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Por que o museu não poderia germinar na escola?
Após 3 anos de trabalho, a pesquisa se tornou intensa na escola

Já imaginou construir um museu dentro da escola? Professor de uma escola rural em Porto Alegre (RS), Guy Barcellos resolveu trabalhar de maneira diferente e construir, junto com seus alunos, um museu de Ciências.



Leia atividade didática de Ciências inspirada neste artigo
Anos do Ciclo:1º ao 9º
Objetivos de aprendizagem:Utilizar diferentes linguagens; combinar leituras, observações, registros para coleta, organização e informações de natureza científica

Como construir um museu
Uma proposta para realizar experimentos com objetos simples e de fácil acesso

1) O projeto de museu escolar pode ser desenvolvido de duas formas: a primeira consiste em formar uma equipe de alunos curadores e realizar encontros para a construção participativa no contraturno escolar. O grupo pode ter de cinco a quinze alunos e cada um terá uma atribuição, ou seja, será responsável por um setor do museu. Nessa forma envolvem-se aqueles interessados no projeto e o professor orientador pode trabalhar sem a preocupação com os conteúdos programáticos e a rigidez do currículo. Apesar de ser o meio ideal, nem sempre é viável.

2) Outra maneira de implantar um museu é fazê-lo durante as aulas. As dinâmicas de aprendizagem que o professor propuser serão visando à implantação. Os estudos e pesquisas que ocorrem em classe, dentro do conteúdo previsto, são trabalhados de forma que sejam produzidas coleções, museálias, experimentos e exposições para compor o museu. O professor orientador pode envolver todos seus alunos, de todas as turmas, e construir um museu com uma imensa equipe de alunos curadores. O desafio é maior, mas o resultado poderá ser um aprendizado significativo e amplo, com intenso envolvimento dos estudantes.

3) Possuir uma sala exclusiva para o projeto é o mais apropriado. Sabe-se, porém, que muitas escolas carecem de espaço. Sendo assim, o professor orientador pode lançar mão de soluções como um museu itinerante – que fará exibições temporárias em salas e dependências da escola – ou um museu com exposições instaladas em corredores, saguões e salas variadas.

4) As coleções deverão emergir a partir das sugestões e ideias dos alunos. O primeiro passo para a criação de uma coleção é elaborar um roteiro, ou seja, a história que se pretende contar. A sugestão é que se adote, como eixo central, o Universo e a vida na Terra, até os dias de hoje. Dessa forma, há menos restrição de temas e pode-se trabalhar várias disciplinas, das questões da física e da biologia até a antropologia, a sociologia a arte e a cultura.

5) Sugere-se, para começar o percurso expositivo, uma maquete do sistema solar. Os alunos curadores vão realizar estudos sobre as origens do universo e dos planetas. Os modelos de planetas podem ser suspensos no teto, pintado de preto com estrelas, ou presos a uma base.

6) Para os estudos sobre as origens do planeta Terra pode ser interessante a elaboração de um modelo de vulcão, construído com tela de arame e espuma de poliuretano. Após a secagem, cola-se areia e cascalho para o revestimento da montanha. É possível iniciar uma coleção de rochas com retalhos de marmoraria: granito, mármore, basalto e ardósia são exemplos de pedras que podem ser úteis para a exposição sobre a formação geológica do planeta. As diferentes conformações dos continentes podem ser feitas em esferas de isopor, com massa corrida pintada com guache.

7) Para explicitações sobre os seres vivos e suas características, é interessante a construção de uma cadeia de DNA com bolinhas de isopor, palitinhos de madeira e arame. Modelos dos tipos de célula podem ser elaborados com placas de isopor e cola colorida.

8) Fósseis podem ser feitos utilizando massinha de modelar como contramolde (onde será impressa texturas de folhas, peles, cascas de ovos, pegadas) e cartolina ao redor do decalque para segurar o gesso até que seque. Escavações de fósseis podem ser feitas utilizando ossinhos de galinha e de peixe, ou modelos plásticos de ossos de dinossauros, enterrados em areia de construção misturada com gesso em uma bacia.

9) Conchas podem formar imensas coleções, maquetes podem ser criadas sobre a beira do mar. Insetos podem ser alfinetados e identificados para exposições entomológicas. Folhas e flores podem ser herborizadas para coleções de botânica.

10) Uma sugestão é que o museu não seja limitado a exposições estáticas: vasos com flores podem ser colocados pela escola e jardins verticais instalados, com garrafas PET. Miniecossistemas como aquários e terráreos podem ser cuidados pelos estudantes. O conjunto dos trabalhos formará um museu que será de autoria dos alunos e deixará suas marcas na escola. Tudo dependerá da criatividade do professor orientador e dos alunos-curadores.

Quando entrei pela primeira vez em sala de aula, em uma pequena escola na zona rural da região metropolitana de Porto Alegre (RS), aspirava ser diferente de todos os professores que tivera, inclusive dos poucos que foram bons. Meu anseio era de fazer um trabalho que contemplasse as demandas dos alunos e neles não causasse tédio ou alienação. Apesar da intenção, percebi que estava entrando na mesma roda inexorável da sondagem de conhecimentos teóricos, das aulas expositivas e da prova.

Foi quando me questionei sobre quando, em minha vida escolar, aprendera com prazer e alegria. Lembrei-me dos tempos do Ensino Médio, em que construí, com meus colegas, um museu na escola. Chamava-se Museu da Natureza. Foi uma época na qual aprendi com uma grande aventura, a de vivenciar e pesquisar. Após esse lampejo, percebi que era a hora de entrar em ação!

Levei minhas coleções de fósseis, rochas e miniaturas de dinossauros e de animais marinhos e, antes de começarmos a organização do museu (o que chamei posteriormente de construção participativa), expliquei aos aprendizes o que era um museu. Disse que, na Grécia Antiga, acreditava-se que Orfeu, o semideus que tocava a lira, silenciou quando perdeu sua amada Eurídice. Enfurecendo, assim, as ninfas, que o estraçalharam e jogaram seus pedaços por toda a Terra. Assim, todas as coisas se contaminam pela poesia de Orfeu. Os museus têm, portanto, a missão de recuperar o lirismo de Orfeu, presente em todas as coisas.

Também naquela época, existiam os mouseions, templos dedicados às musas, detentoras do saber absoluto e filhas da titã que representava a memória, Mnemosine. Os museus guardam o maior tesouro da humanidade, a memória. Afinal, somos o que lembramos. Nossas memórias constroem nossa identidade e a nossa cultura. Fazer um museu na escola é, de certa forma, construir a identidade de uma comunidade, de um indivíduo e de um planeta.

Os mouseions desapareceram com a queda de Roma, mas renasceram entre a nobreza dos séculos seguintes com os chamados “gabinetes de curiosidades”, como aqueles do rei Ferrante de Nápoles, do duque Ferdinando I de Médici, do imperador Rodolfo II de Habsburgo, entre outros.

Acumulavam em salas de castelos desde obras de arte e engenhocas até rochas, esqueletos e conchas de animais. Também no período da Renascença (séculos XIV a XVII), grandes naturalistas como Albertus Seba e Athanasius Kircher, ávidos colecionistas, criaram museus com acervos monumentais e decisivos para a história da ciência.

Os ventos revolucionários na França mudaram a concepção de museu: passaram a ter um papel social, promovidos a guardiões públicos do patrimônio coletivo. No século XIX, surgiram museus com temáticas mais específicas e, no século XX, aparece o primeiro museu interativo, o Instituto Exploratorium, criado por Frank Oppenheimer. Hoje, o que define um museu é ser um espaço que promove a pesquisa científica, o diálogo com a comunidade, a preservação dos vários tipos de patrimônio e a animação cultural.

É, portanto, o momento de dizer que, no século XXI, um novo museu pode surgir, no qual os curadores são os alunos. Eles seriam os novos Ferrantes, Sebas, Kirchers e Oppenheimers.

No caso da escola em que leciono, a experiência intensa rendeu três anos de um trabalho capaz de transformar a geografia e a psique da escola. Os alunos passaram a ter o ambiente escolar como um espaço impregnado de suas identidades e que expressava seus saberes e pensamentos.

Existe um esforço internacional para melhoramento do ensino de Ciências e da alfabetização científica, a competência de ler o mundo pelo prisma da ciência. Recentemente, o Brasil recebeu nota baixa no Indicador de Letramento Científico (ILC), elaborado pelo Instituto Abramundo em parceria com o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa. Inédito no País, o estudo revelou que a população brasileira não domina conceitos e tem dificuldade de aplicar a Ciência em situações cotidianas: apenas 5% dos brasileiros são considerados proficientes. A maioria (79%) apresentou um conhecimento mediano sobre a área e, 16%, praticamente nulos.

Portanto, em muitas escolas ocorrem feiras e mostras científicas, reproduzindo o que acontece nas universidades: pesquisadores desenvolvem seus trabalhos em laboratórios e divulgam seus resultados com artigos e apresentações. Esse tipo de dinâmica pode mostrar-se muito eficiente, mas é efêmero: após a mostra, os trabalhos são arquivados ou descartados e se reproduz somente uma forma de construção do conhecimento.

As instituições que divulgam o conhecimento, ao mesmo tempo que o produzem no meio científico, são os museus. Acima de tudo, eles transformam objetos materiais e imateriais em patrimônio, processo similar a transformar informação em conhecimento, um dos desafios contemporâneos dos professores.

As escolas visitam museus, levam seus alunos para conhecer suas coleções e exposições. Os museus visitam as escolas, com exibições itinerantes e interativas. Por que, então, o museu não poderia germinar na escola? Existem escolas com empresa, laboratório, cozinha experimental e oficina de robótica, entre outros elementos do mundo moderno. Por essas razões, um museu na escola é uma proposta densa, mas razoável.

*Guy Barcellos é biólogo, mestre em Educação em Ciências e Matemática e docente de Ciências e Biologia do Instituto Estadual de Educação Paulo da Gama