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Peter Pan
Peter Pan entra em cena: Barrie perdeu o irmão ainda criança e o imortalizou no infante que não queria crescer

Quem nunca sonhou com poder voar por aí e conhecer lugares mágicos muito além da imaginação? Ultrapassar as barreiras do som e das alturas, os limites do tempo e da idade e, principalmente, as regras determinadas por aquilo que dizem ser certo ou errado?


E quando o sonho vira realidade? Parece estranho, mas a Literatura pode nos proporcionar tudo isso, sabemos… e Peter Pan, a obra de J. M. Barrie, nos traz essa magia toda com maestria.

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Data de 1904 a estreia de uma peça teatral escrita por Barrie de nome Peter e Wendy, na qual o personagem Peter é protagonista e, em 1911, o texto foi lançado em forma de livro com o título sendo, anos mais tarde, adaptado para Peter Pan.

Mas de onde surgiu toda a temática? O que de fato inspirou o autor a escrever sobre esse menino que encantou e ainda encanta adultos e crianças?

Há fatos que envolvem a vida de J. M. Barrie, bem como há especulações sobre as reais origens que levaram o autor a escrever a história das aventuras na Terra do Nunca.

Leia atividade didática de Literatura sobre Peter Pan

Anos do Ciclo: 4º à 7º

Área Envolvida: Língua Portuguesa

Possibilidade Interdisciplinar: Artes

Tempo de Duração: 10 aulas

Objetivos de aprendizagem: Relacionar a obra ao seu contexto de produção; Interpretar, no plano fi ccional, o ponto de vista das personagens e do narrador; Comparar diferentes traduções ou adaptações da obra; Trocar impressões com leitores

1. A obra de J. M. Barrie já foi relida inúmeras vezes por diferentes autores em diferentes modelos e diferentes suportes. Sempre é interessante escolher aquele que seja mais compatível com a realidade de nossos alunos ou aquele que possa causar um maior impacto nesta ou naquela faixa etária. Dentre as adaptações, selecionamos:

Peter Pan, de James Matthew Barrie.
Edição comentada e ilustrada: Flávia Lins e Silva; tradução: Júlia Romeu (Zahar)
Edição integral: Ana Maria Machado (Salamandra)
Edição adaptada: Paulo Mendes Campos (Ediouro)
Edição em quadrinhos: Monteiro Lobato; adaptada por Denise
Ortega (Globo)

Adaptações para o cinema
Peter Pan, Estúdios Disney, 1953.
Hook, a Volta do Capitão Gancho, TriStar Pictures, 1991.
Peter Pan, de Volta à Terra do Nunca, Estúdios Disney, 2002.
Peter Pan, Columbia Pictures, 2003.
Em Busca da Terra do Nunca, Miramax Films, 2004.

SAIBA MAIS
COELHO, Nelly Novaes. Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil: Das origens indo-europeias ao Brasil contemporâneo. Barueri: Manole, 2010.
HUNT, Peter. Crítica, Teoria e Literatura Infantil. São Paulo: Cosac Naif, 2010.

Contam os biógrafos de Barrie que o autor conheceu, já adulto, os filhos do casal Arthur e Sylvia Llewelyn Davies: George, Michael, Nicholas, Jack e Peter e, como amigo do casal, compartilhava muito tempo ao lado das crianças e gostava muito de suas companhias. Criava muitas histórias de aventuras para contar aos meninos.

Alguns pesquisadores dizem que um dos meninos foi a inspiração para que Barrie criasse a personagem Peter Pan, e outros devem a inspiração ao irmão do autor, David, falecido aos 6 anos de idade, perda que provocou um trauma terrível na família e deixou a senhora Margareth Ogilvy, mãe dos meninos, em profunda depressão.

Durante toda sua vida, J. M. Barrie tentou fazer com que a mãe sentisse por ele ao menos parte do orgulho que sentia por David e tentava fazer de tudo para se parecer com o irmão, chegando a vestir suas roupas e criando uma relação obsessiva com a mãe.

Esse fato marcou o então garoto para sempre e a mãe costumava dizer que seu irmão se fora tão jovem que ficaria imortalizado eternamente como criança e Barrie acabou tomando isso como verdade, mesmo que inconscientemente, o que pode ser comprovado pela personagem Peter Pan, o menino que não queria crescer.

Mas o que há de tão especial nessa narrativa e o que tanto atrai o público leitor? Vamos descobrir juntos!

A narrativa de Peter Pan ocorre em tempo algum ou, talvez fosse mais apropriado dizer, em um tempo indeterminado. São apresentadas características temporais que dizem respeito às descrições físicas e geográficas dadas pelo narrador quanto à família Darling e sua casa, na cidade de Londres, mais precisamente na região de Kensington Gardens, descrições relacionadas à aparência das personagens e ao seu comportamento social, mas, quando se trata do mundo mágico em que Peter vive, denominado a Terra do Nunca, tudo fica bastante obscuro, começando do endereço: “Segunda à direita e depois direto até amanhã de manhã”.

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A Terra do Nunca dispensa descrições… é um espaço idílico onde cabem os sonhos de cada uma das crianças que nela habitam e de todos que um dia a visitarem. Segundo a escritora Flávia Lins e Silva, na apresentação da edição de Peter Pan, da editora Jorge Zahar, o que é possível saber sobre a Terra do Nunca é que:

“… É sempre mais ou menos uma ilha, com pinceladas maravilhosas de cor aqui e ali, e recifes de coral e barcos velozes prontos para zarpar, e esconderijos selvagens e secretos, e gnomos que quase sempre são alfaiates, e cavernas atravessadas por rios, e príncipes com seis irmãos mais velhos, e uma cabana caindo aos pedaços, e uma velhinha bem baixinha com um nariz de gavião.

O genial em Barrie é que ele descreve a ilha com detalhes tão minuciosos e criativos que quase acreditamos que vai nos oferecer uma descrição mais precisa e definida dessa ilha. Logo depois, porém, ele quebra essa expectativa, com outra informação:

“É claro que as Terras do Nunca variam muito. A de João, por exemplo, tinha uma lagoa com flamingos voando em cima, nos quais ele atirava. Já a de Miguel, que era muito pequeno, tinha um flamingo com lagoas voando em cima”.

O que fica claro: cada um tem a sua própria Terra do Nunca, cada um tem seu próprio sonho e sempre há um jeito de o sonho ser encontrado e nunca ser perdido. Esta é a mensagem implícita no discurso que a narrativa de Peter Pan carrega.

Pan deriva do mito grego Pã, deus dos bosques, símbolo da natureza – grande parte da narrativa se passa junto à natureza e às crianças, os ditos meninos perdidos, vivem suas aventuras junto a seres imaginários, mitológicos, folclóricos, como sereias, piratas e fadas na mesma atmosfera, ora simpática ao estilo aventureiro do grupo de crianças, ora provocativa e ameaçadora, sombria.

A história de Peter começa e termina em Kensington Gardens: foi para aquele parque que ele, ainda bebê, fugiu voando quando soube dos planos de seus pais para sua vida adulta: “Não quero nunca ser adulto! – disse, com raiva. – Quero sempre ser criança e me divertir. Por isso fugi para Kensington Gardens e vivi muito tempo com as fadas”.

Ali mesmo voltou para buscar aquela que contava histórias, Wendy, e acabou por levá-la para a Terra do Nunca juntamente com Miguel e João, seus irmãos, para a maior de suas aventuras. Também foi ali que, em 1906, J. M. Barrie doou uma estátua em bronze de Peter Pan para o parque, como símbolo das crianças que ali brincavam e o inspiraram a escrever sua mais famosa história.

No Brasil, foi o velho e bom Monteiro Lobato quem nos trouxe à luz a narrativa do escritor inglês, nos idos da década de 1930. A seu modo, como sempre o fez, o dono do Sítio reconta as travessuras de Peter Pan e sua visita aos netos de Dona Benta e o que aprontou por lá com toda a turma, com Emília, por exemplo, cortando a sombra de Tia Nastácia.

Seu pó de pirlimpimpim que fez de Emília uma boneca falante foi também a solução encontrada por tantos outros tradutores e adaptadores da obra de Barrie para o pó de fada utilizado para fazer as crianças aprenderem a voar!

Temas para reflexão

Diversos são os temas trabalhados na narrativa de Barrie, mesmo que inocentemente e podem ser discutidos a partir da leitura da obra por qualquer faixa etária, quer seja no Ensino Fundamental, quer seja no Ensino Médio, tudo depende do tipo de atividade que se pretende propor a partir da leitura.

Uma primeira questão que pode ser estudada é a da figura materna ou, melhor dizendo, a contradição ausência versus presença da mãe na narrativa.

Peter vangloria-se por não ter uma mãe por perto, dizendo que “ele não apenas não tinha uma mãe, como não tinha a menor vontade de ter uma. Achava que todo mundo dava uma importância exagerada para as mães. Wendy, no entanto, imediatamente, achou que estava diante de uma tragédia”.

Obviamente, Wendy discorda do posicionamento de Peter, uma vez que estava sendo educada segundo os preceitos de uma sociedade que ainda seguia os padrões vitorianos, preparada para ser mãe e esposa, cuidar da casa, do futuro marido e dos filhos, mesmo que ainda fosse apenas uma criança, embora fosse ainda pequena.

Ouvir um absurdo daqueles era inimaginável, tanto para uma criança quanto para um adulto, imagine para uma criança criada para se comportar como adulto em um mundo de adultos! Além disso, a ausência de uma mãe implicaria descuido, na bagunça… e Peter usa isso para persuadir Wendy a acompanhá-lo na viagem à Terra do Nunca, apelando à sua veia maternal:

– Wendy, venha comigo e conte as histórias para os outros meninos.
É claro que ela adorou o convite, mas disse:
– Ah, mas eu não posso. Pense na mamãe! Além do mais, não sei voar.
(…)
– Wendy – disse o safado –, você ia poder ajeitar nossas cobertas à noite.
– Ai!
– Ninguém nunca ajeitou nossas cobertas.
– Ai! – disse Wendy, estendendo os braços para ele.
– E você ia poder costurar nossas roupas e fazer bolsos nelas. Nós não temos bolso.

Como Wendy poderia resistir? (BARRIE, 2012, págs. 65 e 66)
A ausência da figura materna na Terra do Nunca acaba, na verdade, servindo como moeda de troca para Peter Pan, como uma forma de seduzir Wendy a aceitar a ideia de abandonar sua família como ele o fizera no passado… a diferença é que ela o faz em companhia de seus dois irmãos.

A menina aceita a oferta de Peter Pan não somente pela possibilidade da aventura, mas também porque aquele menino lhe chamava a atenção, sentia-se lisonjeada em sua presença e gostava de seus galanteios, mesmo que fossem genéricos demais!

Essa temática do interesse pela figura do sexo oposto se confirma com a fada Sininho e a Princesa Tigrinha, ambas também de alguma maneira interessadas nesse menino que de forma nenhuma se deixaria prender por algum tipo de laço – talvez nem sequer entendesse o que elas pensavam sentir por ele, uma vez que o que lhe interessa é a liberdade e a possibilidade de poder ser o mais aventureiro possível.

Contamos ainda com as figuras masculinas, o senhor Darling e seus filhos, o próprio Peter, o Capitão Gancho e os piratas e os Meninos Perdidos. O senhor Darling é apresentado como um homem muito preocupado com as questões financeiras, distante dos filhos e ridicularizado por eles, muito preocupado em sempre ser igual a seus vizinhos.

Na noite em que resolve prender Naná, a cadela-babá de seus filhos, as crianças fogem e o senhor Darling passa a se sentir culpado por isso e se impõe o castigo de dormir na casa da cadela até que seus filhos voltassem.

O Capitão Gancho e os piratas representam, a princípio, o perigo, mas são, na verdade, figuras patéticas e atrapalhadas, com medo de coisas absurdas, e Peter Pan, um garoto que não quer crescer para não virar um homem patético como os demais descritos, que lidera um bando de meninos abandonados ou fugitivos, na mesma situação que ele, denominados Meninos Perdidos – a genialidade de Barrie está em expor problemas tão sérios de maneira tão natural e sutil na narrativa.

E todas essas aventuras, é claro, culminam no navio do Capitão Gancho, com Peter Pan como herói, salvando a todos, e com o Capitão finalmente tendo o seu merecido castigo!

* Publicado originalmente em Carta Fundamental