COMPARTILHE

O Maranhão é um estado rico em cultura, herdada em razão de inúmeras práticas realizadas ao longo dos séculos. Uma das manifestações culturais mais ricas do território maranhense são as Festas Juninas, impregnadas pela crença católica e que celebram São João. São danças e apresentações em locais específicos, criados para valorizar a tradição e para facilitar o acesso do público ao lazer e à fruição cultural.


Dentre as manifestações folclóricas maranhenses de cunho popular, o Bumba Meu Boi tem incomparável destaque, pois marca um compromisso sagrado, mostrando a grande ligação da festa com os santos comemorados durante o mês de junho. Essa manifestação cultural também é denominada de folguedo ou brincadeira.

A forma como o Bumba Meu Boi é apresentado no Maranhão é única, diferenciando-se dos outros estados, principalmente pela diversidade de seus sotaques e pelo período de festejo. Em outros locais do País, a brincadeira acontece no mês de novembro e vai até a noite do Dia de Reis, em 6 de janeiro. No Maranhão, ela se manifesta no mês de junho. Esse período do ano para a realização do festejo do Bumba Meu Boi obedece a uma lógica na qual o tempo, como categoria, é regulado de acordo com as necessidades da sociedade camponesa, na qual surgiu o Bumba Meu Boi.

Esse folguedo está relacionado a São João, e a aparição da brincadeira não pode ser dissociada do dia consagrado ao nascimento desse santo, em junho. Outra explicação para o período do festejo se relaciona ao ciclo do gado. Trata-se do clímax da engorda do animal, o que culmina no abate do boi e na sua comercialização, gerando fartura para todos que dependem da criação bovina. É o que geraria recursos para a realização dos festejos. A origem do auto, um dos momentos áureos do Bumba Meu Boi, hoje pouco realizado, remonta ao Ciclo do Gado, resultante das relações desiguais que existiam entre os escravos e os senhores nas casas-grandes e senzalas, refletindo as condições sociais vividas pelos negros e índios.

Os santos comemorados nas Festas Juninas são Santo Antônio, quando são iniciadas as apresentações, e São João, quando a festa está no auge. Os brincantes do folguedo rendem homenagem ao santo, pagando promessas e dançando como forma de interligação entre o santo e os devotos. São Pedro é o homenageado, quando durante o dia acontecem procissão marítima e manifestações religiosas. À noite, a capital maranhense fica envolta por festas em todos os seus recantos.

Em São Luís ainda se comemora São Marçal, onde os grupos de Bumba Meu Boi se reúnem para se despedirem do período em um mesmo lugar durante vinte e quatro horas, amanhecendo o dia todos os brincantes e a plateia, tradicionalmente, em um bairro populoso da cidade.

Unindo a religiosidade, o misticismo, os ritmos, a beleza e a riqueza de elementos culturais, o Bumba Meu Boi do Maranhão se destaca no panorama nacional. Por essa razão, a brincadeira foi considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, em 2008.

Cabe frisar que nos terreiros de culto afro-brasileiro, no Maranhão, existem vários grupos de Bumba Meu Boi que também se apresentam e homenageiam entidades ligadas à brincadeira (Légua Boji-Buá, Dom Sebastião), caboclos e encantados presentes nos terreiros de Tambor de Mina e de Umbanda maranhenses.

Mesmo revelando o seu lado sagrado, o Bumba Meu Boi pode ser considerado uma dança, uma representação teatral ou uma brincadeira, não por designação de termos culturais, mas pela manifestação dos próprios atores e dançarinos que compõem o elenco do espetáculo, onde dançam, representam e se divertem, considerando o espetáculo como uma forma de diversão dramática, que se coloca entre a dança, o jogo, a festa e o teatro.

É uma espécie de ópera popular, uma dramatização classificada como tragicomédia, levando em conta a formação de seus personagens alegóricos, encenações contextuais, a reprodução dos conflitos e os desenlaces, que acontecem de forma alegre e carnavalesca.

A música é um componente essencial no folguedo do Bumba Meu Boi, o canto é realizado de forma coletiva, acompanhado de instrumentos musicais de percussão e, nos últimos tempos, de corda e de sopro também. Seu ritmo próprio é conhecido como sotaque e diferencia-se de um grupo para outro, variando conforme a concepção, organização e formas de apresentação características de cada localidade. No Maranhão são cinco os sotaques do Bumba Meu Boi: Matraca (ou Sotaque da Ilha), Baixada (Pindaré ou Pandeirões), Zabumba (ou Guimarães), Costa de Mão (ou Cururupu) e Orquestra.

Os grupos costumam arrastar multidões a cada apresentação, que segue uma ordem predeterminada e tradicional: Guarnicê (preparação do Boi), Lá Vai (aviso de chegada), Toadas de Cordão e de Pique, o Auto (comédia do Boi), Urrou (hora em que o Boi ressuscita) e Despedida (momento de ir embora do terreiro com promessa de voltar).

O conjunto de personagens que compõem o Bumba Meu Boi varia de acordo com os sotaques de cada grupo e são estes também que definem a indumentária utilizada. O universo dos personagens é amplo e diversificado, apresentando características específicas em cada microrregião maranhense.

A brincadeira é integrada por personagens que podem ser divididos em três categorias: humanos, animais e fantásticos. Os humanos são classificados como “comarca dos mandantes”, composta pelos fazendeiros, amo, dono da festa que congregam o vaqueiro, os caboclos e as índias, e a “comarca dos palhaços”, que diz respeito àqueles que, de uma maneira divertida e cômica, encenam situações, representados por Pai Francisco e Mãe Catirina ou pelos chamados palhaços, podendo aparecer outros personagens de acordo com a brincadeira. Todos os sotaques existentes no Maranhão possuem o Boi como personagem central.

A representação do Bumba Meu Boi no Maranhão possui todo um contexto, uma história vivida como um ciclo que não tem fim, um ritual religioso que envolve o renascimento (os ensaios), o batismo, as apresentações públicas e a morte. Após esse último elemento do ritual, o Boi renasce no ano seguinte, iniciando o ciclo novamente.

Reafirmando que o Bumba Meu Boi é um ciclo ritualístico, na história a primeira festa do ciclo é o Renascimento, que envolve os ensaios e se inicia logo após o sábado de Aleluia. Nesse período do Renascimento, além de o grupo aproveitar para “retocar” as roupas, os chapéus, substituir o que é necessário e produzir adereços novos, o amo ou dono da fazenda, que geralmente é o cantor e o compositor, apresenta as novas toadas.

O batismo do Boi acontece como na Igreja Católica, com a presença de um padre (se não houver, são as rezadeiras ou o padrinho que desempenham esse papel), água benta e outros apetrechos. O Bumba Meu Boi só sai às ruas após o batizado, pois é quando ele ganha a proteção de São João, recebendo autorização para a brincadeira sair às ruas. O clima retrata a fé e a devoção e há quem faça promessas nessa passagem do ciclo.

No Maranhão, as apresentações acontecem nos arraiais das cidades do interior do estado e na capital, com início no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio, depois do batismo do Boi. Após a primeira apresentação do grupo, são feitas várias outras, passando pelo dia 24, dia de São João, dia 29, dia de São Pedro, e no dia 30 de Junho, dia de São Marçal. As apresentações podem se estender além desse período, de acordo com contratos que são firmados entre os contratantes e os donos das brincadeiras.

A história do Auto começa quando Mãe Catirina, grávida, que mora nas terras de um rico fazendeiro e é mulher de Pai Francisco, vaqueiro da fazenda, tem o desejo de comer a língua do Boi mais famoso do lugar. Para realizar o desejo de sua mulher, Pai Francisco resolve furtá-lo. O Boi é morto e o desejo atendido. Após se descobrir que o casal é culpado pela morte do animal, é chamado um pajé, que ressuscita o Boi. Então, é dada uma grande festa que reúne todos os moradores da fazenda e das redondezas.

A morte do Boi, que acontece durante o período de três dias ou mais, é uma parte do ciclo que encerra as apresentações da brincadeira em determinado ano, e geralmente começa a acontecer a partir do mês de setembro, sem um dia específico, com muita festa.

Nesse dia, em frente ao altar de São João os brincantes e convidados rezam a ladainha antes de começar a festa. O Boi é amarrado ao mourão. Um vaqueiro se aproxima do Boi e, com uma faca, faz de conta que feriu de morte o animal. Sob o mesmo, é derramado o líquido de um garrafão de vinho, representando seu sangue (que é recolhido num balde de plástico ou numa bacia), servido em seguida para os integrantes da brincadeira e para os expectadores. Após esse ritual, o ciclo se fecha e tudo recomeça no ano seguinte, para alegria de todos os que integram o Bumba Meu Boi, a manifestação cultural de cunho popular mais importante do Maranhão.