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Sauim

A Amazônia apresenta um número de espécies de animais ameaçados de extinção menos preocupante do que outros biomas brasileiros. Considerando apenas os animais com distribuição geográfica continental, há perto de 12 espécies de peixes ameaçadas, uma espécie de anfíbio, 16 de aves e 19 de mamíferos.


O fato de possuir a maior biodiversidade do planeta e de ter preservada grande parte de suas florestas é uma das principais razões para isso. Os que estão no alvo da extinção, no entanto, não podem ser ignorados. No artigo a seguir, vamos falar sobre as características de alguns desses animais.


Leia atividade didática de Ciências inspirada neste texto
Anos do Ciclo: 5° ao 7°
Área: Ciências
Tempo de Duração: 5 a 8 aulas
Objetivos de aprendizagem: Investigar a diversidade compreendendo cadeias alimentares e outras relações, identificando desequilíbrios ecológicos produzidos por intervenção humana.; comparar os biomas.

1) O que leva uma espécie a entrar em risco de desaparecer? Pesquise sobre as listas de espécies ameaçadas e as causas que levaram essas espécies a entrar nessas listas. Sugestões de links: o Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção e o livro sobre as espécies brasileiras de plantas ameaçadas de extinção. Os dois são de livre acesso.

2) Localize as espécies que ocorrem na Amazônia, veja quantas são e faça uma avaliação das causas (ameaças) mais frequentes. Compare com a Mata Atlântica, onde cenário é bem pior.

3) Procure alguns mapas que mostrem a quantidade de florestas e áreas protegidas em ambos os biomas (pode encontrar em sites de ONGs como SOS Mata Atlântica e ISA – Instituto Sócio Ambiental). Boa parte das espécies amazônicas ameaçadas está nas regiões mais desmatadas e fragmentadas. Faça uma reflexão de como é importante a existência de grandes áreas de habitat nativo protegidas em Unidades de Conservação ou até mesmo em Terras Indígenas. É a forma mais eficiente de proteger essas espécies.

Um dos ícones das espécies ameaçadas na Amazônia é o saguizinho sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), que está criticamente ameaçado. Trata-se de um animal pequeno, com aproximadamente 500 gramas, 27 a 28 centímetros de comprimento do corpo e 37 a 42 centímetros de cauda. Sua cabeça negra sem pelos e a pelagem branca do tórax e braços são suas características mais marcantes. Vivem em grupos de até 12 indivíduos e são extremamente territoriais. Apenas o casal dominante se reproduz, podendo dar à luz até duas vezes por ano a gêmeos. Alimentam-se principalmente de frutos e de invertebrados, mas podem consumir seiva, elaborada de algumas plantas, néctar, pequenos vertebrados e ovos.

Ao contrário da maioria das espécies do gênero, que é distribuída ao longo de grande parte da Bacia Amazônica e áreas vizinhas do Noroeste da América do Sul, o Saguinus bicolor tem distribuição geográfica extremamente reduzida, sendo endêmico na região de Manaus, Amazonas (abrangendo parte dos municípios de Rio Preto da Eva e Itacoatiara). Os sauins são territoriais e utilizam um sistema de vocalizações para delimitar e defender seu território, mas não é raro que ocorram confrontos físicos entre grupos vizinhos.

Nos últimos anos, essa espécie vem sendo reduzida. A instalação da Zona Franca de Manaus, nos anos 1970, dentro da área de ocorrência dessa espécie, incentiva a instalação de inúmeras indústrias na região e provoca o crescimento extremamente rápido da cidade, hoje com cerca de 2 milhões de habitantes. Com a ocupação humana da área, aumenta o desmatamento e a fragmentação do seu hábitat. Dentro da cidade, as populações que vivem nos fragmentos florestais restantes sofrem com ataques de cães, choques na fiação elétrica e atropelamentos, por causa do grande contato que costumam ter com as pessoas que vivem nos arredores de suas florestas. Como se não bastassem os desmatamentos, na área rural ocorre a competição com outra espécie de mico, o sauim-de-mãos-douradas (Saguinus midas).

Entre os peixes, uma espécie que chama a atenção é o acari-zebra (Hypancistrus zebra), pois além de ser extremamente bonito só pode ser encontrado nas cachoeiras e pedrais do Rio Xingu. Com o alagamento desses ambientes pela construção da Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, essa espécie terá o ambiente em que se especializou totalmente alterado, inviabilizando sua sobrevivência na natureza.

Alguns aquaristas e pesquisadores estão tentando desenvolver técnicas de reprodução em aquários, mas seu futuro é incerto. A destruição e a interrupção dos grandes rios, principalmente pela construção das hidrelétricas, associados à pesca intensiva, podem vir a colocar muitas outras espécies de peixes na lista de ameaçadas. Pois muitas espécies de peixes necessitam fazer grandes migrações nesses rios para desovarem em suas cabeceiras.

Nos anfíbios, uma pequena rã de 2 centímetros de comprimento, Pseudopaludicola canga, só não está na lista oficial das espécies ameaçadas de extinção porque as informações sobre sua situação de conservação só ficou disponível depois da última avaliação. Esta espécie é endêmica da vegetação de canga nas partes altas da Serra do Carajás, no estado do Pará, onde as atividades de mineração estão destruindo seu ambiente natural. Se tais atividades continuarem em ritmo acelerado, essa espécie poderá estar extinta em poucos anos.

Já entre os répteis, não há espécies amazônicas oficialmente ameaçadas, mas o comércio ilegal e consumo intenso de ovos e carne da tartaruga-da-amazônia há muito comprometem esses quelônios em diversas localidades, chegando inclusive à extinção local de algumas populações.

Das muitas espécies de aves listadas como ameaçadas de extinção, a ararajuba (Guaruba guarouba) e a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) saltam aos olhos pela exuberância de suas cores, mas a maioria das espécies tem a distribuição geográfica restrita à parte leste e sudeste da Amazônia, que justamente é onde a floresta vem sendo mais devastada há vários anos, tanto pela extração de madeira como pela criação de gado.

Além do sauim-de-coleira, muitos outros mamíferos são ameaçados de extinção na Amazônia, como a onça-pintada (Panthera onca), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o tatu-canastra (Priodontes maximus), o cachorro-vinagre (Speothos venaticus) ou a ariranha (Pteronura brasiliensis). Outros têm distribuição ampla, mas apenas no bioma Amazônia, como é o caso do peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) e dos primatas cuxiú-preto (Chiropotes satanas) e o macaco-aranha-de-testa-branca (Ateles marginatus).

Esses animais de maior porte sofrem muito não só com a destruição e fragmentação do ambiente, mas também com a caça, pois são apreciados como alimento pelas pessoas que vivem na floresta e até mesmo nas pequenas cidades e povoados. No caso da onça-pintada e da ariranha, o problema maior é o conflito com os humanos – as onças eventualmente atacam animais de criação e causam medo nas pessoas. E as ariranhas são acusadas de competir com os pescadores pelos pescados, o que não é inteiramente verdade. Uma pesquisa recente mostrou que os peixes mais consumidos pelas ariranhas não são as espécies mais apreciadas pelos pescadores.

Na verdade, para essas espécies que ocorrem originalmente em mais de um bioma (onça, tamanduá-bandeira, tatu-canastra, cachorro-vinagre, ariranha, gato-maracajá, gato-do-mato), a Amazônia é quase uma tábua de salvação, pois pela grande extensão de florestas ainda existentes e grandes áreas protegidas ela provavelmente abriga as maiores populações dessas espécies.

Se prestarmos atenção no histórico de destruição dos outros biomas dentro do nosso país, como o Cerrado e a Mata Atlântica, poderemos notar como os números são mais alarmantes e como o ambiente natural foi largamente alterado ou simplesmente suprimido. Temos de aprender com a história e não repetir os mesmos erros, mantendo grandes áreas de ambientes naturais e os grandes rios sob proteção e conectados por corredores ecológicos, de forma a garantir que grandes populações de animais e plantas consigam sobreviver na natureza.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental