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Brincar com a bola nos pés

Futebol se ensina? Como introduzi-los nas aulas de Educação Física? Por que ensinar futebol na escola, se a maioria dos brasileiros já chega à escola sabendo jogar? Se sabem jogar, o que o professor de Educação Física deve ensinar ao longo de todo o Ensino Fundamental? Para responder a estas questões é preciso ter claros quais são os objetivos gerais e específicos da Educação Física escolar.


Leia atividades didáticas de Educação Física inspiradas neste texto e elaboradas de acordo com cada etapa do Fundamental

Anos do ciclo: 1° e 2°
Brincar com a bola nos pés e explorar os movimentos possíveis de serem executados na interação da bola, levando em consideração a diversidade de bolas e terrenos a serem explorados. Os alunos precisam compreender o que são regras (não me refiro às regras oficiais do jogo de futebol), para assim, compreender sua lógica à medida do seu desenvolvimento, respeitando-a, ao mesmo tempo em que aprende a conviver em grupo, jogando, cooperativamente, com companheiros e adversários. No 1º ano deve-se priorizar a exploração da bola com os pés, construindo jogos em que cada aluno terá uma bola, e depois chegar a desenvolver jogos em duplas. Já no 2º, a prioridade são os jogos em duplas, até ao fiM do processo com jogos em quartetos. Tudo isSo devido à fase de desenvolvimento cognitivo em que estas crianças se encontram, aliada às possibilidades de estímulos que provoquem aprendizagem em decorrência as zonas de desenvolvimento proximal.

Exemplos:
• Aventura pela Escola: formam-se grupos pequenos (de duplas a quartetos nesta etapa), cada um com uma bola. Em cada grupo se escolhe um mestre, o qual durante alguns minutos deve explorar a escola sempre levando a bola junto aos pés, guiando os demais alunos nesta aventura (superando as dificuldades “naturais” da escola). Vale destacar que o professor deve estimular a fantasia e levar os alunos a embarcar na ideia da aventura. Posteriormente, deve-se solicitar a troca do mestre. Ao fim do tempo estipulado, o professor reúne a turma para que os mesmos possam narrar suas aventuras, e trocar experiências narrativas.

• Bolichebol (ou qualquer outro nome mais criativo): como o nome diz é um jogo adaptado de boliche para o ensino do futebol. Mas o importante está na confecção dos pinos que podem ser feitos com garrafa descartável, caixas de leites e as bolas de diferentes pesos e tamanhos precisam ser feitas com meias velhas, ou mesmo outros materiais, como pano. A lógica na execução do jogo é explorar as diferentes bolas artesanais, bem como usar também as bolas de borracha e couro. Vale destacar a necessidade de valorizar as oficinas de construção de brinquedos, no caso bolas de meia.

Anos do ciclo:
Reconhecer os fundamentos básicos do futebol nos jogos (inclusive os adaptados), por meio de constantes situações problemas trazidas pelo professor, as quais devem ser solucionadas pelos alunos, possibilitando que eles, organizados em pequenos grupos, criem jogos a partir de limitações de materiais. Por exemplo: duas garrafas descartáveis com areia no fundo, uma bola e 6 alunos; duas bolas, 4 garrafas descartáveis com areia no fundo, uma corda grande e 8 alunos etc. Ou mesmo por intermédio de jogos adaptados com regras inacabadas trazidas pelo professor.

Exemplos:
• Propor aos alunos que inventem um jogo com a bola nos pés a partir do Bétis (jogo de taco). Somente utilizando a bola e os pés. Ao final da aula (ou aulas), propor que socializem os jogos, ou mesmo os registrem em forma de carta para se corresponderem com outras crianças.
• Trazer uma ficha com o jogo e suas regras descritas. Os alunos deverão interpretar o texto e fazer o jogo acontecer. Esta ficha poderia ser o registro de um jogo construído por outro grupo de alunos.

Anos do ciclo:
Início da organização do jogo (estruturação do espaço), que pode ser iniciada com a construção de um(s) campo(s) pelos alunos, logicamente, dependendo do espaço disponível na escola. A construção do campo pode facilmente se transformar num projeto interdisciplinar – o educador de Matemática por trabalhar o desenvolvimento de competências sobre medidas e objetos geométricos, atrelados aos conhecimentos de noções de espaço (meio campo, ataque e defesa) e tempo (de bola nos espaços). Na impossibilidade de construir um campo, pode-se explorar a quadra com jogos diferentes. Privilegie alguns jogos mais simples pertencentes à rica e tradicional cultura das brincadeiras de bola com os pés.

Exemplos:
• Formar grupos para jogar Rebatida, gol caixote, três dentro três fora, controle, artilheiro, toquinho mineiro… Se os alunos ou mesmo o professor não conhecer este jogo (ou mesmo os demais), o mais interessante seria começar por uma pesquisa, ou mesmo abrir um espaço para que algum funcionário da escola, alunos de turma mais velha (o caso de já terem estudado este tema, log entendem a proposta), ou mesmo pais, possam trocar suas experiências da época em que mais facilmente se jogava o saudoso futebol de rua, como diria Luis Fernando Veríssimo no fantástico conto Futebol de Rua.

Anos do ciclo:
Exploração do jogo formal em campos de dimensões variáveis, mas com as regras básicas do jogo sendo mantidas. O objetivo é iniciar o entendimento sobre a distribuição de jogadores em espaços maiores (início da aprendizagem sobre esquemas táticos possíveis e estratégias de jogo). Neste momento é possível explorar com mais intensidade as questões relativas à competição, criando ambientes de aprendizagem a partir do venho chamando de competições pedagógicas, que não valorizam o ganhar, mas sim o esforço, o trabalho e o outro.

Exemplos:
• Dividir o campo em três zonas – ataque, meio campo e defesa. Solicitar que cada equipe se distribua livremente nas zonas, sendo que cada jogador não pode ultrapassar os limites estabelecidos, ou seja, se o jogador é da defesa não pode ir para o meio campo e muito menos para o ataque. Na sequência, questione as equipes sobre as opções de distribuição. A liberdade na distribuição é proposital, pois gerará desequilíbrio em diferentes setores do campo, levando as equipes a fazer ajustes. O professor também pode solicitar que apenas uma equipe modifique sua distribuição, ou até que um jogador de cada equipe fique de fora e, com pedidos de tempo, promova as alterações assumindo às vezes de treinador.

Na perspectiva que defendo juntamente com o professor João Batista Freire, no livro Educação como Prática Corporal, a Educação Física deve pautar-se em dois objetivos básicos: possibilitar aos alunos conhecer a nossa cultura lúdica expressa na forma de jogos e proporcionar situações pedagógicas que estimulem a solução de problemas.

Se focarmos no futebol, o professor João Batista Freire, na obra Pedagogia do Futebol, não só afirma que o jogo, sim, se ensina, como avança: “Na escola, futebol deve ser matéria de ensino como outra qualquer. Os alunos devem aprender futebol como aprendem Matemática ou Ciências. Há um programa de Educação Física para ser cumprido, que deve incluir os esportes de um modo geral”.

Para concretizar essa proposta, Freire destaca quatro princípios pedagógicos, os quais norteiam todo processo de ensino-aprendizagem no futebol e criam espaço para dar novos significados à cultura popular infantil. O primeiro deles, o princípio de inclusão, diz respeito à necessidade de se ensinar futebol a todos, não discriminando, por exemplo, os que têm menos habilidade. O segundo, o da competência pedagógica, defende que não basta ensinar, deve-se ensinar bem a todos, ou seja, aqueles que já jogam bem devem aprender a jogar melhor, e os que pouco sabem precisam avançar. O terceiro princípio levanta a questão de que não basta o ensino se restringir apenas à prática do futebol, mas deve-se possibilitar o resgate de valores éticos e morais. Já o último refere-se à necessidade premente de fazer com que os alunos gostem de esporte, levando-o assim para o resto de suas vidas.

Como transformar em práticas tais princípios? Apresento a seguir algumas ideias para a organização e sistematização do conteúdo futebol no currículo do 1º e 2º ciclo do Ensino Fundamental.

É preciso adquirir conhecimentos básicos sobre as fases do desenvolvimento das crianças, para que se possa dimensionar quanto tempo levará o cumprimento de cada etapa, aliado à intensidade e ao nível de dificuldade propostos. Lembrando que elas precisam ser vencidas ao longo de cinco anos, e em cada ano o tema futebol deve ser tratado por volta de um mês, no máximo dois, pois os demais meses devem contemplar outros conteúdos que completam o currículo da Educação Física Escolar.

Outro ponto a salientar é o fato de que o professor necessita tratar o tema futebol não só na perspectiva procedimental, mas também as dimensões conceituais e atitudinais devem ser enfatizadas – essas três dimensões podem e devem ser desenvolvidas ao mesmo tempo, porém, em cada momento uma delas pode ter mais ênfase.

Sugerimos utilizar em suas aulas de Educação Física, por exemplo, algumas histórias infantis, como as da Ruth Rocha – a trilogia da turma da rua: Caloca, o Dono da Bola, Armandinho, o Juiz, A Decisão do Campeonato –, principalmente com os alunos menores, pois todas as histórias possibilitam reflexões pertinentes e transferíveis para o contexto procedimental das aulas de Educação Física.

Outra sugestão é o belíssimo livro de Jorge Amado, A Bola e o Goleiro, ou mesmo, o conto Futebol de Rua, de Luis Fernando Verissimo (Para Gostar de Ler – Volume 7), pois essa história possibilita, uma discussão interessante sobre a necessidade das regras para se organizarem jogos, além da descrição sobre a construção dos campos de futebol de rua. Ou então construir histórias, possibilitando que os próprios alunos narrem suas aventuras e peripécias sobre futebol

*Alcides José Scaglia é professor da Faculdade de Ciências Aplicadas – Unicamp. Doutor em Educação Física e coautor do livro Educação como Prática
Corporal, com João Batista Freire.

FREIRE, J. B. Pedagogia do Futebol. Campinas: Autores Associados, 2003.
SCAGLIA, A. J. O Futebol e as Brincadeiras de Bola. São Paulo: Phorte, 2011.
FREIRE, J. B., SCAGLIA, A. J. Educação como Prática Corporal. São Paulo: Scipione, 2003.