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Expoente da nova geração de biógrafos, o jornalista Lira Neto tratou da vida de Getúlio Vargas
Expoente da nova geração de biógrafos, o jornalista Lira Neto tratou da vida de Getúlio Vargas

Entre a aventura, a memória e a intimidade, uma biografia revela a trajetória de alguém num certo recorte de tempo ou no transcurso de toda sua existência. O gosto dos leitores por saber sobre a vida dos outros, aqueles que admiram ou desprezam, torna popular o gênero tanto lá fora quanto aqui: numa espiada pelas listas de mais vendidos, quase sempre é possível encontrar mais de um título.


Leia atividade didática de Língua Portuguesa inspirada neste texto
Ano do Ciclo: 7º e 8º anos
Objetivos de aprendizagem: Relacionar a biografia ao seu contexto de produção (interlocutores, finalidade, lugar); Interpretar a posição do autor em relação aos eventos relatados ; Estabelecer relações intertextuais entre o texto e outros a que ele se refere; Trocar impressões com outros leitores a respeito das biografias lidas.

Possibilidade Interdisciplinar: História
Tempo de Duração: 05 aulas (além do tempo destinado à leitura da(s) biografia(s) selecionada(s)

Instigue seus alunos a debater como são feitas as biografias

1) Leve biografias de vários tipos para que seus alunos possam, em grupo, avaliar, discutir e responder a algumas questões. Devem ser observados título, subtítulo, orelha, sumário, bibliografia e fontes usadas para realizar o livro. Ideal será que cada qual possa fazer um relatório ou resenha seguindo esse mesmo roteiro de perguntas após a leitura da biografia que escolher.

2) Biografado e biógrafo – Algumas perguntas podem ser feitas quanto ao personagem escolhido pelo biógrafo. De que época é, onde nasceu e viveu? Por que interessa contar sua história? Também podem ser feitas perguntas sobre o autor da biografia. Qual sua formação e trajetória, de que modo isso se reflete na obra? Como aborda o personagem?

3) Quanto à abrangência do livro, é interessante notar: qual a extensão, a variedade de temas em torno do personagem e seu recorte?

4) Na observação das fontes usadas, há muitas perguntas a fazer: Há entrevistas? Quem é ouvido? O próprio biografado? Amigos e família? São usados documentos impressos ou audiovisuais? Quais os arquivos percorridos? No Brasil e no exterior? Na bibliografia, podem ser verificados: o que há já escrito sobre próprio personagem? Sobre quais temas o autor teve de pesquisar?

5)A estrutura pode ser avaliada a partir de algumas perguntas: De que modo o livro se divide, se organiza? Em ordem cronológica? Por temas? De que tratam as seções, os capítulos? Há quebras, intervalos de tempo, de espaço e tema? Os capítulos são longos ou curtos?

6)Sobre o texto, pode-se notar, primeiro, qual o registro: Formal ou informal? Descritivo, analítico? Humorado? Dramático? Há suspense? Mistério? Quais os recursos adotados – descrições, diálogos, imagens? Existem trechos de cartas, de entrevistas, de jornais e revistas, de documentos, de obras do biografado ou outros?

7) Enfim, chegamos ao resultado. De que modo as escolhas do autor foram bem-sucedidas? Qual o partido tomado pelo autor; o que deu (ou não deu) certo? Você considera o livro informativo, inovador, útil, empolgante, frouxo? O que considera como lacunas ou equívocos? No conjunto de livros sobre o mesmo personagem, seu tempo e lugar, de que modo este se destaca?

Quando bem realizado, um relato desse tipo foge do que seria um mero desvendar da privacidade alheia para constituir-se num projeto híbrido, no qual se podem combinar campos como a história, as artes, a crítica literária ou musical, a sociologia.

O gênero tem uma origem que remonta à Roma antiga: no século V, Plutarco produziu uma série que denominou de Vidas Paralelas, com quase 50 volumes, dedicada a ilustres líderes gregos e romanos. Somente na época moderna surgirá a expressão “biografia” para definir obras como essas, que se expandem e ganham público na Europa do século XIX.

As biografias logo chegam ao Brasil, onde vão ser escritas – e, consequentemente, lidas – com regularidade a partir dos anos 1930, período de grande impulso da indústria do livro. Jovens romancistas em ascensão vão experimentar o gênero, como Erico Verissimo, com sua história da guerreira santa Joana d’Arc, e Jorge Amado, que tratará do poeta do romantismo Castro Alves e, mais tarde, do líder comunista Luiz Carlos Prestes.

Haverá autores para se dedicar com afinco ao ofício de biógrafo. Destacam-se Octavio Tarquínio de Souza, que publicou, entre outros, seus célebres três volumes sobre dom Pedro I, e Eloy Pontes, com livros sobre Raul Pompéia, Euclides da Cunha e Olavo Bilac.

O gênero nunca deixou de ter lançamentos regulares no mercado editorial brasileiro. A moderna biografia por aqui se inaugura entre as décadas de 1980 e 1990, com nomes como Fernando Morais, autor de, entre outros, Olga e Chatô, e Ruy Castro, Nelson – O Anjo pornográfico e Carmen. Uma nova geração inclui Lira Neto, biógrafo, entre outros, de Getúlio Vargas, e Mário Magalhães, que tratou da trajetória do líder comunista Carlos Marighella.

O leitor comum decerto não imagina os desafios que contar a vida dos outros oferece a um autor – não é apenas ligar o gravador e escutar o que o personagem tem a dizer, se não morreu. Bastante comuns hoje, esses projetos têm seu valor, mas devem ser chamados como “livros-depoimento”. Na construção de uma biografia, há uma intricada operação de pesquisa e escrita, que envolve o uso de fontes diversas e a elaboração de um texto mais complexo.

Como começa? Quase sempre com um levantamento de toda a bibliografia existente sobre o personagem – se não foi ainda objeto de artigos ou estudos, decerto teve cobertura da imprensa – para identificar o projeto que a realizar e como vai se diferenciar do que já existe. Somente assim é possível encontrar um novo caminho, um ângulo novo, um território a desbravar. O biógrafo define, assim, o que vai constituir sua pesquisa: as fontes documentais, as fontes orais, a bibliografia principal e a de apoio.

Isso porque, além de todo material a respeito do biografado, é imprescindível levantar o que foi publicado a respeito do tema que o circunda. Por exemplo, caso se trate de um compositor, o que há sobre seu gênero, época e parceiros. As bibliografias contidas nos livros consultados funcionarão como novas janelas.

Muitos desses títulos não circulam mais, então devem ser procurados em bibliotecas e sebos. É importante ler a bibliografia com olhar crítico: muito do que já foi dito pode ser objeto de contestação ou discordância. Conforme inclui ou exclui personagens, temas e contextos, dá direcionamento ao relato. A nova pesquisa pode – e deve – desfazer equívocos e desconstruir mitos.

A definição das fontes orais é outra etapa importante. É preciso estar atento para todos os nomes próximos ao biografado. Nem sempre o entrevistado dirá tudo de uma vez, sobretudo a respeito de questões mais íntimas ou complexas. Não se pode confiar na memória de ninguém; tudo deverá ser checado. Um erro comum é acreditar que, dada a proximidade do entrevistado com o biografado – por exemplo, é o filho ou a mãe –, tudo o que diz aconteceu tal e qual.

Nem todas as pessoas guardam tão bem os detalhes, e mesmo há confusões inevitáveis com o passar do tempo. Honestidade é condição fundamental na relação com o biografado, seus familiares e amigos. É preciso perguntar sobre todos os temas, mesmo os mais difíceis e problemáticos. Por vezes se encontra resistência. Deve-se convencer o interlocutor de que é melhor tocar no assunto e esclarecer, pois os relatos nunca deixarão de existir e poderá ser a oportunidade de registrar todas as versões.

Uma pesquisa exaustiva não necessariamente deve resultar num texto exaustivo. Quase sempre é na capacidade de síntese que está o trunfo de uma boa narrativa. Não estão descartadas as biografias extremamente detalhadas – mais uma vez, detalhamento não pode ser sinônimo de prolixidade. Sobretudo o mais importante será sempre ter algo inédito, um olhar único, alcançar conexões e sentidos sobre a trajetória de uma vida, e não apenas recolher depoimentos e enumerar episódios acriticamente.
A depender da extensão e da abordagem, biografias variam.

Entre as classificações usuais no mercado editorial, há a biografia definitiva, o perfil biográfico, o ensaio biográfico, a biografia romanceada. No primeiro caso, tem-se um relato amplo, o mais completo possível. Um “perfil biográfico” deve ser considerado como projeto de menor extensão, com enfoque delimitado e mergulho temporal mais curto. Não significa que o livro será menos interessante, belo ou relevante. No ensaio biográfico, a trajetória de alguém é tomada como ponto inicial para uma reflexão de longo alcance na área das artes, da crítica, das humanidades. O tipo de relato é mais dissertativo que narrativo.

Na biografia romanceada, o autor descreve cenários que não viu, imagina diálogos e expressões, a partir de uma pesquisa documental ou bibliografia existente. Recorre à invenção para realçar, enfatizar, dar sentido, ritmo e coloração. Uma biografia romanceada é biografia ou romance? A melhor resposta será: os dois gêneros ao mesmo tempo.

Não apenas pessoas podem ser biografadas: também objetos, gerações e lugares. Nessa modalidade, o autor considera como “vida a biografar” não uma pessoa, mas uma geração, um lugar ou mesmo um objeto. Nem sempre o termo “biografia” é usado, por vezes esse tipo de livro é definido como “uma história de”, “reportagem”, “retrato”. O procedimento é o mesmo do biográfico, pois o que será biografado é tomado como unidade que será vista através do tempo, num relato que considera sua origem e transformações. Emília – Uma biografia não autorizada da Marquesa de Rabicó, de Socorro Acioli, é um desses exemplos inventivos recentes. Conta a história da personagem de Monteiro Lobato como se fosse alguém que tivesse existido.

A escolha do que biografar dá-se de muitas maneiras. A afinidade com o biografado, o conhecimento prévio do que o circunda, a atuação em área próxima e mesmo a ocasião – o que inclui desde a facilidade de acesso ao tipo de efeméride em vista – são fatores que autores e editores levam em conta na hora de decidir.

Um biografado cuja história nunca foi contada tende a ser uma melhor escolha; no entanto, mesmo aquele que tem merecido vários relatos pode ser uma grande opção, a depender da novidade do que será apresentado. Muitos projetos partem das editoras. Pode-se procurar uma editora antes de começar, na fase inicial.

O que costuma ser mais comum é preparar o livro e apresentá-lo. O editor poderá, avaliando o conjunto, orientar sobre enfoques e lacunas, sugerir acréscimos e correções, propor alterações tanto de informação quanto de texto. A checagem de todos os dados é uma operação lenta, dispendiosa, porém imprescindível.

Uma biografia nem sempre cumpre o que pretende. Erros factuais costumam ser lamentáveis, mas há de se considerar que revisões podem ocorrer em novas edições e isso é natural. No entanto, há algo pior: um biógrafo que, a priori, antipatiza ou simpatiza com o biografado perde a oportunidade de fazer um trabalho completo, verídico ou novo. Biografias que nascem como projetos amplos, mas acabam superficiais ou rasas, frustram o leitor. O contrário é sempre melhor: um projeto de menor porte que surpreende pelos insights e condução.

* Joselia Aguiar é jornalista, doutoranda em história pela FFLCH-USP e está concluindo a biografia de Jorge Amado para o selo Três Estrelas, da Folha de S.Paulo.