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Em 2050, seremos 9 bilhões de pessoas no mundo. Como alimentar toda essa gente sem gerar uma catástrofe ecológica? Se fosse com bife, seria necessário dobrar o tamanho das áreas de criação animal, o que aumentaria o desmatamento e a emissão de gases de efeito estufa. A ONU fez então uma nova sugestão de cardápio para vencer a fome no mundo: comer insetos! Em um relatório divulgado em maio de 2013, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) defende a criação em larga escala desses e outros invertebrados, fontes rica e baratas de proteína, para garantir a segurança alimentar da humanidade.


A princípio, parece indigesto imaginar um prato com besouros, escorpiões, abelhas, grilos e gafanhotos. Mas a verdade é que esses bichinhos já fazem parte da história alimentar do homem. A própria Bíblia descreve a jornada de João Batista proclamando o Evangelho no deserto e sobrevivendo consumindo praticamente mel silvestre e gafanhotos. Esse hábito também era muito comum e apreciado entre os povos indígenas do Brasil.

Quando os colonizadores aqui chegaram, ficaram admirados com a alimentação dos nativos. O Padre Anchieta descreveu que, em determinada época do ano, os índios ficavam eufóricos para colher o que eles chamavam de “frutos que vinham do céu”. Na verdade, eram formigas com o abdome avantajado, popularmente conhecido como “bundinha grande”. São formigas grandalhonas que podem ter até 2,5 centímetros. Segundo a lenda indígena, uma cobra pequena ensinou aos índios o quanto saboroso era esse inseto.

Tais formigas, também chamadas de tanajuras ou içás, ainda são consumidas por muitas pessoas em várias regiões do Brasil. O modo de preparo pode variar bastante (veja na página 52). No livro Caminhos e Fronteiras, Sérgio Buarque de Holanda escreveu: “A içá torrada venceu todas as resistências, urbanizando-se mesmo, quase tão completamente como a mandioca, o feijão, o milho e a pimenta-da-terra. Pretendeu-se que os jesuítas, no intuito de livrarem as lavouras da praga das saúvas, tivessem contribuído para disseminar entre os paulistas o gosto por essa iguaria”.

Em algumas regiões do Brasil, a içá é torrada, moída e usada como chá para combater a amidalite e qualquer outro tipo de irritação da garganta. No estado do Ceará, os pratos com formigas são considerados afrodisíacos (existe uma relação da tanajura com o corpo da mulher, ou seja, cintura fina e ancas largas).

Não é fácil capturar as içás, elas saem em revoada apenas nos dias mais quentes do ano e, principalmente, no período mais abafado após as chuvas. Tem ferrões grandes e fortes que provocam cortes doloridos nas mãos dos seus caçadores.

Em algumas cidades do interior de São Paulo, essa prática é ainda muito comum e difundida. Um exemplo são as cidades do Vale do Paraíba, que desde tempos remotos usam essa prática. Em carta a uma prima moradora de Taubaté, Monteiro Lobato já dizia que a içá era como um caviar: “Recebi a latinha da içá torrada… Para mim foi muito bom, porque me rendeu o bilhetinho com o pedido, em troca da içá, de um pensamento sobre a içá… A sugestão me perturbou, porque nunca no mundo ninguém jamais ‘pensou’ sobre a içá – e pelo jeito é realmente coisa ‘impensamentável’. Mas, já que me pede, faço um esforço e digo que a içá é o caviar da gente taubateana”.

Algumas pessoas descrevem o gosto como semelhante ao dos crustáceos, como um camarão, por exemplo. Outros comparam o sabor como semelhante ao do gengibre, do cravo, ou parecido com a menta ou a hortelã, o que se deve ao ácido fórmico presente no corpo das formigas.

As içás são fêmeas do grupo das saúvas e comê-las não faz mal à saúde, elas são limpas e não possuem veneno. Cortam folhas e levam ao formigueiro, onde será cultivado um fungo, seu único alimento. Algumas lendas dizem que elas vivem em cemitérios para se alimentar de cadáveres, ou que comem animais em putrefação e até lixo. Pura bobagem: são animais limpos e saudáveis, ricos em sódio, potássio, ferro e cálcio.

Para se ter uma ideia do potencial nutritivo das içás, elas têm 44% de proteína. As carnes bovina e de frango possuem, respectivamente, 23% e 20% (veja na pág. 37 a quantidade de  proteína de outros bichos e alimentos). Também são ricas em gordura poli-insaturada, semelhante às encontradas nos peixes e nas sementes oleosas, muito diferentes das gorduras da carne bovina, por exemplo.

Se, com todas essas vantagens, você ainda torce o nariz e faz cara de nojo, saiba que não é só de formigas que as pessoas se alimentam. Muitos outros insetos são apreciados pelo mundo afora. Alguns têm uma aparência nada atrativa. É o caso das larvas mopanes, adoradas por muitas tribos do Zimbábue. São grandes taturanas encontradas nas árvores e coletadas por diversas famílias, que retiram o conteúdo verde e viscoso e deixam o inseto secar ao sol. Elas são consumidas com farelo de milho cozido, com molho ou crocantes como batatas fritas. Outras larvas são encontradas dentro das palmeiras e são muito consumidas em países como  Papua-Nova Guiné, Malásia e Nigéria. São larvas grandes e gordas, ingeridas cruas. Dizem que, fritas, têm gosto de bacon! Pelo menos é o que dizem. Já no Brasil algumas pessoas do Norte e Nordeste consomem o besouro do coqueiro, encontrado nos coquinhos do babaçu. Ele é consumido natural ou com farinha de mandioca.

Calcula-se que 120 países diferentes consumam insetos variados. Entre as vantagens estão o fato de serem alimentos ricos em nutrientes, de baixo custo e sustentáveis. São necessários 2 quilos de ração para produzir 1 quilo de insetos, enquanto o gado requer 8 quilos de alimento para produzir 1 quilo de carne. O consumo de água e grandes áreas também não são necessários.

No entanto, deve-se prestar muita atenção nesse consumo de insetos. Não podemos sair por aí coletando tudo que vemos. Muitos são tóxicos e outros podem estar contaminados. O que alguns órgãos apoiam é a produção de insetos em criadouros credenciados e fiscalizados. Existem maneiras corretas de preparo e a princípio a produção poderia ser de insetos desidratados e em forma de farinha, para ser acrescentada na alimentação carente de algumas populações mundiais.

Outro perigo é a produção aventureira de alguns criadores, pois insetos de determinadas regiões do mundo, quando trazidos para um local, podem causar problemas irreparáveis. Um exemplo são as abelhas africanas que foram trazidas para o Brasil com o intuito de cruzar com as abelhas europeias, já que as africanas produzem maior quantidade de mel. O que aconteceu é que as abelhas chamadas africanizadas se espalharam por todas as Américas, causando acidentes, inclusive fatais, já que essa espécie é bem mais agressiva.

Quando bem projetado, o estudo referente à produção e ao consumo de insetos pode ser uma boa alternativa. O maior bloqueio é cultural, mas se pensarmos que camarões, por exemplo, são animais que naturalmente se alimentam de outras espécies mortas e que milhares de pessoas os consomem… O peixe cru também não foi muito bem recebido no Ocidente, embora seja muito popular no Japão. Hoje é muito consumido em diversos países. Por outro lado, alimentos populares no Ocidente, como o queijo gorgonzola, cheio de fungos, não são bem aceitos no Oriente até hoje! No entanto, é bem provável que as futuras gerações ultrapassem essa barreira cultural: um patê de formigas, um grilinho cristalizado ou outro bichinho bem preparado têm tudo para estar presentes na mesa de muitos restaurantes em um futuro bem próximo. Bom apetite a todos!