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literatura inglesa

Em 2014, a Editora CosacNaify lançou o primeiro volume de Mary Poppins, de P.L. Travers, que está completando 80 anos. É a oportunidade para os leitores de hoje conhecerem a versão literária dessa obra, já que só o musical da Disney foi difundido aqui nos anos 60. Lançado na Inglaterra em 1934, Mary Poppins circulou nos países de língua inglesa, seduzindo leitores de várias idades.


A edição brasileira tem um projeto gráfico atraente: a capa rosa, repleta de barquinhos de papel, nuvens e estrelas num céu pouco convencional – origem e destino da babá voadora –, remete ao imaginário infantil, enquanto o grafismo das folhas de guarda lembra a textura de um sisudo terno de tweed.  As ilustrações são do estilista Ronaldo Fraga, bordadas e fotografadas em P&B, mostram inúmeros fios soltos, sugerindo que bordados e histórias ainda não foram arrematados.

Leia a orientação de leitura do livro
Anos do ciclo: 4° ao 9°
Possibilidade interdisciplinar: Artes
Tempo de duração: 10 aulas

Mary Poppins permite atividades como reflexões sobre temas do cotidiano, pesquisa sobre comportamento e produção de texto.

1- Leitura com leitores em processo Inicialmente, discuta com os alunos sobre o papel da babá, perguntando se em sua casa já houve alguém com essa função. Pergunte se viram Nanny MacPhee e peça-lhes que comparem a babá do filme às que conhecem. Comece e leitura lendo em voz alta e chamando a atenção para a ilustração. Destaque o detalhes dos fios soltos, desafie-os a encontrar um sentido para eles. Estimule a interação, permitindo comentários e apartes. Marque três capítulos para leitura em casa, dê-lhes um tempo razoável, retomando depois o mesmo procedimento. Na nova sessão de leitura, comece recapitulando e comentando os fatos extraordinários – afinal, talvez nem todos tenham lido os três capítulos. Na terceira sessão, reveze a leitura com os alunos, cada um lendo um parágrafo, até findar o último capítulo. Uma breve apreciação por escrito do livro pode fechar a atividade.

2- Discussão em sala de temas do cotidiano Converse com os alunos sobre o modelo de família apresentado em Mary Poppins. Procure identificar o tempo das ações, levando-os a apontar os elementos que sugerem isso. Pergunte-lhes se essa história, sem as ilustrações, poderia situar-se em outra época e país. Em nossa sociedade ainda se mantém esse modelo de família? Que variações desse padrão se podem ver hoje? Peça-lhes que façam uma pesquisa conversando com pais, tios ou avós sobre como eram as famílias de antigamente.

3- Literatura X cinema A Disney transformou Mary Poppins em filme em 1964. Houve muitas modificações e, para alguns, o livro é bem melhor do que o filme. São linguagens diferentes, com recursos também distintos. Em turmas de 8º ou 9º anos, mostre as peculiaridades de uma e outra linguagem, destacando que Disney optou pelo musical, um tipo de produção que teve seu auge nos anos 50 e 60, mas que hoje saiu de moda. Exiba o filme e provoque uma discussão sobre as diferenças, destacando as qualidades tanto do texto quanto da produção cinematográfica.

Trabalhar como babá, ou nanny, parece ser um emprego feminino tipicamente europeu. Sua posição social era superior à das operárias das fábricas surgidas com a Revolução Industrial, porém inferior à dos patrões. Vivendo dentro da família, dela não faziam parte, equilibrando-se precariamente num limiar impreciso. Em A Volta do Parafuso, Henry James mostra serem misto de empregada, mãe substituta e professora, com muitos deveres e poucas regalias.

No Brasil, a alta burguesia que desejava se europeizar “importava” governantas francesas ou alemãs para darem um verniz na educação de seus filhos ou, às vezes, até mesmo para iniciar sexualmente os rapazes. Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles, e Lição de Amor, de Mário de Andrade, revelam isso.

Em Mary Poppins, os episódios envolvendo a babá e as crianças da família Banks ocupam diversos volumes numa espécie de saga, como eram nessa época, no Brasil, as histórias do Sítio de Lobato, ou, na Suécia, as aventuras de Pippi Meialonga, de Astrid Lindgren. Nas narrativas de Travers, Lobato e Lindgren, a realidade entra com parcimônia, abrindo um largo espaço para a fantasia, convertidas num mesmo território mágico, onde a acomodação às normas sociais tem lugar apenas na medida do indispensável. Esses autores puseram em xeque a autoridade dos adultos, retratando-os em figuras caricaturais – o que constituiu um traço inovador em suas ficções nas décadas de 1930 e 1940.

Disney

Esse primeiro livro de Mary Poppins traz 12 capítulos. Como em Reinações de Narizinho, são episódios independentes, ligados pela manutenção do mesmo espaço e do mesmo grupo de personagens. Diferente de Lobato, que deu forma de novela a seus livros posteriores, Travers manteve essa estrutura fragmentada nos sete volumes seguintes.

Também neste ano de 2014 foi lançada no Brasil a biografia de P.L. Travers por Valerie Lawson, que fez um primoroso trabalho de reconstituição da vida e da carreira da autora. A criadora de Mary Poppins nasceu na Austrália com o nome de Helen Lyndon Goff, filha de Travers Robert Goff, que faleceu quando ela ainda era menina. Mais tarde, ao tornar-se escritora e mudar para a Inglaterra, adotou o pseudônimo Pamela Lyndon Travers em homenagem ao pai. É com esse nome que passou a ser conhecida.

O enredo parte de uma situação banal: uma família com muitas crianças peraltas precisa urgentemente de uma babá. A tarefa não é fácil, muitas candidatas ao posto tentaram e desistiram. Situação semelhante, depois transformada no musical A Noviça Rebelde, foi vivida pelo Barão Von Trapp na Áustria dos anos 40. Mais recentemente, em 2005, um enredo parecido retornou às telas com a produção inglesa Nanny McPhee, tendo Emma Thompson no papel-título.

Seja calcada na realidade ou na ficção, a trama desses filmes mostra como essas nannies, com muita firmeza e um pouco de doçura, conseguem pôr ordem no caos e restaurar a paz doméstica. O resultado que obtêm e os métodos que empregam ora as aproximam das fadas, ora das bruxas – ambiguidade também presente em Mary Poppins.

A autora era fascinada pelas histórias de fadas, pelo ocultismo e pela mitologia. Muitos desses elementos podem ser rastreados nas aventuras de Mary Poppins desde sua misteriosa aparição no primeiro capítulo, trazida pelo vento Leste, até seu desaparecimento no capítulo final, levada pelo vento Oeste, direções que remetem ao percurso mítico do sol no céu. Poppins era fada descida das nuvens ou bruxa voando com seu guarda-chuva preto?

Voar é um elemento de atração dessa história, talvez inspirado em Peter Pan, a que Travers assistiu no teatro. Ela própria, que foi atriz antes de ser escritora, conta ter-se impressionado com o espetáculo. O tom usado pelo narrador nas versões escritas dessas duas histórias é muito semelhante: coloquial com toques irônicos, em sintonia com o típico humor britânico. As aventuras noturnas, os seres mágicos e os acontecimentos insólitos também comparecem em Mary Poppins com um toque de nonsense tipicamente inglês. As cenas do tio que levitava, do cachorro que quer um amigo e da velha dos pássaros são alguns exemplos disso.

Dizem que voar em sonhos, imagem presente em histórias infantis de teor iniciático, é sinal de crescimento, prenúncio – ou mesmo portal – da passagem da infância à idade adulta. Em Travers, assim como em Lindgren e Lobato, o processo de amadurecimento, que supõe o abandono do mundo da fantasia e da dependência, não se completa com o final do livro, nem mesmo com o último volume da série. Ele se estende indefinidamente, é uma passagem em processo, um fio solto como os muitos fios das ilustrações de Fraga. As idas e vindas da babá voadora apenas assinalam as etapas desse processo.

Um velho clichê que associa beleza a bondade e feiura a maldade também é questionado. Fadas e bruxas movem-se entre o céu e a Terra, e assim fazem algumas babás, como Mary Poppins e Nanny MacPhee. Esta, embora feia como bruxa, é do bem e com sua bengala mágica transforma meninos travessos em educados. Mary Poppins é uma figura ambígua: tem a leveza, a vaidade e a juventude de uma fada, mas sua severidade e as secretas conexões com as forças primitivas da natureza aproximam-na das bruxas. Travers mostra que o bem e o mal não são nítidos nem definitivos, e isso fica claro nas atitudes do menino Michael no capítulo “Uma terça-feira ruim”.

Neste livro de Travers, a família Banks tem quatro filhos, Jane, Michael e os bebês gêmeos. Estes foram suprimidos no filme de Disney, o que é uma pena, pois com eles também se foi o instigante capítulo “A história de John e Bárbara”. Hoje o cenário seria outro. As famílias são menores, as mães têm empregos, as empregadas são cada vez mais raras, as babás foram substituídas por creches e escolas maternais.

O pensamento mágico das crianças, porém, e sua atração pelo mistério permanecem vivos. Enquanto as atribuladas mães que convivem com o caos doméstico recorrem às supernannies da tevê ou das agências especializadas para tentar pôr ordem em seu pequeno mundo, as crianças ainda sonham com babás voadoras, com aventuras mágicas fora dos limites de seu lar ou com visitas de meninos estranhos que entram voando por suas janelas à noite.

Saiba mais

Livros

Mary Poppins, 
de P.L. Travers. Trad. Joca Reiners Terron. São Paulo: CosacNaify, 2014.

Mary Poppins e sua Criadora: a Vida de Pamela Travers, de Valerie Lawson. Trad. Marilu Reis et al. São Paulo: Prata Editora, 2014.

Pippi Meialonga, Astrid Lindgren. 
São Paulo: Cia. das Letrinhas. 2001.Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. São Paulo: Globo, 2000

*Publicado originalmente em Carta Fundamental