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Xanxere
Tornado deixou a região de Xanxerê sem energia elétrica

Em abril de 2014, cenas de destruição foram vistas em Xanxerê, cidade na região oeste de Santa Catarina, após a passagem de um tornado.


O evento durou entre cinco e dez minutos, mas atingiu 10 mil pessoas e destruiu 2,5 mil casas com seus ventos de até 250 quilômetros por hora. No Brasil, em especial no estado de Santa Catarina, os tornados são, sim, realidade.

Dessa forma, é importante que saibamos identificar as principais situações de risco caso um deles venha a ocorrer, além de saber como agir para proteger a si mesmo e a outros mais vulneráveis (como crianças, idosos, ou pessoas com necessidades especiais) que estejam sob sua responsabilidade.

Atividade didática baseada neste texto

Anos do ciclo: 4º ao 7º
Objetivos de aprendizagem: Interpretar fenômenos ligados ao clima; Reconhecer aspectos dos fenômenos climáticos extremos e sua relação com a vida cotidiana, promovendo uma cultura de prevenção

Faça entrevistas sobre experiências com ventos fortes e produza um Plano de Emergência para a escola

1. Peça para os alunos realizarem entrevistas com familiares ou pessoas da comunidade sobre experiências com tempestades e ventos fortes com base em perguntas como: já viveu experiências com ventos intensos? Recebeu avisos de alerta? Por meio de qual veículo de comunicação? Quais providências tomou ao receber aviso de tempestade severa? De que maneira se protegeu de ventos fortes? Que tipos de danos ocorreram (incluindo traumas)?

2. Exiba os vídeos abaixo sobre o assunto. Essa etapa pode contar com a ajuda do professor de Inglês da escola.

3. Peça para os alunos apresentarem as respostas colhidas nas entrevistas, discuta-as em sala de aula e peça para produzirem um desenho com base no material

4. Identifique na escola, com os alunos, abrigos seguros em caso de um evento extremo.

5. Elabore com eles um Plano Piloto de Emergência Escolar

6. Por fim, simule o treinamento com base no plano elaborado

Dentre os fenômenos climáticos extremos, o tornado é o de maior poder de destruição.

Ele é caracterizado como uma coluna de ventos giratórios, no formato de cone ou funil, que sai de uma nuvem do tipo cumuliforme, em geral uma supercélula.

Uma supercélula é um tipo de tempestade muito organizada. Em geral, produz rajadas de vento e chuvas muito intensas, além de granizo do tamanho de uma bola de golfe (4,5 cm) e tornados.

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Esse tipo de tempestade pode causar muitos danos em seu caminho e, quando associada a um tornado, a energia combinada de ambos pode ser comparada a de um terremoto ou mesmo de uma erupção vulcânica.

A grande diferença, no caso do tornado, é que toda esta energia concentra-se no cone. O tamanho de um tornado pode variar de poucos metros até 1 quilômetro e dura, em geral, poucos minutos. Há registro, porém, de supercélulas tornádicas que superaram 6 horas de duração nos Estados Unidos.

Quando a coluna giratória atinge o solo, é capaz de causar danos que variam de leves a altamente devastadores, dependendo de intensidade de seus ventos.

Segundo a Escala de Classificação Fujita, que classifica a força dos tornados de F0 a F5, os ventos podem variar entre 100 km/h a 500 km/h. Para se ter uma ideia do impacto dos ventos, ao atingir entre 60 e 70 km/h, uma pessoa apresenta dificuldade em caminhar contra eles. Acima de 250 km/h, os estragos são considerados severos.

Dependendo das construções, telhados podem ser arrancados, estruturas podem colapsar, casas podem ser levantadas e destruídas completamente.

Outra característica do tornado é seu poder de sucção, capaz de lançar objetos e destroços com a força de projéteis ou mísseis.

Dependendo da forma e da velocidade do vento, tais objetos podem penetrar, estilhaçar ou mesmo perfurar o alvo atingido.  Por isso, ser acertado por destroços é  um dos maiores riscos relacionados ao tornado, mesmo que se esteja distante do fenômeno.

No Brasil, um estudo recente mostra que tornados não são incomuns, incluindo os de intensidade severa como é o caso do F3. Nessa categoria, podemos citar alguns tornados ocorridos recentemente como os de Guaraciaba (SC) em 2009, Taquarituba (SP) em 2013 e, mais recentemente, o de Xanxerê (SC).

No oeste de Santa Catarina, por exemplo, a Ciram/Epagri (centro oficial de meteorologia do estado de Santa Catarina) registrou 15 tornados nos últimos dez anos.

Dois deles foram do tipo F3, com poder destrutivo, deixando muitos feridos, alguns mortos, pessoas traumatizadas e um rastro de destruição. Pelo estudo e registros mencionados, a ocorrência e frequência destes fenômenos no Brasil é inquestionável, sobretudo no oeste catarinense.

Essa região, em especial, foi estudada por Harold E. Brooks em 2003, pesquisador americano do Laboratório Nacional de Tempestades Severas dos EUA. Em seu estudo, afirma que a região oeste de Santa Catarina é a segunda área no mundo com maiores chances de ocorrência de tornados severos, perdendo apenas para o Tornado Alley (alameda dos tornados, em inglês), localizado nas planícies centrais dos Estados Unidos.

Como nascem os tornados 

Grandes células de tempestades, como as mencionadas no início do texto, apresentam potencial para desenvolver tornados. As três principais condições para que uma supercélula se desenvolva são: levantamento do ar, instabilidade atmosférica e umidade do ar.

O primeiro é necessário porque o ar que sobe para níveis mais altos da atmosfera apresenta maior probabilidade de formar nuvens. Já a instabilidade atmosférica propicia a movimentação do ar na atmosfera, facilitando sua subida, também contribuindo a formação de nuvens.

E, por último, sem umidade do ar não há processo de condensação e formação de gotas. Assim, quanto maior a umidade do ar, maior a probabilidade de formar nuvens.

Essas condições podem ser identificadas por meio de dados meteorológicos coletados em todo país. Uma vez feito o diagnóstico do estado atual da atmosfera, são aplicados modelos físicos e matemáticos que ajudam a prever o estado futuro da atmosfera. Este processo é chamado de previsão numérica do tempo.

Os centros de meteorologia no Brasil são comparáveis aos maiores do mundo e são capazes de prever com antecedência de até três dias as áreas onde as tempestades podem ocorrer.

Tal previsão contribui para a diminuição da vulnerabilidade das comunidades a este tipo de evento, uma vez que permite à população e às instituições prepararem-se com antecedência para possíveis impactos negativos.

Somente a previsão de tempestades severas, porém, não é suficiente em caso de tornados. A vulnerabilidade também está relacionada a condições humanas, sociais, econômicas, institucionais, dentre outras, presentes na comunidade. Por exemplo, de acordo com os danos mais recorrentes associados a tornados, há dois tipos prevalentes relacionados ao:

1. Impacto causado por detritos arremessados pelo vento.

2. Tipos de construção e padrão construtivo das edificações.

Quanto mais frágil uma casa ou prédio, menor a chance de resistir ao impacto de ventos intensos. Para suportá-los, é recomendado que a construção tenha forte fundação, com amarração reforçada, principalmente da estrutura do telhado ao corpo da casa, e que aberturas de vidro sejam protegidas por tapumes ou venezianas.

Impedir a entrada do vento no interior da habitação evita que, ao buscar um caminho para sair, o ar force a estrutura e destrua parte da construção, ou mesmo a leve ao colapso total. Uma vez no interior de uma casa, seja por uma entrada aberta ou rompendo um local mais frágil como a janela de vidro, o vento força sua saída encontrando caminhos em pontos de fragilidade, em geral, os telhados.

Quanto ao impacto provocado por detritos arremessados, a falta de conhecimento, de instrução, e a ausência de uma cultura de prevenção contribuem para aumentar ainda mais a vulnerabilidade frente ao tornado.

Se a pessoa não souber como agir ou aonde se proteger, poderá ser atingida de maneira fatal ao permanecer exposta aos detritos lançados pelo vento.

No tornado de Xanxerê, muitos arriscaram suas vidas procurando um bom lugar para registrar imagens do tornado. Se tivessem noção de que poderiam ser atingidos pelos projéteis, certamente teriam procurado abrigo em locais mais seguros, como em cômodos menores cobertos de laje (banheiros, roupeiros ou despensas, por exemplo).

A seguir, explicaremos como identificar a ocorrência de um tornado e como agir diante do fenômeno.

Os sinais de formação de tornado

– Rotação forte e persistente na base da nuvem.

– Pó ou detritos do chão girando no local abaixo de uma nuvem do tipo supercélula.

– Queda de granizo ou chuva forte seguida de calmaria, ou uma mudança rápida na direção do vento intenso.

– Rugido ou estrondo contínuo (parecido com o som de um trem) que não desaparece em poucos segundos. Este é um sinal que também pode ser percebido durante a noite.

– A base da nuvem se estreita e desce em direção ao solo. A partir daí, a tendência é formar o funil do tornado. Este é um sinal que também pode ser percebido durante a noite no momento que ocorre o clarão de um raio. No entanto, é possível que o funil não esteja visível, uma vez que muitos tornados estão envoltos em forte cortina de chuva.

Como agir na ocorrência de um tornado

– Muito embora um tornado atraia curiosidade, assistir eventos desta natureza não é seguro em local nenhum do planeta! A melhor coisa a fazer é procurar proteção imediatamente.

– O local mais seguro de uma casa costuma ser o banheiro, pelo fato de ser, em geral, um cômodo pequeno e sem móveis que possam cair sobre as pessoas. Assim, a chance de ser atingido por destroços torna-se menor.

– No interior de uma casa, o andar térreo é o mais indicado. Caso exista um porão, melhor ainda. Escolha lugares de dimensões pequenas, com paredes de alvenaria, teto de laje e pouca ou nenhuma janela. Embaixo de escadas de alvenaria e o interior de uma banheira também serem recomendados, contudo se requer que a pessoa se cubra com colchões de espuma por exemplo. Se tiver capacetes na mão, faça uso deles.

– Na medida do possível, ou seja, se houver tempo, feche toda a casa para impedir a entrada de ventos. Uma vez dentro, os ventos farão muita pressão nas paredes internas, que poderão colapsar mais facilmente. No entanto, a entrada de vento por pequenas frestas, como venezianas, por exemplo, podem ser convenientes para que haja um ajuste da pressão do tornado e a pressão interna da casa, diminuindo a possibilidade de explosão. Havendo tempo, também desligue o fornecimento de gás e energia.

– No trânsito, se estiver no interior de um veículo, saia e procure abrigo em um prédio resistente. Se você não avistar prédios seguros e o tráfego não estiver congestionado, distancie-se do tornado em direção perpendicular (em ângulo de 90 graus). Se nenhuma dessas alternativas for possível, estacione, abaixe-se a um nível inferior as janelas, não tire o cinto de segurança e procure cobrir a cabeça com casacos, almofadas ou outros materiais que possam servir de escudo.

– Em ambiente externo, a exposição ao tornado é ainda maior. Na ausência de construções seguras, algumas opções para se proteger são: procure a parte mais baixa do terreno, de preferência uma vala, o mais longe possível de árvores e carros. Deite-se de cabeça para baixo e proteja a parte de trás da cabeça com suas mãos.

– Em ambientes de grande circulação de pessoas como supermercados ou shoppings procure pelas áreas de banheiro. Lembre-se de se manter longe de vidraças.

– Em escolas, professores e diretores devem conduzir os alunos para locais como almoxarifado, debaixo de escadas, corredores estreitos de alvenaria. Áreas amplas e próximas a vidraças não são recomendados.

– Oriente os alunos para que fiquem em posição agachada para diminuir a exposição do corpo. Procure acalmar os alunos para que não entrem em pânico. O pânico representa um complicador adicional nessas horas. Experiências mostram que cantar ou contar histórias ajudam a conter o pânico.

– Apesar dessas dicas, convém não esperar a ocorrência de um tornado para conferir se elas funcionam. De antemão, recomenda-se que a direção e os professores da escola identifiquem locais no interior do prédio que ofereçam melhor proteção aos detritos lançados por um tornado. A escolha deve levar em conta o número de alunos atendidos por turno, bem como considerar a faixa etária e eventuais necessidades especiais dos alunos.

– Recomenda-se buscar informações junto ao órgão da Proteção e Defesa Civil do seu município sobre medidas preventivas para proteger alunos e funcionários de eventos de tempestades severas e de tornados em especial.

Após a passagem do tornado

– Como tornados geralmente danificam redes de fornecimento de energia e de gás, sempre há risco de explosão e de choque elétrico. Por isso, não acenda fósforos ou isqueiros. Certifique-se de que a tubulação ou o encanamento de gás estejam seguros antes de religar. Evite passar perto de linhas elétricas ou de poças de água com fios dentro. Eles podem ainda estar carregados de eletricidade! Se precisar de iluminação, use lanternas até se certificar de que a rede elétrica está livre de perigo.

– Muito cuidado ao caminhar em ambientes atingidos pelo tornado, porque em meio aos destroços pode haver vidros quebrados, pregos e outros objetos pontiagudos. Proteja-se com botas e luvas antes de iniciar os trabalhos de limpeza e recuperação

– Mantenha-se afastado de construções muito danificadas porque há risco de colapso qualquer momento.

– Procure se informar sobre os danos ocorridos na comunidade. Prefira acessar informações por meio de rádios a pilha.

– Procure dar atenção a crianças, idosos ou outras pessoas que tenham ficado traumatizados com o evento. Converse e demonstre atenção e cuidado. Encoraje-as a falar sobre como se sentem e diga-lhes que o pior já passou e tudo vai ficar bem.

– Verifique quais estragos ocorreram em sua casa e faça uma lista dos danos. Caso tenha seguro sobre algum bem, faça o registro fotográfico para solicitação de cobertura.

– Se não houver necessidade, evite ligar para os serviços de segurança e saúde, pois as linhas devem estar livres para atender emergências. Sempre que puder, coopere com os serviços públicos e de assistência humanitária.

Cultura de prevenção 

No Brasil, ainda não há uma cultura de prevenção a eventos dessa natureza. Em países onde isso já ocorre, a população e os alunos na escola recebem orientação sobre como estar preparado caso eventos de alto poder destrutivo venham a ocorrer. Algumas delas são:

– Providenciar um kit de emergência dimensionado para o número de pessoas, contendo materiais de primeiros socorros, rádio a pilha, pilhas sobressalentes, lanternas, água e alimento suficiente para pelo menos três dias, produtos de higiene pessoal; roupas secas, lista com números de telefone caso haja colapso no sistema local de energia e comunicação; cópia de documentos e chaves e outros itens considerados necessários, de acordo com a realidade de cada família.

– Elaborar um Plano de Emergência, também conhecido como Plano de Contingência. Ele pode ser familiar, escolar, municipal ou voltado para locais de trabalho. Nele devem constar: locais de abrigo devidamente sinalizados; as atribuições de cada pessoa; um local de encontro após o desastre; rotas de evacuação, dentre outros itens.

– É importante que todas as pessoas envolvidas ou responsáveis, na família, na escola ou na comunidade saibam como acessar o kit de emergência, como acionar mecanismos como extintor de incêndio, onde se localizam as chaves de interrupção do fornecimento de energia, de gás e de água, bem como participem da elaboração dos Planos de Emergência, ou ao menos o conheçam.

* Márcia Vetromilla Fuentes é meteorologista, professora no IFSC-Florianópolis e pós-doutora pelo Laboratório Nacional de Tempestade Severa de Oklahoma. Sung Chen Lin é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Geografia da UFSC com ênfase em Processos Educativos e Prevenção de Desastres.2