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Crianças brincam de roda
Levante com a turma modos de brincar de roda e repertórios diferentes

 


Símbolos, tradição e cultura estão presentes na magia das cirandas e cantigas de roda. Talvez não possamos determinar sua origem: as mais diversas tradições de diferentes povos, ao longo da história da existência humana, estão presentes em cada brincadeira, no brincar dos brincantes.

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…
(Roda Viva, de Chico Buarque)

Geralmente de mãos dadas e em círculo, o grupo descreve movimentos no espaço. Cada um na roda e no conjunto que dança contribui para a pluralidade do encontro e pode perceber o próprio corpo no grupo.

Quem está à minha frente pode vir a ser meu espelho, quem está ao meu lado, um parceiro. Todos giram em torno de um mesmo eixo numa situação de integração, assim os corpos se relacionam.

Ao mesmo tempo, nos movimentamos em torno do nosso próprio eixo e, com isso, cada corpo pode se organizar em si próprio, deslocando-se no espaço. A roda abre e fecha…

Abra a roda,
tin dô lê lê
Abra a roda,
tin do lá lá
Abra a roda
tin dô lê lê
tin dô lê lê
tin do lá lá

Atividade didática para a Educação Infantil

Expectativas de aprendizagem: Memorizar cantigas para poder cantar; Participar de cirandas e brincadeiras de roda, cantando e executando a coreografia esperada com ou sem precisar ter o professor como modelo; Produzir decalques de cantigas de cantigas conhecidas.

1, Criação de painel

Num espaço que possibilite a movimentação ou rearranjando da sala de aula, chame as crianças para que fiquem bem próximas, no centro desse espaço. Lentamente, pelo gesto do professor, vão dando as mãos e assoprando para o centro, como que para “encher” a mesma como se fosse um balão.

A roda vai abrindo, crescendo, crescendo até que em algum lugar as mãos se soltam. Todos voltam rapidamente para o centro, como um balão que se esvazia. Depois de repetir algumas vezes respeitando o interesse do grupo, respiração trabalhada, começar uma ciranda que pode ser Ô abra a roda tin do lê lê, por exemplo.

Aceitar as sugestões das crianças tanto para variações quanto para “girar” entoando outras canções que queiram compartilhar. Depois sentados no chão, anotar em um papel craft colocado no centro da roda, a lista das cantigas levantadas. Esse painel permanecerá na classe.

2. As vivências de cada um
Converse sobre a origem dos saberes prévios trazidos pelas crianças, onde esse brincar acontece, anotar algumas letras e discutir o sentido que cada um dá para as mesmas, as diferenças nos versos cantados, na movimentação proposta, buscando um olhar sensível para a singularidade de cada interpretação, para as diferenças.

3. Pesquisa de repertório
Pense com a classe como levantar com pais e avós o repertório de cantigas de roda de quando tinham a idade deles, de modo que o resultado possa ser compartilhado em sala. Do que, onde e como brincavam, nacionalidade ou origem das famílias. Esses dados poderão, também, ser comparados com a lista das crianças que pode ser complementada. Semelhanças, diferenças, o que se mantém, o que mudou.

4.Canções diferentes
Os professores podem contribuir com músicas não só de sua infância e de suas famílias, mas também com material pesquisado no sentido de enriquecer a coleta que está sendo organizada: com cantigas de roda de diferentes ritmos; que caracterizem a influência de diferentes povos em nossa cultura; canções populares da infância de outros povos; gravações com crianças cantando, com instrumental, só adultos, e assim por diante.

5. Criação em grupo
Crie novas letras e movimentos para as melodias conhecidas. E brincar, brincar muito! Quem sabe os outros grupos da escola também entram na roda?

6. Evento
Convide as famílias para um dia de cantigas de roda na escola.

Gira para lá e para cá, para um lado e para o outro. Vai desenhando linhas sinuosas, entrando e saindo de espirais. Pode acontecer que, ritualisticamente, em algum momento, tenhamos que ficar parados, em silêncio, em pé ou agachados, olhos fechados, esperando:

Lencinho na mão,
Caiu no chão…

Gritos, correria. Cada um volta para o seu lugar.
A roda gira ora lenta, ora rapidamente. Podemos participar individualmente ou aos pares. Nos tocamos e somos tocados.

Menina sacode a saia,
Menina levanta os braços,
Menina tem dó de mim,
Ó Menina me dê um abraço.

Podemos dar as mãos e estas se encontram: uma para cima e outra para baixo – dar e receber. Os braços se estendem para os lados, para cima ou para baixo – céu e terra.

A moda das tais anquinhas
É uma moda estrangulada,
Depõe seu joelho em terra,
E faz a gente ficar pasmada.

Ficamos mais próximos ou mais distantes, somos afetados pelo outro nessa giração e isso é afeto.

E vai andando
tin dô lê lê
Batendo palma
tin dô lá lá
Me dê sua mão
tin dô lê lê
tin dô lê lê
tin do lá lá

Requebradinha
tin dô lê lê…

Nessa manifestação coletiva, a expressividade do gesto atende ao som da voz, ao canto entoado nos guiando. Há espaço para girar e brincar, para a imaginação e para a invenção.

Vai andando…
De trenzinho…
De marcha a ré…
Bem baixinho…

Será esse o encantamento?

O Cravo brigou com a Rosa
Debaixo de uma sacada,
O Cravo saiu ferido
E a Rosa despedaçada.

O Cravo ficou doente
A Rosa foi visitar,
O Cravo teve um desmaio
A Rosa pôs-se a chorar.

Siriri para cá, siriri prá lá

É preciso, ainda, deixar-se enredar, como canta Chico Buarque,
“nas rodas do coração” por uma música para ser brincada, com o corpo e que vive na inter-relação: palavra-poesia, música, dança e o outro. Ao se movimentar, cada um respeita o ritmo dado pela música e muitos são os ritmos, mas respeita também seu ritmo interno, tempo e espaço, eu e os outros no conjunto.
Deixar-se levar é arriscar-se por um desejo de estar num lugar onde não há o erro. O que vale é a expressão e a coragem de participar. A tradição permite e contém a transformação:

A moda das tais anquinhas
É uma moda deliciosa,
E pondo o joelho em terra
As moças ficam formosas

O saber circula e vai construindo conhecimento. Um conhecimento de si, do outro, da cultura, da tradição. No Brasil, recebemos a influência de várias culturas, em especial da lusitana, da africana, da ameríndia, da espanhola e da francesa.

Qual o lugar das Cantigas de Roda hoje? Onde é permitido que as crianças brinquem?

Nossa música de tradição popular da infância, muito recentemente, vem acordando de um adormecimento que se traduzia pela falta de repertório gravado ou editado em livros e é da memória dos mais velhos e entre as populações rurais de regiões mais distantes – que fazem a roda e cantam, também, para o sol e a lua, para evocar a fertilidade do solo e para festejar uma boa colheita, que ela vem sendo resgatada e publicada.

Como bem destaca Lydia Hortélio, não basta dar a conhecer apenas a dimensão sonora das cantigas de roda, é preciso usar dos meios disponíveis para levar ao brincar. O que cria um paradoxo, pois é na dinâmica das crianças brincando que está a riqueza do aprender a brincar, ou seja, as crianças aprendem entre elas mesmas.

*Márcia Lagua de Oliveira é doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP e autora de Arte e Construção do Conhecimento na Emia (Fapesp/Casa do Psicólogo) 


Saiba Mais

Livros
Almeida, M. Berenice & Pucci, Magda Dourado. Outras Terras, Outros Sons. São Paulo: Editora Callis, 2003

Brito, Teca Alencar de. Música na Educação Infantil. São Paulo: Peirópolis, 2010

Palavra Cantada. O Livro de Brincadeiras Musicais da Palavra Cantad. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2010

Reis, Inimar dos. Folias e Folguedos do Brasil. São Paulo: Paulinas, 2010

CDs

Abra a Roda Tin Dô Lê Lê
Pesquisa e direção Lydia Hortélio
São Paulo: Brincante, s/d

Cantigas de Roda
Produzido por Sandra Peres e Paulo Tatit
São Paulo: Palavra Cantada, 1998

Estrelinhas
Produzido por Carlos Savalla
Rio de Janeiro: Savalla Records, s/d

Pandalelê, brinquedos cantados
Livro, áudio e CD-ROM
Palavra Cantada, s/d