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Xadrez antigo
Representação de uma partida de xadrez no Livros dos Jogos, do rei espanhol Alfonso X

Quem adentrar pela história da origem dos jogos e dos brinquedos certamente se deparará com algumas dificuldades, entre elas a falta de registros, a pobreza de informações e até mesmo a compreensão sobre o significado do termo. Nesse sentido é bom esclarecer qual é de fato o conceito que temos de jogo. Seria ele sinônimo de brincadeira? Quando e como se originou na história? Qual a sua importância do ponto de vista cultural? Qual o valor no processo de desenvolvimento e de socialização dos seres humanos?


Etimologicamente, o termo jogo advém do latim ludus, ludere, que designava movimentos rápidos, mas referia-se, também, à representação cênica, aos ritos de iniciação e aos jogos de azar. Com tantos significados e aplicado o termo em diferentes contextos, nesse particular tema de aula, a palavra jogo será utilizada como sinônimo de brincadeira, independentemente das tênues diferenças existentes entre eles. Por outro lado, brinquedos são objetos que servem de aporte para as brincadeiras.

Leia atividade didática de História inspirada neste texto
Anos do ciclo: 1° ao 3°
Tempo de duração: 5 aulas
Objetivos de aprendizagem: identificar formas de convívio social nas brincadeiras em diferentes tempos

1. Por que alguns jogos e brincadeiras conseguiram se perpetuar por tanto tempo?

2. Quais as brincadeiras que você se recorda de ter realizado quando criança? Com quem e onde brincou?

3. Por que foram significativas para você? Podem, ainda, ser realizadas nos atuais espaços?

4. Pergunte a seus pais e avós quais jogos eles se recordam de ter realizado quando crianças. Quais permaneceram e quais mudaram?

Concordamos, portanto, com Victoria Mir, ao mostrar que o jogo é uma manifestação otimista, alegre e plena da energia vital, uma atividade humana repleta de significados e que, além do desenvolvimento, favorece também a aprendizagem, o prazer, a inserção na cultura, a solução de problemas e a socialização. A universalidade e a temporalidade do jogo e do brinquedo os transformaram em atividades peculiares, comuns a inúmeras civilizações, independentemente das características observadas nos diferentes contextos.

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Culturas lúdicas em áreas ribeirinhas

Com tal perspectiva, neste tema de aula, consideramos o jogo como sendo um processo dialético caracterizado por uma ação tanto física quanto mental, que ocorre dentro dos limites de um determinado tempo e local, caracterizando-se por influenciar mudanças de comportamento similares às que ocorrem com o um pêndulo de um relógio. Jogar permite ir da alegria à tristeza, do modelo à fantasia, da liberdade à regra, da imitação à criatividade. Pode ou não ser enriquecido com brinquedos, mas essa não é a única condição para brincar.

Recuperar a história dos jogos consiste em trilhar pelos caminhos percorridos pela humanidade, observando seus contextos, entendendo a maneira de ser e estar presente no mundo em determinado momento. Entendendo que tais atividades nem sempre foram específicas de crianças ou de adultos, mas de todo o grupo social dentro do qual ocorriam as interações, a socialização, a aprendizagem dos costumes e as práticas religiosas e educacionais.

Senet
Decoração de túmulo mostra rainha Nefertari com um dos jogos do Egito, o Senet

Como as sociedades humanas a princípio eram nômades, sabe-se que a dificuldade em diferenciar as atividades lúdicas por faixas etárias era complexa. Por essa razão optamos por dividir este artigo em períodos históricos, como Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna. Outro aspecto a ser considerado é o fato de que a infância é uma invenção da sociedade moderna, portanto, atividades lúdicas, na maioria das vezes, não eram próprias a essa idade da vida, dificultando mais suas descrições pormenorizadas.

Portanto, parte das informações aqui descritas foi obtida em fontes históricas e arqueológicas, buscando alinhavar e relacionar algumas especificidades que nos trouxessem pistas para as brincadeiras atuais. Vale a pena ressaltar que as atividades lúdicas têm origem na cultura, porque consistem em representações das realidades de onde se originaram, locais em que os adultos e crianças aprendiam conjuntamente.

Embora, atualmente, a ação de brincar seja considerada natural da criança e um de seus principais direitos, ela parece ter se constituído em uma atividade própria da infância a partir do Concílio de Trento (1545-1563), conselho de bispos que tornou os jogos pecaminosos, banindo-os da sociedade. A obra de Huizinga, Homo Ludens, de 1943, mostrou que, antes de o homem se constituir na espécie homo faber, ele já brincava.

As sociedades nômades não deixaram registros de suas vidas e de suas culturas. Havia poucas crianças, porque transportá-las diante das adversidades não era fácil. Entre algumas civilizações clássicas foi possível obter mais informações sobre o assunto por meio de objetos encontrados nas tumbas de adultos, em geral da nobreza ou dos mestres das crianças, que, ainda assim, nem sempre se apresentavam completos.

Mais do que os próprios brinquedos muitos jogos retrataram atividades culturais e econômicas da época, como foi o Jogo Real de Ur, de 3500 a.C., encontrado em um túmulo da nobreza. Na Mesopotâmia, foram encontrados quadrados mágicos, utilizados mais tarde para a elaboração dos horóscopos.

Entre os fenícios, uma das heranças mais importantes foi o Jogo da Trilha, um tabuleiro dividido em quatro áreas, representando cidades famosas pelo seu comércio, como Biblos, Sidon e Tiro, famosas pelo seu comércio. Graças à escrita hieroglífica e aos pictogramas deixados pelos egípcios, conhecemos alguns de seus jogos, especialmente o Senet, uma representação da passagem do mundo dos vivos para o dos mortos. Salienta-se mais uma vez, porém, que, em sua grande maioria, as atividades lúdicas retratavam aspectos culturais de um determinado povo.

Outros objetos, brinquedos, também surgiram como aporte para as brincadeiras, por exemplo, animais de madeira com a cabeça articulada e os olhos de vidro, além de bolas de argila que continham pedras dentro para atrair a atenção dos pequenos.

Na Antiguidade, os gregos e os romanos deixaram grandes legados na perspectiva da ludicidade, tais como a prática de atividades físicas e o uso de bonecas e animais de barro, além de assobios como o Silreil existente ainda na Maiorca, ilha localizada no arquipélago das Baleares, norte da Espanha.

Os gregos também nos deixaram bonecas e objetos de barro miniaturizados à semelhança do mundo adulto, para que as crianças brincassem. Deles herdamos o “aro”, uma roda de ferro equilibrada por um bastão durante a corrida que servia para treinar equilíbrio e delicadeza de movimentos.

Ao conquistarem a Grécia, os romanos incorporaram sua cultura, assimilando algumas práticas lúdicas como bonecos, utensílios domésticos de barro, labirintos e até mesmo jogos de tabuleiro. Muitos brinquedos foram elaborados a partir de elementos da natureza, como folhas e frutos, com os quais faziam bonecos, animais e outros utensílios usados nas práticas cotidianas. Um dos exemplos mais interessantes foi encontrado em pisos de casas romanas confeccionado por mosaicos, formando desenhos de labirintos para entreter as crianças. Talvez a atividade lúdica mais conhecida tenha sido o Jogo das Pedrinhas, ou Cinco Marias, chamado de “astrágalo”, nome atribuído aos ossos das patas dos carneiros, que, por serem quadrados, auxiliavam as jogadas.

Outra prática comum entre aquele povo parece ter sido a corda para desenvolver habilidades físicas. Há registros da Amarelinha, conhecida como Jogo de Odres, que possui um desenho no piso do Fórum Romano. Sabe-se, por exemplo, que se realizava sobre a pele azeitada de um bode para desequilibrar os jogadores.

Embora na Antiguidade tenham sido escassos os registros sobre brinquedos e brincadeiras, a situação não se modificou durante a Idade Média, na qual a infância era desvalorizada em razão do alto índice de mortalidade infantil. Tanto a expansão comercial na Europa quanto as mudanças religiosas alteraram a visão da infância, afastando-a dos padrões clássicos, tratando-a, por vezes, complacentemente, caracterizando sua inocência.

Salienta-se também que, com a entrada dos muçulmanos na Europa, especialmente na Espanha, os jogos de dados se espalharam, pois tornaram-se conhecidos graças à obra de Afonso X, O Livro dos Jogos, que os dividia em três grandes categorias: azar, cartas e loterias. Com o tempo, porém, o catolicismo reprimiu tais atividades lúdicas, deixando com que a obra do rei espanhol se constituísse em um dos poucos legados sobre os jogos de azar. Esses jogos tiveram sua fabricação interditada logo após o quarto Concílio de Latrão. Tal fato contribuiu para que perdessem seu prestígio.

Embora em diferentes contextos, alguns jogos apareceram simultaneamente, não havendo certeza de como se espalharam pelo mundo. Um dos exemplos mais famosos foi o xadrez, conhecido como chaturanga, inventado por um sábio da corte indiana que nele representou os quatro elementos do exército: carros, cavalos, elefantes e soldados comandados pelo rei e seu vizir. Da Índia o xadrez estendeu-se para a Pérsia, a Arábia e a Europa.

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A importância de brincar sem brinquedo

Em 1960, Philipe Aries publicou uma obra sobre a história da criança na Idade Média e princípio da Idade Moderna na Europa, fazendo pela primeira vez uma análise séria dessa etapa da vida. O historiador francês sustentou que os europeus tradicionais não tinham uma visão clara da infância como um estágio de vida e, comumente, marginalizavam-na da vida familiar.

No século XVII começou-se a perceber o valor educativo do jogo, adotando-se medidas menos radicais em relação a ele. Isso fez com que fossem introduzidos e, por vezes, oficialmente regulamentados nos colégios após as tarefas escolares como forma de relaxamento. Principalmente, os jogos que envolviam exercícios físicos foram adotados. Portanto, os brinquedos parecem sempre ter existido como formas de inserção das crianças na vida adulta. Bonecas, bolas, animais e carrinhos fizeram parte do universo lúdico, mediando a sua entrada nos diversos contextos.

Por volta dos séculos XVII e XVIII, muitos artesões, especialmente na Alemanha, passaram a utilizar o excedente da matéria-prima para a confecção de brinquedos que fizeram a alegria da criançada. No fim do século XIX início do XXI na Europa, tal fabricação passou a ser em série, aumentando a produção e estimulando sua aquisição.

Entretanto, é preciso ressaltar que, embora o brinquedo seja um suporte para o brincar, a atividade lúdica pode ser realizada sem ele e depende também de outros fatores, tais como interação adulto/criança e criança/criança. Na realidade, quem transforma um objeto em brinquedo são os pequenos graças à imaginação e criatividade.

Portanto, concordamos com Adriana Klisys, para quem o jogo é um mundo particular, regido por regras e interesses próprios das crianças. Com exceção de um ou outro adulto mais inteirado das brincadeiras, poucos participam desse universo. Talvez venha daí também uma particularidade interessante dos jogos: quem constrói e faz valer as regras é a criança. É um mundo de autoria infantil.

*Maria Angela Barbato Carneiro é professora titular e coordenadora do Núcleo de Estudos do Brincar da PUC-SP