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Arqueologo trabalhando
O trabalho de campo é apenas uma das etapas do trabalho do arqueólogo

Desafios mortais, perigos constantes, busca por tesouros e uma vida repleta de aventuras. É muito difícil dissociar essas características da figura do “arqueólogo” do imaginário da maioria das pessoas.


Embora possa remeter aos primórdios da Arqueologia, com suas origens (em sua fase pré-científica) no antiquarismo e no colecionismo, essa imagem “hollywoodiana” pouco tem a ver com o que fazem os profissionais arqueólogos nos tempos modernos, que seriam mais bem representados por personagens cotidianos, como um cientista, um investigador ou um perito forense, por exemplo, dotados de diferentes habilidades técnicas e intelectuais.

Leia atividade didática inspirada neste tema 

Anos do ciclo: 4º ao 7ª

Área envolvida: Ciência

Possibilidade Interdisciplinar:
História e Geografia

Tempo de duração:
5 aulas

Objetivos de aprendizagem:
Por meio de uma simulação, relacionar a história geológica do planeta à datação de vestígios de ocupação de sociedades humanas passadas

Lista de materiais necessários: recipiente cúbico ou retangular, de paredes translúcidas (um aquário), quatro tipos de solo (cerca de 3 quilos de cada – o valor dependerá do tamanho do recipiente), com diferentes características (por exemplo, areia, terra adubada, terra comum e uma mistura de duas das anteriores), objetos variados, como algumas moedas, pedrinhas de diferentes tamanhos e algum objeto mais “complexo” (uma boa sugestão é utilizar algum esqueleto de brinquedo – no mercado existem boas opções para representações de esqueletos humanos e de animais em miniatura), colher de pedreiro, balde, peneira de jardinagem, pá de lixo, pincéis e trenas. atividades

1) Cada tipo de solo apresentará um tipo de objeto. Por exemplo: a areia não terá nenhum conteúdo, a terra adubada terá pedrinhas, a terra comum terá moedas e a mistura de terra adubada terá pedrinhas e moedas. outros esquemas podem ser planejados.

2) O professor depositará cada tipo de solo, com os seus conteúdos característicos, de cada vez no recipiente, distribuindo-o de maneira igualitária e ocupando toda a superfície.

3) Entre os eventos de deposição novos objetos (os esqueletos, por exemplo) podem ser depositados e soterrados.

4) Os alunos devem ser estimulados a observar como o evento de deposição dos solos resulta na formação de camadas estratigráficas.

5) A escavação por decapagem, a retirada de finas fatias de solo, com o uso da colher de pedreiro e pincel, deve ser iniciada, com a retirada dos solos escavados com o auxílio da pá e do balde. os solos devem ser peneirados.

6) Os objetos encontrados durante a escavação devem ser evidenciados e registrados anteriormente à sua remoção, e consequente prosseguimento da escavação. Para o registro, utilize desenhos.

7) Os objetos devem ser referenciados por algum tipo de coordenada. Utilize a trena para estabelecer um sistema cartesiano na área de escavação.

8) Os resultados devem ser quantificados. O que foi encontrado em cada camada, evidenciado e na peneira. Podem ser construídas tabelas informativas contendo esses dados.

9) É importante que seja destacada a complexidade de uma escavação e os diferentes conhecimentos empregados na execução da atividade.

Ossadas araguaia
No Tocantins, ossadas de supostos
guerrilheiros do Araguaia

 

A Arqueologia, a partir de sua fase científica, é uma ciência em constante desenvolvimento e construção, que constitui um dos quatro grandes campos da Antropologia. Como tal, seu principal objetivo é o estudo das sociedades humanas, com ênfase na investigação e reconstituição histórica do passado.

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Suas principais fontes de informação distribuem-se em intervenções de campo, nas quais são coletados os dados que fomentarão as pesquisas com o intuito de estudar as sociedades humanas passadas por meio dos vestígios de suas ocupações.

Assim, as evidências utilizadas para as investigações arqueológicas podem ser de diversas naturezas, como registros fotográficos ou audiovisuais, ruínas de edificações, naufrágios, restos de moradias ou acampamentos, sepultamentos humanos, ferramentas de trabalho e suas áreas de produção, restos alimentares, áreas de descarte, grafismos rupestres e artefatos cerâmicos, entre outros objetos e indícios das atividades cotidianas, constituindo uma enorme gama de materiais de pesquisa.

Atualmente, no Brasil, a profissão de arqueólogo é comumente exercida, basicamente, em duas frentes de trabalho: a Arqueologia acadêmica, relacionada às universidades e centros de pesquisa, e a Arqueologia preventiva, relacionada aos procedimentos de licenciamento ambiental que regem as atividades econômicas com potencial risco de dano ao meio ambiente e ao patrimônio cultural.

Embora difiram em uma característica importante, a motivação inicial do trabalho (a primeira visa o enriquecimento teórico-metodológico da disciplina, enquanto a segunda possibilita a tomada de decisões para que projetos desenvolvimentistas não coloquem em risco ou mitiguem os danos ao patrimônio cultural representado pelos bens arqueológicos), ambas as frentes objetivam compreender os processos de formação do passado e do presente humanos.

Evidências enterradas

Artefatos arqueologicos
Fragmentos de
cerâmica encontrados
em São Vicente
remontam à história
açucareira de 1600

As escavações ocupam um lugar de destaque nas investigações e pesquisas realizadas por esse profissional, uma vez que constituem uma etapa imprescindível na busca por vestígios arqueológicos que não estejam diretamente visíveis na paisagem. Normalmente, como o ambiente está em constante transformação, quanto mais antigo são os vestígios arqueológicos, maior a possibilidade de que serão encontrados e estudados apenas a partir de intervenções possibilitadas por meio de escavações arqueológicas sistemáticas.

A escavação arqueológica é normalmente executada com o auxílio de alguns instrumentos, dos quais colheres de pedreiro, pás, pincéis, baldes, peneiras e trenas são indefectíveis.

No entanto, algumas situações enfrentadas pelo arqueólogo durante as escavações exigem a utilização de diferentes equipamentos, desde os mais rústicos, como enxadas e cavadeiras articuladas, por exemplo, até os mais sofisticados, como aparelhos de GPS e taqueômetros (instrumento eletrônico, também conhecido como “estação total”, utilizado para a medição de ângulos e distâncias, normalmente por intermédio de um sistema de scanner eletro-óptico, com precisão que pode chegar a 0,1 milímetro).

Um exercício simples, porém, pode demonstrar por que, conceitualmente, uma escavação arqueológica é uma fonte de dados tão rica e complexa. Para isso, imaginemos um recipiente, como um aquário retangular, por exemplo, cujo interior fosse sucessiva e uniformemente preenchido por solos, de diferentes características e conteúdos (considerando, como conteúdos, objetos que representem vestígios arqueológicos).

O que veríamos ao olhar através da parede do aquário, após alguns “eventos” de deposição, seria a formação de camadas diferenciadas pelas características e conteúdos dos solos depositados. No mundo real, essas são as chamadas “camadas estratigráficas”, cujo estudo, a estratigrafia, é um importante aliado das investigações arqueológicas.

Continuando o exercício proposto, a manipulação, ou escavação, do solo do “aquário estratigráfico” revela importantes características do processo de investigação a partir de uma escavação arqueológica. Por exemplo, uma preciosa informação pode ser depreendida por meio da posição estratigráfica em que cada objeto é evidenciado.

Por causa do princípio da superposição, sabemos que, desde que não tenha ocorrido nenhum tipo de perturbação pós-deposicional, objetos encontrados em camadas estratigráficas mais profundas são relativamente mais antigos que os encontrados em camadas mais superficiais.

Também é possível perceber por intermédio da escavação do modelo proposto que a necessidade de se registrar a relação espacial entre os diferentes objetos encontrados, considerando-se sua posição em termos dos eixos Norte-Sul, Leste-Oeste e uma profundidade em relação à superfície.

Finalmente, mas não menos importante, a manipulação do modelo aqui proposto demonstra um conceito fundamental aplicado à Arqueologia: escavações arqueológicas são destrutivas e, como tal, devem ser rigorosa e ricamente controladas e documentadas, uma vez que, depois de escavadas as estruturas, elas deixam de existir. Para tanto, os arqueólogos lançam mão de fotografias, vídeos, desenhos e fichas de escavação, nas quais todo o trabalho realizado é descrito e quantificado.

Estudo dos remanescentes arqueológicos

Não bastasse todo o trabalho de campo, no qual, além da exumação e do registro dos vestígios escavados, ocorre o levantamento de informações complementares para a interpretação cultural dos vestígios encontrados, o arqueólogo destina grande parcela de tempo de pesquisa às atividades de laboratório ou gabinete.

É nessa etapa que os vestígios de cultura material são reconstituídos e analisados, empregando técnicas de diferentes especialidades necessárias para os estudos desses vestígios. Em gabinete, ainda, o arqueólogo deve preocupar-se em refletir sobre as implicações de suas pesquisas e divulgar seus resultados, tanto para a comunidade científica (ou diretamente interessada na pesquisa) quanto para o público em geral.

Nesse sentido, atualmente, existe entre os arqueólogos a preocupação em promover, após os estudos, a devolução dos bens culturais, juntamente à divulgação do conhecimento gerado a partir deles, às comunidades localizadas nas áreas de origem desses vestígios. Para tanto, é imprescindível que todas as esferas envolvidas, públicas e privadas, fomentem a criação, e a manutenção, de museus, instituições de pesquisa e projetos de educação e valorização patrimonial.