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Destruição causada pelo Pauline
Instigado por El Niño, o furacão Pauline castigou a costa do México em 1997

Grandes quantidades de chuva entre o sul do Amazonas, o oeste de São Paulo e o norte do Paraná. E, ao mesmo tempo, secas severas na região do Nordeste. Com mais uma etapa da formação do El Niño iniciada em setembro de 2013, seu auge deve ser sentido na segunda metade de 2014, ano considerado o mais quente desde o início das observações meteorológicas. Em São Paulo, o fenômeno tem boas chances de provocar as tão esperadas chuvas acima da média entre dezembro e fevereiro de 2015.


Leia atividade didática de Geografia baseada neste texto
Anos do Ciclo: 6º e 7º
Objetivos de aprendizagem: Interpretar fenômenos do clima; Reconhecer aspectos climáticos e suas relações com o cotidiano e a economia local

Um proposta para realizar experimentos com objetos simples e de fácil acesso

1. Agora que sabemos mais sobre fenômeno climático chamado El Niño, que tal aprofundar seus conhecimentos e pesquisar a respeito do La Niña? a) Por que esse fenômeno tem esse nome? b) Quando ocorre? c) As sua características são semelhantes às do El Niño? d) Procure fazer uma comparação entre seus efeitos. Por que, ao contrário do El Niño, nos anos de La Niña observamos maior pluviosidade na região Nordeste do Brasil e estiagem nas porções meridionais do território?

2. No primeiro semestre deste ano, o estado do Acre foi assolado por uma das piores enchentes da sua história. O rio Madeira subiu cerca de 20 metros, provocando alagamento entre Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO). Procure descobrir se essas enchentes tiveram alguma relação com o El Niño iniciado no ano passado. Investigue também se as usinas hidrelétricas podem ter intensificado esse fenômeno.

3. Caso as previsões de chuvas acima da média no verão do Sul e Sudeste se confirmem, será suficiente para encher os reservatórios de água do Sistema Cantareira e amenizar o problema da seca que aflige atualmente várias cidades do estado de São Paulo?

4. Ouvimos normalmente que os eventos climáticos extremos que acontecem no planeta são consequência direta do aquecimento global. Cada vez mais se atribui à intensificação do efeito estufa pelo homem a ocorrência de furacões mais severos, secas e enchentes atípicas. Mas será que existe alguma relação entre Aquecimento Global e El Niño?

Mas, afinal, o que é o El Niño?

Trata-se de um fenômeno climático oceânico-atmosférico que se manifesta como um aquecimento (de 3 a 8 graus acima da média, aproximadamente) das águas do Oceano Pacífico nas proximidades da Linha do Equador. A comunidade científica ainda não sabe afirmar sua periodicidade exata. No último século, por exemplo, ele teria ocorrido cerca de 30 vezes, em intervalos de 2 a 11 anos.

O nome El Niño foi dado por pescadores latino-americanos em alusão ao Menino Jesus (Niño Jesus, em espanhol), já que o fenômeno costuma ocorrer no mês de dezembro, próximo ao Natal. A denominação teria surgido no Peru, país que há tempos sente os esporádicos efeitos da diminuição da disponibilidade de pescados nessa época do ano.

Não se sabe também ao certo o que causa o El Niño. Acredita-se que esteja relacionado a uma diminuição natural da velocidade dos ventos alísios que sopram no Hemisfério Sul. Normalmente, na porção sul-equatorial do planeta, os ventos alísios sopram no sentido leste-oeste a uma velocidade média de 15 metros por segundo.

Tais ventos constantes geram um aumento de cerca de 50 centímetros no nível das águas do Oceano Pacífico nas proximidades da Austrália, além de promover a formação de correntes de ar que empurram as águas superficiais, mais quentes, em direção à Oceania. Uma vez iniciado o aquecimento, estima-se que seus efeitos durem perto de 18 meses.

Isso é bom para a costa oeste da América do Sul. Como esses ventos alísios favorecem a ocorrência da ressurgência – processo por meio do qual as águas mais frias e ricas em nutrientes sobem à superfície oceânica graças à movimentação das camadas mais quentes em direção ao litoral australiano – os países costeiros podem contar com farta disponibilidade de pescados, dinamizando a economia dos mesmos. A pesca da anchova na costa do Peru, por exemplo, tem se mostrado uma das mais produtivas do mundo.

Nos anos de ocorrência do El Niño, percebeu-se que a velocidade média desses ventos constantes que sopram em direção aos trópicos diminui para aproximadamente 1 a 2 metros por segundo. A causa dessa redução ainda é um mistério para os cientistas, cujas pesquisas ainda não chegaram a um veredicto final.

O que se percebe, de fato, é que sem a força da ação dos ventos em condições normais, o nível das águas eleva-se em direção à América do Sul e as águas superficiais, pouco deslocadas, passam a ter sua temperatura aumentada.

Com esse aumento na temperatura da superfície do mar (TSM) do Pacífico leste-equatorial, muitas mudanças (com maior e menor intensidade, dependendo do ano de ocorrência) passam a acontecer na dinâmica da circulação atmosférica planetária. As transformações envolvem desde o aumento da evaporação em determinadas áreas, ocasionando mais chuvas, até as estiagens mais severas em outras regiões.

Aumento e queda anormais de temperatura também são perceptíveis. No caso da costa oeste sul-americana, por exemplo, há um comprometimento do fenômeno da ressurgência, levando à diminuição dos cardumes e à consequente perda econômica dos países que dependem dessa atividade.

Apesar de registrado desde 1877, os maiores picos já alcançados pelos efeitos do El Niño aconteceram nas últimas décadas, em especial nos períodos entre 1982/1983 e 1997/1998. O El Niño de 1982, por exemplo, causou tempestades torrenciais em zonas do Equador, do Brasil e do Peru.

Nos EUA, aconteceram enormes tempestades e chuvas ao longo da costa da Califórnia, causando prejuízos para a economia do país. Períodos de estiagem também foram observados na Austrália, Indonésia e Índia, trazendo fome para esses dois últimos países.

Os anos de 1997 e 1998 são considerados os mais devastadores. Os efeitos extremos do El Niño teriam resultado na morte de 21,7 mil pessoas e 4,8 milhões de desabrigados. Estima-se que mais de 117,8 milhões de pessoas tenham sido afetadas e os prejuízos somados em 27 países teriam atingido perto de 33 bilhões de dólares.

Em 1997, incêndios florestais de grandes proporções propagaram pela Indonésia e Austrália. No Brasil, a faixa de fogo que se estendeu pela floresta alcançou 1,6 mil quilômetros.

As consequências do El Niño 

Sem dúvida, as regiões mais afetadas pelo El Niño têm sido aquelas mais próximas ao Equador. Os países mais setentrionais, porém, também têm sentido o seu efeito. No Hemisfério Norte, por exemplo, presume-se ter sido o aquecimento anormal do Pacífico uma das causas das insuportáveis ondas de calor que aconteceram em 2010.

Na América Latina, nos anos em que o fenômeno ocorre, uma massa de ar quente e úmida, atuante no sentido noroeste-sudeste, é formada na região costeira do continente, na altura do Equador, por causa do aumento da TSM. Como consequência, a Colômbia (com exceção da parte litorânea), a Venezuela, a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa sofrem com a redução das precipitações e da vazão dos rios, enquanto no Equador e no noroeste do Peru ocorre justamente o contrário. Já na região dos altiplanos boliviano e peruano, o El Niño causa secas intensas.

Na Colômbia, as plantações de café são afetadas toda vez que as precipitações diminuem. No México, a ocorrência do furacão Pauline (com chuvas de 200 milímetros em 24 horas), devastou a costa do Pacífico, principalmente a cidade turística de Acapulco. As autoridades associaram a ocorrência da tempestade mais violenta desde 1959 ao El Niño. No Peru, entre 1997 e 1998, enchentes e deslizamentos assolaram o território.

Em inúmeras outras áreas do planeta, os efeitos da anomalia climática também foram sentidos. Todos os continentes sofreram efeitos de secas prolongadas, tempestades, tornados e incêndios que resultaram em mortos e desabrigados, epidemias e perdas econômicas, sobretudo na agricultura.

No Brasil, a massa quente e úmida gerada pelo fenômeno desviará a umidade da Massa Equatorial Atlântica (mEa) em direção ao sul do País. Entre as consequências climáticas possíveis estão secas severas na região do Semiárido nordestino, entre fevereiro e maio; secas atípicas no extremo norte do País, aumentando a incidência de queimadas na região; aumento da temperatura média e da pluviosidade no Brasil meridional, principalmente nos períodos de maio a julho e setembro a dezembro, ocasionando enchentes; aumento da pluviosidade e da temperatura média na Região Centro-Oeste; desvio da Massa Polar Atlântica (mPa) para o Oceano Atlântico antes de atingir o Sudeste do País, promovendo invernos mais amenos nessa região.

Como reflexo das mudanças climáticas, as perdas econômicas também acontecem, atormentando principalmente os agricultores. Se por um lado o aumento da pluviosidade pode levar a perdas no setor de grãos, por outro, o aumento das médias térmicas nas regiões Sul e Sudeste significa ausência de geada, o que beneficia o setor agrícola. No Nordeste, a estiagem traz perdas mais significativas: prejuízos na pecuária, na agricultura, queda na oferta de eletricidade  e comprometimento do abastecimento de água.

Por se tratar de um fenômeno instável,  esforços estão sendo feitos para aperfeiçoar as previsões. Já há no Pacífico boias capazes de monitorar a temperatura oceânica, medindo alterações que possam indicar a ocorrência do El Niño. Com base nos dados fornecidos pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), cientistas brasileiros procuram entender de que forma o fenômeno se irradia pelo oceano.

É de fundamental importância a previsão de alterações climáticas no território nacional, não apenas para evitar perdas humanas e mobilizar com antecedência o poder público, como também para estimar possíveis impactos negativos na atividade agrícola.

Principais efeitos associados ao El Niño

•  Águas mais quentes do que o normal no Pacífico Leste.
• Sensível diminuição 
da intensidade 
dos ventos alísios.
• Distribuição anormal 
da pressão atmosférica 
pelo planeta.
• Formação de nuvens convectivas sobre 
o setor centro-leste do Pacífico, com ocorrência 
de tempestades.
• Presença de ar descendente sobre o Atlântico Equatorial, inibindo a formação de nuvens.
• Secas atípicas no centro 
da África, Sudeste Asiático 
e América Central.

*Fabiana Zuliani Corrêa é professora de Geografia do Ensino Médio do Colégio Santa Cruz e da Escola Beit Yaacov