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Geleira

Distante, isolado, frio. No continente antártico tudo  é extremo. Situado no Polo Sul, esse continente recobre terras interiores ao Círculo Polar Antártico. É imenso, cerca de 12,5 milhões de quilômetros quadrados, o que equivale a quase 8,5% das terras emersas do planeta.


Não possui vizinhos, está rodeado pelo Oceano Austral, responsável pela formação das águas de fundo (cientificamente chamadas de Água Antártica de Fundo). Essas águas são frias,
com temperaturas inferiores a zero grau, densas, se espalham pelo fundo oceânico e são exportadas para outros mares, por causa da comunicação livre que o Oceano Austral tem com os demais: Atlântico, Índico e Pacífico. Recorde de frio, a temperatura mais baixa já registrada na Terra foi na estação russa de Vostok, -89,2 graus em julho de 1983.


Leia atividade didática de Geografia inspirada neste texto
Anos do ciclo: 4° ao 9°
Possibilidade interdisciplinar: Ciências
Tempo de duração: 5 aulas
Objetivos de aprendizagem: Reconhecer a dependência entre os seres vivos. Compreender as transformações humanas na Terra. Ler mapas sobre as características geográficas das regiões polares. Utilizar a escrita, observação, leitura e registro em procedimentos de pesquisa.

1. Peça aos alunos que façam uma pesquisa prévia sobre as características geográficas das regiões polares. Como temas a serem investigados, sugira a localização, a zona climática da terra e as características físicas. Os alunos devem escrever sobre esses tópicos. Na sala de aula, inicie uma discussão com os elementos trazidos pelos estudantes para introduzir a descrição geográfica dos polos. Insista nas características extremas do clima, sobre o balanço de energia e antes de abordar a questão das mudanças climáticas fale sobre a existência do ciclo sazonal de gelo, no inverno e degelo, no verão. Banquisa ou geleira?

2. Depois proponha um trabalho em grupo. Divida a classe em dois grupos, cada um terá uma atividade definida: um deve apresentar a geografia do Ártico, o outro da Antártida. Distribua atlas escolar, coloque à disposição da classe um globo terrestre e outros livros sobre o assunto emprestados na biblioteca da escola ou disponíveis na internet. Em um quadro, defina os tópicos a serem apresentados pelos grupos, como, por exemplo, localização nos hemisférios, clima e zona climática, onde se encontra a massa de gelo (a banquisa no mar, a geleira no continente), mudanças sazonais, fauna, presença humana etc.

3. Depois da apresentação de cada grupo, estimule uma análise comparativa onde os dois grupos devem participar. Utilize o quadro elaborado anteriormente para pautar a discussão e pergunte quais são as características semelhantes e diferentes entre o Ártico e a Antártica.

O relevo alto também favorece as baixas temperaturas. Uma extensa cadeia de montanhas Transantárticas atravessa o continente, dividindo-o em Antártica Oriental e Antártica Ocidental. Na primeira, o gelo recobre montanhas de até 3 mil metros de altitude, vales e lagos subglaciais, com o ponto culminante superior a 4 mil metros de altitude.

A temperatura média anual dessa porção do continente é de -55 graus. A parte ocidental é mais baixa e apresenta temperaturas um pouco menos rigorosas, média de -25 graus. Por causa das altitudes e temperaturas muito baixas no interior do continente, os ventos catabáticos, no sentido continente-mar, são muito violentos, chegando a extremos 327 quilômetros por hora.

Por ser muito frio, as precipitações atmosféricas não conseguem penetrar no continente, tornando o interior da Antártida seco como um deserto. Por isso, o gelo das camadas inferiores das geleiras é muito antigo e demorou muito tempo para acumular, cerca de 55 a 35 milhões de anos.

Por suas dimensões continentais e características extremas, a Antártida controla a circulação atmosférica das altas e médias latitudes no Hemisfério Sul. Sabemos que a energia solar é distribuída desigualmente sobre a terra, o que acarreta um aquecimento diferencial.

Esse aquecimento vai gerar a circulação atmosférica e as correntes oceânicas, cuja função é transportar o calor acumulado nos trópicos para os polos e, no sentido inverso, deslocar o frio dos polos para os trópicos, para atingir um balanço de energia. Isso demonstra a importância das re-
giões polares no balanço de energia do planeta, pois Antártica e Ártico funcionam como sorvedouros de energia.

PinguinsMais de 98% do continente antártico é recoberto por geleira, também chamado de manto de gelo (quadro), isto é, uma extensa massa de neve e gelo formada pela precipitação e acumulação de neve com espessuras médias que variam de 1,3 mil metros na parte ocidental e 2,2 mil metros na oriental, sendo a espessura máxima de quase 5 mil metros.

Atualmente, na Terra, existem dois grandes mantos de gelo, o maior na Antártida e um oito vezes menor na Groenlândia, ambos representam uma imensa reserva de água doce congelada.

Com o tempo, a neve acumulada torna-se gelo compacto. Seu peso e a ação da gravidade provocam o lento deslocamento da geleira em direção ao litoral e é flutuando sob as águas do mar que a geleira continental se torna plataforma de gelo. Avançando sobre o mar, sua grande extensão, associada à ação de ondas e ventos, fissura partes da plataforma de gelo.

Esses fragmentos que se desprendem são os icebergs gigantes. Um exemplo foi observado na geleira Pine Island, em novembro de 2013, quando o iceberg B-31 se desprendeu. A superfície acumulada das plataformas de gelo na Antártida é de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, quase o equivalente à superfície do estado do Amazonas.

As geleiras dos polos ajudaram os cientistas a desvendar os enigmas de climas passados e a trazer informações  para a compreensão de evoluções futuras. Sua espessura permitiu a coleta de testemunhos de gelo, colunas cilíndricas obtidas na perfuração das geleiras.

Coletados nas profundezas, o gelo antigo e as bolhas de ar de seus interstícios são arquivos da evolução climática da Terra. Com isso, foi possível reconstituir as variações no teor dos gases de efeito estufa, a temperatura atmosférica, identificar explosões vulcânicas etc. Os testemunhos de gelo da Antártida permitiram a reconstituição paleoclimática dos últimos 810 mil anos e os extraídos na Groenlândia, dos últimos 125 mil anos.

A partir dessas investigações, os cientistas demonstraram a interferência das atividades antrópicas nas mudanças climáticas ao evidenciar que nossas atividades estariam aumentando os gases de efeito estufa na atmosfera e aquecendo o planeta. Esse assunto abriu um debate polêmico nas diferentes esferas da sociedade.

Porém, sem entrar no mérito dessa discussão, o que se observa de fato, segundo o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), é um aumento de 0,85 grau na temperatura combinada média da terra e dos oceanos, durante o período de 1880 a2012. Uma consequência visível desse aquecimento é a retração do gelo no Ártico.

Mas, na Antártida, a situação é menos evidente, pois as pesquisas feitas com as imagens de satélite mostram que, nos últimos 34 anos, a plataforma de gelo aumentou 1,5%. Por outro lado, dados obtidos na Estação Antártica Comandante Ferraz mostram aumento de 0,55 grau na temperatura média do ar, por década, entre 1986 e 2005.

Os cientistas alegam que os dados sobre o Ártico são mais robustos e sem interrupção temporal, enquanto sobre a Antártida são ainda insuficientes, dificultando análises e explicações. A disparidade evidencia, entretanto, a complexidade do aquecimento global.

Hoje, a Antártida é um grande laboratório de pesquisa. Mas, nem sempre foi assim, a primeira atividade humana nessa região foi a caça de focas e baleias, que ameaçou as espécies de extinção. A questão 
geopolítica também veio à tona no início do século XX, quando países declararam soberania sobre partes do continente. Para evitar a militarização, o Tratado Antártico foi assinado em 1959.

Em linhas gerais, propõe a liberdade e cooperação científica e a internacionalização do continente sob a Organização das Nações Unidas. Em 1975, o Brasil aderiu ao tratado e, em 1984, construiu as instalações da Estação Comandante Ferraz na Antártida. As pesquisas brasileiras  focalizam a biodiversidade, a geologia e geoquímica do Oceano Austral e o monitoramento do clima e da atmosfera.

A Antártida é também a maior área selvagem do planeta, de riquíssima vida marinha com muitas espécies endêmicas e migratórias. No verão, as águas do oceano se enchem de krill , crustáceo que alimenta peixes, pinguins, aves, focas e baleias. Os pinguins são bem adaptados ao rigor climático e formam imensas colônias reprodutoras.

Quatro espécies se reproduzem apenas ali: pinguim-imperador, pinguim-antártico, pinguim-de-adélia e pinguim-papua. Por essas razões, as questões ambientais tonaram-se prioritárias e acordos internacionais foram elaborados para regulamentar ou mesmo proibir a caça. O Protocolo de Madri, por exemplo, declara a área abaixo do paralelo, 60 graus ao Sul, “reserva natural dedicada à paz e à ciência”, afirmando a proteção do meio ambiente e priorizando a pesquisa científica.

*Doutora em Geografia pela USP

*Publicado originalmente em Carta Fundamental