Frida Kahlo além da superfície

Frida Kahlo além da superfície

Exposição da pintora mexicana no Brasil é ponto de partida para refletir sobre a obra e a figura de Frida Kahlo em sala de aula

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A imagem de Frida Kahlo tornou-se, sem dúvida, uma das mais conhecidas e marcantes do século XX. Reproduzida em camisetas, sacolas, canecas, adesivos e outros produtos, sua figura transformou-se em um invólucro superficial de objetos de consumo.


Esta premissa anuncia apenas uma das dualidades ou ambivalências presentes na vida e obra desta extraordinária artista mexicana, feminina e masculina ao mesmo tempo, de um corpo frágil e personalidade forte, sofrida e alegre, extrovertida e intimista, uma mulher à frente de seu tempo e completamente distante da ideia de superficialidade.

Frida Kahlo é profundamente visceral. A perversidade inerente à publicidade como uma prática capitalista faz com que as imagens se apresentem de maneira atrativa, e, ao mesmo tempo, esvaziadas de sentido. Frida Kahlo transformou-se num ícone pop.

Leia atividade didática de Artes inspirada neste texto

Competência: Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na apreciação de obras de arte.

Habilidade: Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.

 

1. Faça uma ampla seleção de obras de Frida Kahlo. É importante a utilização de imagens com boa resolução e ficha técnica completa. Escolha um auto-retrato da artista para começar. Pergunte aos alunos se conhecem aquela imagem e a artista. Ouça as informações levantadas por eles. Continue a apresentação das obras fazendo uma leitura conjunta, atentando para as composições, cores, formas, materiais utilizados, narrativas que possam estar presentes nas pinturas, etc.

2. Fale sobre o contexto sócio-político do México e trace um paralelo com a biografia de Frida Kahlo, ilustrando o percurso com outras imagens de seus trabalhos. Se possível, proponha uma parceria com o professor de História, a fim de fazer um panorama mais detalhado, também com imagens.

3. Agende uma visita à exposição com seus alunos, ou recomende que eles vejam as obras pessoalmente. Peça que observem atentamente as pinturas. Quais as diferenças entre as obras de Frida Kahlo e das outras artistas presentes na mostra? Há semelhanças entre elas? Sugira que observem as fichas técnicas das obras com o nome do artista, a data de realização do trabalho, técnica utilizada e coleção a que pertence a obra. Pergunte aos alunos sobre as diferenças entre olhar reproduções e obras originais.

4. Se forem à exposição no Instituto Tomie Ohtake, certamente os alunos vão se deparar com um grande número de pessoas fotografando as obras, e talvez eles mesmos também tenham essa vontade. Qual é a diferença entre olhar para uma pintura com os próprios olhos e por intermédio de uma câmera ou celular? O que muda? Qual é o tempo necessário para cada ação? Peça que reflitam sobre o ato de fotografar. Qual é a primeira intenção? Por que fotografar? O que será feito com a imagem fotografada? O que acontece com uma imagem quando ela é fotografada?

5. Retome a primeira aula e faça uma reflexão com os seus alunos sobre as diferenças entre a Frida Kahlo como um ícone pop, como uma estampa, relembrando as informações que eles já conheciam inicialmente, em comparação à imagem de Frida Kahlo que eles construíram após os estudos aprofundados em sala de aula. É importante ressaltar as Artes Visuais como uma área de conhecimento, com sua linguagem e código próprios. É fundamental adentrar a superfície por meio de um estudo aprofundado.

5. Mostre aos alunos os retratos de Frida Kahlo realizados por Nickolas Muray, fotógrafo e amante da artista. Compare-os com os auto-retratos realizados em pinturas. Pode-se dizer que Frida Kahlo não se retratava por vaidade, mas por necessidade, dentro de um processo de cura e auto-conhecimento. Peça que seus alunos façam uma árvore genealógica de suas famílias, regatem suas raízes e origens, relacionando-as com a História do Brasil.

6. Proponha uma reflexão sobre o uso da câmera fotográfica e do celular nos dias de hoje. Por que existe essa necessidade tão latente de se comunicar e fotografar a si mesmo? Peça que os alunos façam um selfie em suas casas e levem à escola, partindo das referências de suas histórias e gostos pessoais. Peça que escolham roupas, objetos, paisagens e animais, com os quais querem ser apresentados.

7. Olhe com os alunos para as imagens produzidas por eles e façam uma reflexão sobre as fotografias, seus elementos, composições e escolhas. Proponha a realização de auto-retratos com pinturas a partir das fotografias realizadas, ou então, a partir da observação de cada um em um espelho. Comparem os resultados das pinturas com as fotografias.

Neste momento o público paulistano tem a oportunidade de adentrar o universo e a obra de Frida Kahlo e seus contemporâneos. Até 10 de janeiro de 2016, o Instituto Tomie Ohtake apresenta a exposição Frida Kahlo: Conexões entre mulheres surrealistas no México.

Com curadoria de Teresa Arcq, a mostra traz para São Paulo mais de 120 peças, entre pinturas, esculturas e fotografias – além de documentos, registros fotográficos, catálogos, reportagens e vídeos – provenientes de diferentes coleções públicas e privadas dos Estados Unidos, Argentina e México. A mostra seguirá posteriormente aos espaços da Caixa Cultural no Rio de Janeiro e Brasília.

Autorretrato con Monos (1943), de Frida Kahlo / Banco de México Diego Rivera Frida Kahlo Museums
Autorretrato con Monos (1943), de Frida Kahlo / Banco de México Diego Rivera Frida Kahlo Museums

A exposição evidencia a efervescência deste momento histórico e cultural do México entre as décadas de 1920 e 1950, iluminando conexões e correspondências poéticas entre Frida Kahlo e as artistas mexicanas natas Lola Álvarez Bravo e María Izquierdo, junto às estrangeiras radicadas Leonora Carrington, Bridget Tichenor, Kati Horna, Jacqueline Lamba, Alice Rahon e Remedios Varo, entre outras.

O intenso compartilhamento de experiências entre estas mulheres fortalecia um sentimento de liberdade de expressão e criação, alimentado pelo desejo de compreender não só a elas mesmas, afirmando uma identidade de gênero, como também ao novo contexto político-sócio-cultural mexicano. Segundo André Breton, Frida atuava neste meio como uma espécie de farol, que irradiava relações.

Em 1907, ano do nascimento de Frida Kahlo, o México ainda vivia a chamada “Paz Porfiriana”. No poder desde 1876, o então presidente General Porfirio Diaz, havia instaurado (após 400 anos de Guerra Civil) uma política que evitava conflitos e rebeliões a qualquer custo, aliando-se a grupos conservadores, ao clero e até mesmo a imperialistas, que tornavam inabalável o seu poder.

Focado em pacificar o país com uma estabilidade política ditatorial, o “Porfiriato” construiu assim uma fachada moderna, seguindo tradições e referências europeias, enriquecendo uma minoria, enquanto a grande maioria dos mexicanos vivia na miséria.

Após uma sucessão de acontecimentos políticos e o crescente descontentamento do povo, em 1910 eclodiu a Revolução Mexicana no interior do país, continuando por longos dez anos. Frida Kahlo passou sua infância algumas vezes escondendo-se, ouvindo tiros e vendo sua mãe abrir as portas da casa para acolher os Zapatistas, alimentá-los e cuidar de suas feridas.

Nikolas Muray_Frida Kahlo en vestido azul_1939_Carbro print Ed
Frida Kahlo em vestido azul, 1939 / Nikolas Murray

Em 1920 a Revolução, já terminada, continuava transformando o país, que se consolidou como um lugar de vanguarda no debate político, social, educacional e artístico. Foi uma grande explosão de criatividade na pintura, no cinema, filosofia e literatura, impulsionada por uma conscientização nacional, que substituía os antigos ideais eurocêntricos pelo patrimônio indígena do México.

Neste momento, Frida, aos 15 anos, com a intenção de tornar-se médica, foi uma das primeiras mulheres a estudar na melhor escola secundária do país. Em 1922, a Escola Preparatória Nacional era um dos lugares mais afetados pelo clima pós-revolucionário, com um ambicioso plano de reestruturação do Ensino Público que tinha como base a construção de uma nova e autêntica história mexicana.

Foi aí que Frida entrou em contato com referências como Leonardo Da Vinci, Marx, Hegel e Kant, aprendendo a ler em três idiomas. Também viveu seus primeiros amores, entre homens e mulheres.

Passou a fazer parte de um grupo de amigos que se denominavam “cachuchas”, além de ter conhecido os pintores mais promissores do México naquele momento – todos homens, incluindo Diego Rivera – aos quais foram encarregadas as pinturas-murais da Escola, que deveriam recontar a história do país sob uma nova perspectiva, incluindo a mitologia indígena, a invasão espanhola, a industrialização e a revolta da classe operária, deixando para trás as tradições europeias.

Em 1925, aos 18 anos, ao voltar da Escola para sua casa em Coyoacán, Frida Kahlo sofre um grave acidente que muda por completo a sua vida. Um bonde se chocou ao ônibus de madeira em que estava. Houve muitas mortes.

Um corrimão de ferro atravessou o corpo de Frida pelo abdômen. Ela sofreu fraturas em três vértebras da coluna, três fraturas na bacia, onze fraturas na perna direita. Quebrou sua clavícula e três costelas, além do pé direito que foi deslocado e esmagado. Ninguém achou que sobreviveria.

Passou um mês no hospital e, durante a maior parte do ano seguinte, ficou de cama, imobilizada, em sua casa. É nesta situação que Frida começa a pintar. Seu pai monta um cavalete à sua frente e instala um grande espelho sobre a cama para que a filha pudesse se ver.

Diego en mi pensamiento (1943) / Banco de Mexico Diego Rivera Frida Kahlo Museums
Diego en mi pensamiento (1943) / Banco de Mexico Diego Rivera Frida Kahlo Museums

A vida e a obra de Frida Kahlo são indissociáveis a partir deste momento, assim como são inerentes também à história e ao contexto sócio-político mexicanos. Aos seis anos Frida foi diagnosticada com poliomielite, passando por uma longa recuperação de nove meses, que a fez posteriormente passar a vestir saias longas e calças compridas como uma forma de lidar com suas sequelas.

Após o acidente, ela não só teve que se recuperar mais uma vez, como precisou reconstruir o seu corpo e a sua imagem desde o seu interior mais profundo. Frida começou a pintar sem pretensões artísticas, já que era a única ocupação que a ajudava a passar o tempo na cama.

Pintava o que via, e afirmava que lhe interessava tirar de si mesma as imagens e os diversos assuntos que povoavam sua cabeça. Neste sentido, o fato de ser ela mesma o seu tema principal, não era mais que uma necessidade. Frida foi invadida por suas dores e o que via era a si própria. Pintar a si mesma era uma urgência, um processo de cura e auto conhecimento.

A história do país estava sendo revista, assim como Frida estava se reconstruindo, se reconhecendo. Filha de Guilhermo Kahlo, um refugiado judeu-alemão, e de Matilde Calderón, de sangue espanhol e indígena com ascendência Zapoteca, Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón era uma típica mestiça mexicana.

Casa-se com Diego Rivera aos 21 anos, seu companheiro por toda a vida. Sua mãe, católica fervorosa, obviamente não foi a favor da união da filha com um artista, comunista e ateu, embora Frida tenha desafiado sua tradicional família mexicana desde pequena, inclusive vestindo-se de menino por diversas vezes.

A relação amorosa com Rivera era extremamente conflituosa, separam-se diversas vezes e casam-se novamente sob a condição de uma “independência mútua”. Frida teve diversos amantes, homens e mulheres, sérios e casuais, de longo e curto prazo. No entanto, a troca, o amor e a conexão entre Frida e Diego eram muito profundos, um encontro de almas.

Diego tinha uma posição política clara e engajada, fazia arte pública, era Trotskista e membro do Partido Comunista Mexicano. Frida não era política por conta de uma ideologia específica, mas por ser radicalmente artista, por estar conectada com o seu coração, com a alegria de viver apesar das dores e abortos que a assombravam, por amar homens e mulheres, e contestar convenções e virtudes burguesas.

Retrato da pintora em 1931 / Lucienne Bloch
Retrato da pintora em 1931 / Lucienne Bloch

Também por ser contra a objetificação da mulher, por ser deficiente e independente, olhando constantemente para si mesma e para o seu tempo e lugar no mundo.

A construção e constante revisão de sua imagem “exótica” a partir de referenciais pré-hispânicos, pré-colombianos e até mesmo ícones da igreja católica, compunham sua personalidade forte, cativante e debochada, atraindo pessoas influentes de todo o mundo.

Sua casa, onde nasceu e morreu, foi palco de infinitos encontros, almoços com comidas típicas, lugar onde recebia seus alunos, e até mesmo abrigo político. Tinha uma coleção de ex-votos, animais como macacos, papagaios e cachorros (incluindo um xoloitzcuintles, raça pré-colonial respeitada pelos Astecas, presente de Diego) soltos em um jardim deslumbrante de plantas tropicais que cresciam livremente. Todas essas referências apareceram em suas pinturas.

Sua coragem, talento e autenticidade tornaram-na uma artista de sucesso, apesar de ter realizado um total de 143 obras. Seu corpo pequeno, frágil e debilitado era protegido e decorado excessivamente com jóias e roupas tradicionais mexicanas de diferentes origens, de maneira quase performática.

Frida cria uma obra que internaliza a cultura de seu povo, construindo seu invólucro de dentro para fora. Sua originalidade vem de fato da busca de suas origens, bem como a conexão com suas raízes a transformam em uma artista radical.

Frida Kahlo produz narrativas que de tão íntimas e subjetivas, se tornam disparadoras de discussões de interesse social, cultural e político, porque ecoam e apontam assuntos que geram processos de identificação profunda, apesar da intensa reprodutibilidade de sua imagem nas mais diversas superfícies.

* Mariana Serri Francoio é artista plástica e educadora formada em Bacharelado e Licenciatura pela FAAP. Paralelamente à produção artística, trabalha com Ensino da Arte há mais de 15 anos. Realizou a Coordenação da Formação dos Educadores da 29a Bienal de São Paulo, e coordenou de 2008 a 2014 o Núcleo de Atendimento ao Público da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake, onde trabalhou desde o início de 2004. Mais informações no site

Exposição
Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México. Instituto Tomie Ohtake. Rua dos Coropés, 88, Pinheiros, São Paulo (SP). Até 10/01

Saiba mais

Livros
Carta Apaixonadas de Frida Kahlo, de Frida Kahlo e Martha Zamora. Compilação de Martha Zamora; Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

O Diário de Frida Kahlo: Um auto-retrato íntimo, de Frida Kahlo. Tradução Mário Pontes; apresentação Frederico de Moraes. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994.

Frida’s Fiestas: Recipes and Reminiscences of Life with Frida Kahlo, de Guadaloupe Ribera e Marie-Pierre Colle. Clarkson Potter Publishers, 1994.

Frida, A Biografia, de Hayden Herrera. Editora Globo.

A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamin. Tradução Gabriel Valladão Silva. L&PM, 2013

Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México. Curador Paulo Miyada, Agnaldo Farias. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2015. Catálogo da Exposição de 27 de setembro 2015 – 10 janeiro 2016.

Sites
Museu Frida Kahlo

Filmes

“A Extraordinária Beleza da Verdade: A vida e os tempos de Frida Kahlo”, de Amy Stechler. Disponível em espanhol

“Vida e obra de Frida Kahlo”- Canal Futura (versão reduzida do vídeo anterior, em português).