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Coruja caçando
Rainhas noturnas, as corujas têm olhos e pupilas enormes

No breu da noite uma rápida sombra plaina no ar. Com olhos grandes e impressionantes garras poderosas e afiadas, a criatura está preparada para capturar uma presa distraída. Não se trata, porém, de um monstro ou um personagem de filme de terror, mas de um dos animais mais bem equipados para atividades noturnas: as corujas.


No tema de aula a seguir, vamos falar desses bichos misteriosos e de outras espécies preparadas para encarar os perigos da noite.


Leia atividade didática de Ciências inspirada neste texto
Anos do Ciclo: 2° e 3°
Área: Ciências
Possibilidade interdisciplinar: Artes
Duração: 5 aulas
Objetivos de aprendizagem: Identificar diferentes modos de alimentação, locomoção e reprodução entre os seres vivos que garantem a sobrevivência das espécies nos ambientes

1) Os alunos deverão pesquisar sobre diversas espécies de animais noturnos em sites especializados e livros. Cada aluno da classe deverá escolher apenas um animal pesquisado, a imagem do animal deverá ser impressa juntamente com as suas principais características como: penas especiais, orelhas, olhos, alimentação etc.

2)
A folha impressa deverá ser colada no papel cartão, com a função de montar uma carta informativa.

3)
Os alunos deverão formar duplas, cada um deverá sentar-se de frente para o outro sem mostrar a carta informativa.

4) Um aluno deverá ler uma determinada informação para o outro aluno.

5)
A característica descrita deverá ser desenhada pelo aluno ouvinte em uma folha de papel para que o animal seja formado.

6) As informações deverão ser passadas entre os dois alunos intercaladamente, até que o animal seja finalizado.

7) Após finalizar, as duplas deverão ser trocadas e o jogo iniciado novamente.

Aves extremamente adaptadas para o escuro, as corujas têm olhos enormes e pupilas que se dilatam bastante, podendo captar qualquer fragmento de luz do ambiente. Seu rosto tem forma circular, tecnicamente chamado de disco facial. Esse formato tem a função de captar o som, funcionando como as orelhas dos mamíferos. Os ouvidos das corujas, por sua vez, ficam escondidos entre as penas. São muito grandes e não estão localizados na mesma linha horizontal, sendo um deles um pouco mais acima do outro. Isso demonstra outra característica importante para captar o som ambiente.

As penas das corujas também são especiais, elas apresentam bordas com franjas minúsculas que propiciam um voo extremamente silencioso. Pesquisadores registraram corujas caçando ratos em áreas com total ausência de luz.

Elas tiveram sucesso em quase todas as investidas utilizando somente a audição. Filmagens na natureza mostram corujas-das-neves (para melhor visualizarmos são as mesmas da espécie apresentada nos filmes da série Harry Potter), caçando um pequeno roedor chamado lemingue, escondido em uma camada de neve de aproximadamente 30 centímetros. Esta é outra prova referente à apuradíssima audição das corujas.

As corujas são as mais famosas, mas não são as únicas rainhas noturnas. Os bacuraus, curiangos e urutaus também são aves especialmente noturnas. O mais diferente entre eles é o urutau, também conhecido pelo nome de mãe-da-lua. Ele mede 37 centímetros de comprimento, é encontrado na Costa Rica na América Central e por quase toda a América do Sul, com exceção das regiões mais frias.

Os urutaus não gostam de ficar empoleirados em galhos, preferem troncos verticais de árvores mortas, a cor das suas penas é ideal para se camuflar com o tronco das árvores. Por isso, ficam com os olhos fechados e parados como estátuas durante o dia – parecem fazer parte do tronco. Se deixassem os olhos abertos, seriam facilmente descobertos por algum predador, porque seus olhos são enormes e de cor amarela.

São ótimos caçadores de insetos noturnos, seu bico largo abre bastante, lembrando a boca de um sapo, e com esse enorme bico consegue pegar besouros e mariposas grandes. Uma curiosidade sobre essa ave noturna é que ela não constrói ninho, bota seu ovo de cor branca com pintas cinza em uma cavidade natural do tronco. O filhote desde jovem tem a postura de ficar ereto, imitando o tronco de árvore, assim como os pais. Vivem na mata, no Cerrado e até em algumas cidades, mas são difíceis de serem vistos.

Urutau
A cor das penas do urutau é ideal para se camuflar com o tronco das árvores

Durante a noite seu canto causa calafrios às pessoas que não o conhece. É um som rouco com cinco a sete gritos. É tão assustador que os índios colocaram nessa ave o nome urutau, que na língua tupi significa “ave fantasma”. Outra característica distinta é que ele fica durante todo o dia empoleirado no mesmo tronco de árvore, mas não deixa suas fezes caírem no tronco, o que mostraria aos predadores a sua localização. Para evitar tal rastro, ele levanta a cauda e atira seus excrementos longe.

Mamíferos noturnos
Quem nunca acordou no meio da noite com os miados altos e insistentes? A orquestra que os gatos fazem, principalmente nos períodos em que as gatas estão férteis é algo bem marcante, e por vezes irritante. A verdade é que a grande maioria dos felinos, com exceção do guepardo, são animais de hábitos noturnos. Ou seja, preferem dormir durante o dia ficando bem ativos à noite.

A maioria dos felinos, inclusive os gatos domésticos, tem olhos arredondados e as pupilas em forma de fenda, diferentemente dos seres humanos, cujas pupilas têm forma esférica. Com esse formato, elas se dilatam muito, às vezes cobrindo quase toda a íris dos olhos, podendo captar a pouca luz do ambiente.

Quando iluminados os olhos dos felinos com uma lanterna ou com os faróis do carro, percebemos reflexos coloridos, deixando os olhos bem realçados. Isso acontece porque os felinos e outros animais noturnos possuem uma camada no fundo dos olhos chamada tapetum lucidum, que atua como um espelho e reflete toda a luminosidade que entra no globo ocular para que a maior parte dela seja usada e mais aproveitada. Algumas pessoas dizem que a função é refletir a luz para o ambiente, mas não é bem assim.

Os bigodes dos felinos também são especiais para a vida noturna. Longos e muito sensíveis, são usados para se locomover em locais limitados e para caçar. Tem a função do tato, assim como nossas mãos.

O olfato também é um sentido importante para muitos animais e para os de hábitos noturnos isso não é diferente. Para demarcar seu território os felinos usam algo especial, a urina. Ela tem odor específico para cada espécie e, ao fazer xixi em diversos locais, eles avisam a todos: “Não se aproxime, aqui tem dono”.

Os leões, os tigres e as onças utilizam essa tática por vastos territórios. Alguns especialistas dizem que, quando um felino sente o cheiro de xixi do outro, ele consegue identificar se o animal está saudável ou não, definindo assim se ele tem chances de conquistar ou não o território alheio.

Os donos do céu
Os mamíferos voadores noturnos são ainda mais especializados. Os morcegos têm dedos das mãos bem longos e ligados por uma fina membrana. São asas especiais e únicas nos mamíferos.

Eles não são feios, mas são animais especializados. Muitas espécies têm nariz achatado e um olfato muito apurado. Suas orelhas grandes que captam o som com precisão, dando a eles a possibilidade de localizar e caçar com sucesso muitos insetos. Aliás, os morcegos têm um papel importantíssimo no meio ambiente, são ótimos jardineiros da natureza. A maioria se alimenta de frutas.

Como eles voam por muitos lugares durante a noite, suas fezes cheias de sementes são espalhadas por várias áreas, plantando assim novas árvores. Algumas espécies comem insetos, ajudando no controle ambiental, outras se alimentam de pólen das flores e contribuem na polinização. Outros comem peixes. E há três espécies, encontradas apenas na América Latina, que se alimentam de sangue.

A ferramenta principal dos morcegos para a vida noturna é a ecolocalização, ou seja, orientação por ecos. Este sentido funciona, basicamente, da seguinte maneira: o morcego emite sons inaudíveis para humanos. Essas ondas sonoras atingem obstáculos no ambiente e voltam na forma de ecos, que são captados pelo morcego.

Com base no tempo em que os ecos demoraram a voltar, nas direções de onde vieram, e na frequência relativa, os morcegos sentem se há obstáculos no caminho. Isso é muito útil para caçar insetos voadores e para se locomover na escuridão.

Primatas da noite
Alguns primatas também são especialistas da escuridão. Esses são os prossímios, parentes dos macacos, encontrados na África, principalmente em Madagáscar e na Ásia. Os prossímios mais conhecidos são os gálagos, os lóris, os lêmures e os aye-ayes. Todos eles com adaptações para a vida noturna, entre elas, olhos e orelhas grandes.

O aye-aye é o que chama mais atenção. Ele se alimenta de frutas e seiva das árvores, mas adora comer insetos, principalmente larvas de besouros que vivem em troncos podres. Para capturar essas larvas eles desenvolveram uma arma especializada. O terceiro dedo de uma das mãos é bem fino e longo, com a unha em forma de gancho. Com seu ouvido apurado, ele localiza a larva dentro do tronco e nos pequenos orifícios da madeira, introduz seu dedo especial para fisgar as larvas para o seu banquete noturno.

Claro que a aparência tão diferente, trouxe aos aye-ayes muitos prejuízos. Não para a sobrevivência na natureza, mas devido aos mitos criados pelos homens. Segundo lendas, quando alguma pessoa encontra um aye-aye, o animal aponta seu dedo fino para essa pessoa e ela morre no dia seguinte. Em outros locais afirmam que o animal invade casas à noite para amaldiçoar os moradores com seu longo dedo médio.

Variações da lenda dizem que, na verdade, o aye-aye usa o seu dedo do meio para perfurar o coração das pessoas enquanto elas estão dormindo. Histórias que foram inventadas talvez porque, além não ter uma aparência muito simpática, ele não possui medo do ser humano, se aproximando de grupos de pessoas para vê-los.

Sapos, rãs e pererecas
Os anfíbios também se desenvolveram para a vida noturna, procurando suas principais refeições, os insetos. Eles têm a língua enorme com a ponta pegajosa, quando encontram um inseto, capturam a presa com um disparo rápido e certeiro.

E, claro, a mais marcante característica dos anfíbios é o vasto repertório de cantos que esses animais proporcionam todas as noites. O som é específico para cada espécie e é a maneira com que marcam um encontro às escuras. Na maioria deles, apenas os machos cantam, a principal função é atrair as fêmeas para a reprodução. Cada espécie tem um tipo de canto. Tanto fêmeas quanto machos são capazes de diferenciar muito bem o canto de cada espécie. Portanto, não existe perigo de uma rã atrair uma perereca, um sapo ou vice-versa.

Outra função do canto é a de demarcar território, avisando todos os anfíbios da região que aquele pedaço tem dono! Muitas espécies de anfíbios estão desaparecendo no mundo todo. As mudanças climáticas e um fungo que supostamente tenha surgido na América Central estão dizimando os anfíbios de maneira assustadora. Esses animais estão estritamente ligados a ambientes aquáticos e qualquer alteração nesse meio pode ser fatal a eles.

Durante milhares de anos as espécies noturnas desenvolveram táticas e formas especiais para sua sobrevivência. Muitas estão ameaçadas devido a diversos fatores causados pelo homem, como a poluição do ambiente, as lendas e crendices e a iluminação das grandes cidades. Esses animais são essenciais para o meio ambiente e fazem parte de uma complexa rede natural onde todos, incluindo o homem, são dependentes.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental