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Ilustração do livro Como Surgiu : Mitos Indígenas Brasileiros

Em tempos antigos, homens e mulheres sentavam-se ao redor do fogo para contar suas façanhas diárias: a luta contra um animal feroz, o susto de encontrar um ser da floresta. Narrar o ocorrido gerava a certeza de um pertencimento ao universo em que se vivia. Naquele momento, todos compreendiam que o universo – contemplado nas noites sem lua – era uma infinita teia.


A vida era um emaranhado de fios tecidos por uma misteriosa mão que pairava sobre toda forma de vida e que era capaz de manipular os acontecimentos naturais (chuva, trovões, nascimentos e mortes), para lembrar a todos sua finitude.

Leia atividade didática de Língua Portuguesa sobre mitos indígenas

Expectativas de aprendizagem: Ler em voz alta ou recontar mitos de maneira a suscitar o interesse de outros interlocutores; trocar impressões com outros leitores a respeito dos textos lidos; coletar informações sobre os povos indígenas a que pertence o mito lido; traduzir a experiência do mito em diferentes linguagens

Como ler os Mitos
É preciso conhecer um pouco da diversidade dos povos indígenas brasileiros para poder contar a origem de histórias ancestrais

1) Indígenas sim, índios não!
O Brasil é composto por 250 povos indígenas que estão espalhados por todo o território nacional e são falantes de aproximadamente 180 línguas e dialetos. Há muitos grupos indígenas que já não falam mais uma língua tradicional por a terem perdido durante o processo colonial – especialmente os grupos do Nordeste, mas também na Amazônia. Toda essa diversidade precisa ser considerada para evitar a repetição de estereótipos como: “Esta história que vou contar é dos índios”, “Vamos brincar de índio?”, “Como se chama a casa do índio?”. Essas generalizações acabam “conformando” a mente das crianças a um conceito já ultrapassado. O Brasil é habitado por indígenas (nativos) e não por índios (conceito generalizador).

2) Semelhantes, mas diferentes
Os povos indígenas são diferentes entre si, embora tenham muitas coisas em comum. Estão presentes em todos os biomas brasileiros e têm leituras de mundo, às vezes, distantes umas das outras. Ao se pensar em contar uma história, é preciso saber localizar geograficamente o povo a que ela pertence. É importante também um conhecimento, mínimo que seja, sobre a cultura que ali será apresentada.

3) História fácil
De acordo com a faixa etária da criança, escolha uma narrativa que prenda a atenção e possa dar possibilidades para explorar outras informações pertinentes. É bom também que a história já contenha alguns elementos que as crianças já conheçam.
Sugiro que a escolha recaia sobre a “Lenda da Vitória Régia”. Utilizo o termo lenda por se tratar de um povo já extinto (quando o povo está vivo, prefiro a palavra Mito ou Narrativa Ancestral, pois se trata de uma história que está acontecendo). Essa história foi recontada exaustivamente, mas poucos “contadores” dizem que ela foi primeiramente contada pelo povo manaó (que vivia onde hoje está situada a cidade de Manaus, daí seu nome) e que esse povo não sobreviveu à colonização.
É uma história de amor entre uma indígena manaó e a lua. Ela conta o sacrifício que a jovem fez para conquistar um único beijo do amado. Seu esforço – que não chegou a se concretizar – acabou sendo recompensado através da transformação que aconteceu com a jovem, que virou uma Vitória Régia, a maior e mais bela flor do Amazonas. Há muitas outras histórias que podem servir de referências, de acordo com a faixa etária. Lembro aqui os mitos de criação do mundo (cada povo tem uma versão); os da origem dos alimentos (milho, mandioca, inhame, batatas); mitos cosmológicos (criação da lua e do Sol, das estrelas e das plêiades); da criação dos animais ou de suas características (por que o Sol se move devagar, as pintas das onças, o pio do uirapuru…); mitos filosóficos (como cada povo deve se comportar, que normas seguir, quais os rituais desenvolver para amainar a fúria dos seres ancestrais).

4) Jeito de contar
O modo como se narra uma história é muito importante para conquistar o público:
a) Coloque as crianças sentadas em círculo – explique que esta era a forma antiga de se ouvir histórias. Lembre que no círculo não há diferenças, não há melhores ou piores, apenas parceiros.
b) Leia a história de forma bem pausada (ler é melhor que contar, pois nesse momento você é o/a professor/a, aquele que ensina e estimula a leitura e não o contador de histórias). Deixe que as crianças digiram bem o enredo e, se preciso, repita outra vez.
c) Abra a conversa para que as crianças recontem o que ouviram. Deixem-nas falar e depois sugira sutilmente alguns temas, caso não tenham aparecido: amor, mudança, transformação… Depois conte para elas de onde vem aquela história, quem foram seu criadores e os motivos pelos quais foram extintos. Em seguida, fale sobre as culturas indígenas que existem no Brasil.
d) Para finalizar, sugira alguma atividade de música, dança ou pintura corporal, devidamente explicada em seu contexto. Proponha mais alguma atividade com música (há varias populares que trabalham o tema), desenho ou arte (construção de uma maquete ou confecções da cultura material).

Sabendo-se “criados” e frágeis, homens e mulheres passaram a entoar cantos, criar sons e preces capazes de amainar a fúria natural do Ser Criador. Tinham a convicção que seus poemas, sons, melodias e passos ritmados iriam “manter o céu suspenso” e o mundo não acabaria. Assim, nossos primeiros pais foram criando histórias para que as novas gerações compreendessem e aprendessem como se comportar enquanto faziam sua passagem por esta vida.

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A essas histórias o Ocidente denominou Mitos. Essa palavra nem sempre é bem- entendida e algumas vezes se tem a impressão de que estamos falando sobre uma história inventada apenas para “explicar” fenômenos naturais ou justificar uma crença infantil nos fenômenos naturais.

Na verdade, não se trata de justificar crenças se não em aceitar a condição humana que todos possuímos e que não pode ser transformada em fórmulas científicas. A lógica do mito é nos colocar diante do possível para nos levar ao mundo do impossível.

Tem sido assim por toda a história da humanidade. Tem sido essa a “lógica” que tem movido nossos pais primeiros desde os primórdios dos tempos e que nos move ainda hoje, mesmo vestindo outras roupagens para nos encantar. Assim é a linguagem da televisão, do teatro e do cinema. Eles têm feito a magia de atualizar os Mitos que em nós habitam.

Mitos indígenas brasileiros

O Brasil é um celeiro muito abrangente de mitologia. Nosso país é formado a partir da diversidade de mitos criadores de diferentes grupos humanos que aqui se estabeleceram, trazendo consigo narrativas que contavam seus sonhos, seus medos, seus deuses, suas origens.

Esses povos – e todos seus mitos – atracaram em uma terra onde já havia um conjunto de saberes ancestrais mantidos por um gradiente de povos nativos que receberam o nome de indígenas – mesmo que nativo, oriundo, originário.

Eram aproximadamente 900 povos e 1,1 mil línguas distintas entre si. Habitavam todas as regiões desta terra e tinham uma gama de conhecimentos incompreensíveis aos que estavam chegando, como senhores ou escravos.

Como quem estava chegando, sentiu-se no direito de colonizar, ignorou totalmente os saberes nativos e passou a dizimar ou a reduzir a diversidade em um único (pré)conceito que chegou até os dias atuais: os índios.

Precisamos resgatar essa diversidade que ainda está presente em nossa terra. Começar através dos resgates dos mitos ancestrais é uma fórmula que pode dar certo para aproximar os indígenas das crianças brasileiras.

Vale lembrar que o mito é um método pedagógico de narrar os acontecimentos. Os feitos naturais e sobrenaturais que comumente estão presentes em nosso mundo sempre causaram espanto, admiração e a necessidade de uma explicação racional.

O Mito sempre foi uma maneira de explicar esses fenômenos utilizando uma linguagem simbólica e, assim, aproximando os seres humanos dos feitos dos deuses ou seres criadores. Povos do mundo todo usaram esse método em seus primórdios. Conhecemos muitos deles por conta da educação que recebemos ter origem na Grécia Antiga, o berço da civilização ocidental.

Do mesmo modo, nossos povos indígenas brasileiros desenvolveram essa leitura do mundo para explicar o que para eles era inexplicável: a origem do mundo e das coisas, os ciclos da natureza, nossa condição humana de homem ou mulher, os lugares sociais de cada um, a grandiosidade do cosmos, a vida e a morte.

A resposta para cada uma e de outras dessas questões eram dadas em forma de histórias, a maneira mais simples de fazer as pessoas entenderem a complexidade da vida. Essa contação de histórias nunca foi uma forma de iludir as pessoas, mas de oferecer um norte a ser seguido enquanto membro daquele povo. Dessa maneira firmavam um compromisso de cuidado com o Todo que era de todos e se construía a harmonia necessária para a convivência diária.

O Mito é, assim, para os indígenas brasileiros, uma realidade. Mesmo vivendo em contato com uma sociedade dita “desenvolvida”, os indígenas sabem que, no fundo, o que na cidade se chama desenvolvimento, na cultura ancestral se chama Mito.

Ou seja, continua-se submetido aos mitos, mudando apenas os interesses que estão em jogo. O “progresso” é a atualização de uma narrativa que começou desde um tempo que está perdido na memória da humanidade e que une os povos entre si. Essas narrativas podem, e devem, ser um instrumento importante para a educação cotidiana. Como fazer isso? Embora não haja fórmula mágica para esse tipo de evento, vale seguir alguns pontos básicos que sugiro nas páginas a seguir.

* Daniel Munduruku é graduado em Filosofia e Doutor em Educação pela USP, é escritor de vasta obra voltada para crianças e jovens

  • Alan Macedo

    ´´Como quem estava chegando, sentiu-se no direito de colonizar, ignorou totalmente os saberes nativos….“ Isso é um mito contado pelos brancos, talvez para inferiorizar certos povos, etnias. Os europeus quando chegaram aqui logo trataram de aprender a falar a língua dos povos daqui (absorvendo seus conhecimentos). Aprenderam onde era o melhor local pra se construir sua habitação (vide criação da vila de são paulo), quais alimentos comer, quais os rios navegar. Nas naus portuguesas, holandeses, francesas, espanholas e inglesas haviam desde a renegados da coroa a doutores de confiança do rei, religiosos (vide material histórico dos jesuítas) e outros (biólogos, médicos, historiadores, linguistas, botânicos). Os povos que cá estavam na sua originalidade tinham conhecimento profundo das estrelas (movimentação dos astros no céu) um céu que os europeus (nórdicos) não conseguiam ler como liam o que aparece acima do equador. Conhecimento profundo nas plantas (cada matinho tem um nome uma função), conhecimento profundo da fauna. E quando surge os bandeirantes (vide histórias dos bandeirantes, na sua grande maioria mestiços com povos locais.) O tupi antigo foi falado durante muito tempo por todos que aqui pisavam, era chamada de língua brasílica, só em 1758 Marque de Pombal proibiu e só no século XIX virou língua tupi. Enfim, não consigo ver como a colonização seria possível ignorando totalmente os saberes dos nativos. Você conseguiria responder com quem foi que aprendi a fazer tapioca???

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